CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Com redação final
Sessão: 017.2.54.N Hora: 13:03 Fase: HO
Orador: ROBERTO FREIRE Data: 6/8/2012




PRESIDENTE (JoséSarney. PMDB-AP.) - Com a palavra o Sr. Deputado Roberto Freire, signatário na Câmara dos Deputados nesta sessão.
O SR. ROBERTO FREIRE (Bloco/PPS-SP. Sem revisão do orador.) - Exmo. Sr. Presidente do Congresso Nacional, Senador José Sarney; Exmo Sr. Governador do Estado da Bahia, Jaques Wagner; filho de Jorge Amado, João Jorge Amado; jovens familiares de Jorge Amado; Senadora Lídice da Mata; Exmo.Senador Walter Pinheiro; Deputado Antonio Imbassahy; Presidente da Fundação na Casa de Jorge Amado, Sr. Artur Sampaio.
Quem deveria estar aqui no meu lugar β€” até porque esta é uma comemoração de 100 anos, nacional e internacional, mas éuma comemoração fundamentalmente baiana β€” era o inesquecível companheiro Fernando Santana, baiano, comunista, amigo de Jorge Amado, que nos representaria com muito maior galhardia e baianidade, que é o que esta comemoração tem de mais profundo. Mas me coube o encargo, como Presidente Nacional do PPS, sucessor do PCB.
Quero dar a esta homenagem aquilo que foi marcante em Jorge, inclusive marcante na sua literatura, pelo menos na literatura do início de sua vida como literato, e na sua militância política, e militância política no Partido Comunista Brasileiro.
Fiz um longo discurso, mas quero acalmar todos, porque, depois do discurso do Presidente e Senador José Sarney, seria desnecessário repetir muito do que S.Exa. disse. Evidentemente diria menos do que ele afirmou, mas talvez até com um tempo maior do que o que S.Exa. dispôs. Parece que meu discurso era um pouco mais longo, até porque quis ressaltar algumas intervenções de Jorge Amado na sua militância política, que tem muito a ver com coisas de hoje, algumas delas até lamentando que não tivessem tido continuidade, porque aqui foi dito.
Faço ainda certo paralelo de um admirador do literato Jorge Amado e admirador também do político, de coincidências. Coincidências de militância no partido, da militância na juventude comunista. Ele no Direito, no Rio de Janeiro, em 1932; eu, em 1962, na Faculdade deDireito do Recife, também entrando. Só não tive uma Rachel de Queiroz me indicando para militar na juventude comunista;tive, sim, gente com menor dimensão, menor escopo, mas, de qualquer forma, também com a mesma generosidade de pensar o mundo diferente. Tive depois, um nordestino eleito por São Paulo, tal como um nordestino, que na época não se falava, mas do norte que vinha, Jorge Amado, Deputado Federal por São Paulo. Mais do que isso, Constituinte de 1946 e Constituinte de 1986 pelo Partido Comunista Brasileiro, ambos. Coincidências.
Claro, que boa coincidência Jorge teve ao ser autor da liberdade religiosa na Constituinte. Não precisamos disso na Constituinte de 1986. Mas ele lá foi vitorioso, nós fomos derrotados. A República Laica Brasileira em 1946 foi garantida, quando lá não se teve a obrigação do ensino religioso nas escolas públicas.
Só que nós aqui, em 1986, tivemos que admitir isso que afronta a liberdade, inclusive de crença, porque ao Estado não édado fazer nenhuma perspectiva de proselitismo de qualquer das religiões, apenas garantir que as religiões sejam livres nas igrejas e nas famílias.
Não tivemos essa possibilidade que Jorge teve na Constituinte de 1946. Há várias outras. Também não tivemos aquilo que ocorreu naquela década de sermos cassados. Terminamos a Constituinte.
E mais, tivemos a grata satisfação, como os baianos Leonelli, Lídice e tantos outros, de receber o apoio de Jorge. Não era baianos, mas era na eleição de 1989 para Presidente da República. Ele que, não só ele, mas a sua família inclusive, participou da campanha no Largo da Mariquita, em Salvador, num comício, se fez presente para defender o candidato comunista Roberto Freire. Eu não sei, mas parece inclusive por quem a esposa do Senador José Sarney tinha simpatia naquela campanha de 1989. Era uma simpatia em função de uma ideia generosa, mas que gerou problemas graves, de que tomamos conhecimento. Eu, evidentemente, sem ter consciência, mas em 1956, Jorge, com muita consciência, e tantos outros se afastaram por conta dos crimes de Stalin, a denúncia que foi feita por muito dos erros cometidos por nós comunistas.
Posso falar sem nenhum problema sobre isso, porque não precisei fazer travessia. Em 1962, o PCB, há algum tempo, já tinha deixado o stalinismo de lado, já tinha absorvido a ideia do valor universal da democracia e tinha se encaminhado para aquilo que foi, talvez, o grande momento do partido junto com democratas brasileiros na criação da frente democrática que derrotou uma segunda ditadura que Jorge também enfrentou.
É bom afirmar isso para acabar com essa ideia, que éum mito, de que com o rompimento de Jorge com o PCB, na raiz da denúncia dos crimes de Stalin, ele tenha se afastado daquilo que era a sua vida, daquilo que era a sua dimensão como ser humano, dos seus valores, das suas utopias. Ele se afastou daquilo que foi um erro, que foi corrigido. Eu não sei se tão corrigido, até porque não adianta voltarmos na história porque isso é déjà vu. Foi página importante no século XX, mas evidentemente não mais nada a dizer, salvo manter viva a ideia de uma utopia da sociedade mais justa, sem mais nada a dizer para o século XXI, salvo como página da história que pode aqui ser rememorada.
Jorge Amado fez travessia, como muitos outros intelectuais e muitos outros militantes, mas não deixou de estar ancorado no porto, porque durante todo esse tempo lutou contra o regime militar e se pronunciou. Em momentos importantes contávamos com Jorge, e talvez a sua maior indignação até bem recentemente em 1969, em regime militar recém-instalado, com o assassinato de Marighella, grande companheiro seu,baiano e militante do Partido Comunista Brasileiro. Portanto, são questões daquela época na Aliança Libertadora Nacional ou Nacional Libertadora, dois momentos do movimento comunista brasileiro.
Então, dizendo isso, vou pedir que meu discurso seja dado como lido. Eu gostaria de, com esse introito, dizer que nós do PPS, do velho Partido Comunista Brasileiro, algo que faz parte da nossa história, fez parte da história de Jorge; que ele é uma honra nacional. E mais: é uma honra do mundo, por ter sido um grande, um grande, ser humano.(Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (JoséSarney. PMDB-AP) - Deputado Roberto Freire, a Mesa pede a V.Exa. que permita mandar transcrever nos anais o discurso que V.Exa. haviapreparado.

PRONUNCIAMENTO ENCAMINHADO PELO ORADOR

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, quando tivemos a iniciativa de solicitar a realização desta sessão especial do Congresso, para registrar o centenário de nascimento do escritor Jorge Amado, sem dúvidaum dos mais brasileiros e mais universais dos nossos romancistas, não pretendíamos apenas homenagear este gigante da literatura, mas também relembrar para os mais antigos e dar conhecimento às novas gerações do dedicado e exemplar militante comunista do PCB, por cuja legenda foi Deputado Federal Constituinte, durante os anos de 1946 a 1948, eleito por São Paulo.
Eu pediria ser dispensado no tocante à abordagem dos aspectos mais ligados à vida literária deste baiano que foi um dos mais famosos escritores brasileiros de todos os tempos, cujas dezenas de livros foram traduzidos em 55 países, em 49 idiomas e dialetos, existindo também exemplares em braille e em fitas gravadas para cegos. Como autor de romance ficcional, até hoje ele não teve paralelo em termos de sucesso de público e de crítica. Sua obra literária também conheceu inúmeras adaptações para cinema, teatro, rádio e televisão, para histórias em quadrinhos, não só no Brasil, mas também em Portugal, França, Itália, Argentina, Suécia, Alemanha, Polônia, ex-Tcheco-Eslováquia e Estados Unidos, além de ter sido tema de escolas de samba e de grupos carnavalescos em várias capitais brasileiras. Ele é o autor mais adaptado da TV brasileira, provocando permanentes sucessos, dentre outros, com Gabriela, Cravo e Canela, Tieta do Agreste e Teresa Batista Cansada de Guerra, além de Dona Flor e Seus Dois Maridos e Tenda dos Milagres.
Permitam-me, então, até por estarmos festejando os 90 anos da presença comunista no Brasil, que eu me debruce, concentrando-me, sobre a trajetória deste sempre irrequieto ser político. Curioso éque, mesmo nascido numa fazenda de cacau e filho de um grande proprietário de terras numa área que fazia parte do Município de Itabuna, o nosso querido Jorge, desde muito jovem, deixou-se sensibilizar pela realidade social, onde quer que ele desembarcasse.
Seu roteiro de vida é dos mais singulares. Com apenas 10meses, banhou-se com o sangue do pai, ferido este numa tocaia dentro da própria fazenda. Logo depois de completar 1 ano de existência, uma praga de varíola obriga a família Amado a se estabelecer na cidade vizinha de Ilhéus. Com 5 anos, a família muda-se para outra fazenda, com seu pai voltando ao campo. Em 1918, jáalfabetizado pela mãe, Jorge retorna a Ilhéus e passa a frequentar a escola de Dona Guilhermina, professora que não hesitava usar a palmatória e impor outros castigos a seus alunos. Entre a fazenda e a cidade, nas terras bravias do cacau, assistiu ao drama da conquista da selva; e conheceu os trabalhadores rurais e sua vida de bestas de carga. Com 10 anos, criou um jornalzinho, A Luneta, que foi distribuído pelos orgulhosos pais a vizinhos e parentes.
Para cursar o secundário, vai para Salvador, em 1925, sendo internado no Colégio Antonio Vieira, de padres jesuítas. Ali dá um salto qualitativo, já que, após apresentar ao Padre Luiz Gonzaga Cabra uma redação intitulada O Mar, ganha elogios e faz com que o religioso passe a lhe emprestar livros de autores portugueses e de outras partes do mundo. No ano seguinte, após suas férias na fazenda, o pai leva-o até o colégio, despede-se dele,e o nosso travesso, em vez de entrar no centro religioso, foge. Viaja por largo tempo até chegar à casa de seu avô paterno, em Sergipe. Seu tio, após alguns dias, o leva de volta para a fazenda paterna.
Seu pai vai a Salvador e matricula-o, então, novamente como interno, no Ginásio Ipiranga, em Salvador, e ali Jorge passa a dirigir o jornal do grêmio escolar, A Pátria. Já com 15 anos, passa para o regime de externato e vai morar num casarão no Pelourinho, tempo em que começa a curtir a liberdade das ruas da cidade grande, misturado ao povo dos mercados e feiras, do cais dos saveiros, nas rodas de capoeira e festas de candomblé e no átrio das igrejas católicas centenárias, tudo isso considerado por ele como sua melhor universidade, pois lhe deu o pão da poesia, que vem do conhecimento das dores e das alegrias de sua gente, realidade que iria marcar profundamente sua vida e sua obra.
Apaixonado pela arte da escrita, ao enturmar-se construindo novas amizades, tomou-se um dos fundadores do jornal A Folha. Talvez em busca da sua independência, conseguiu emprego como repórter policial no Diário da Bahia e pouco depois foi trabalhar em O Imparcial, ao tempo em que acrescentava suas contribuições de crítica social e literária à revista A Luva, de 1927/1928.
Participante ativo da vida intelectual da cidade, incorporou-se ao grupo de jovens aguerridos que, em torno do experimentado jornalista e poeta Pinheiro da Veiga, fundaram a Academia dos Rebeldes, de que faziam parte, dentre outros, os futuros companheiros de PCB, como Édison Carneiro, Walter da Silveira e Áydano do Couto Ferraz, os quais criaram as revistas Meridiano e O Momento, abrigo para os trabalhos literários de seus integrantes.
Em 1930, deixou a Cidade da Bahia, como ele gostava de chamá-la, e desembarcou no Rio de Janeiro, a fim de concluir seu curso preparatório e fazer seus estudos universitários.
Jorge teve a sorte de começar a entender a vida β€” da adolescência aos primeiros anos de adulto β€” para se tornar um militante político e um criador literário, num período sociopolítico e intelectual de grande agitação e mudanças no País. De um lado, as investidas armadas e populares para derrotar a Primeira República, também chamada de República Velha, e que culminaram com os eventos conhecidos hoje como a Revolução de 30, e, de outro, as ações de jovens escritores, descontentes com o Movimento Modernista, por ser muito intimista, as quais desembocaram no Romance Social, cujo pontapé primeiro foi dado pelo paraibano José Américo de Almeida, com o seu famoso A Bagaceira.
Esse clarão intelectual criou movimentos afins distintos em todo o País, tendo Jorge integrado uma dessas facções, a importantíssima geração nordestina, da qual também tomaram parte pensadores e políticos,como Amado Fontes, Gilberto Freyre, o próprio José Américo de Almeida β€” que sacramentou a expressão São os do Norte que vêm β€”, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, além de outras personalidades que, mesmo de espírito conservador, demonstravam suas inquietações depois da Revolução de 30. Para Amado, essa nova geração de romancistas chegava à vida e para a criação literária com o peito oprimido sob a angústia do Brasil e do homem brasileiro, em busca de caminhos para a solução dos nossos problemas.
A atual Faculdade Nacional de Direito, da Universidade Federal do Rio de Janeiro β€” UFRJ, na qual ele entrou como um dos primeiros colocados no vestibular de 1931 e se formou bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, em 1935, sem jamais, no entanto, ter exercido a advocacia, era, naqueles tempos agitados, um polo de discussões políticas e de arte, ambiente talhado para um espírito revolto como o dele. Foi ali que ele travou seus primeiros contatos com o movimento de esquerda organizado, culminando com sua entrada na União da Juventude Comunista β€” UJC, braço juvenil do PCB, em 1932, levado pelas mãos da jovem escritora cearense Rachel de Queiroz, e onde desenvolveu relações de amizade com intelectuais da mais variada estirpe. Dois anos depois, foi eleito membro do Comitê Dirigente da UJC.
Curioso e β€” permitam-me o registro β€” é que, 30 anos depois, em 1962, aconteceu algo em muito parecido comigo, na também famosa e tradicional Faculdade de Direito do Recife, onde conheci colegas que me foram emprestando livros e outras publicações de conteúdo ideológico, apresentando temas e discutindo a realidade mundial e brasileira, incorporando-me a ações e movimentos estudantis e também políticos, o que teve seu desfecho também com a minha adesão àUJC e, por ela, ao Partido Comunista Brasileiro.
Jorge Amado, no mesmo ano em que chegou à capital da República, com apenas 18 anos de idade, faz sua estreia em livro, por uma editora carioca, com a novela Lenita, escrita em colaboração com seus conterrâneos Dias da Costa e Édison Carneiro. Logo depois, vai ser redator-chefe da revista Rio Magazine em 1933. Inspirado e estimulado pela rica e desigual realidade que conhecera desde a infância, ele passa a lançar, quase que a cada ano, um romance popular e sempre de grande sucesso. O primeiro deles foi O País do Carnaval, 1931, pela Editora Schmidt, com prefácio de seu dono, o poeta Augusto Frederico Schmidt. O livro recebe elogios dos críticos e seus mil exemplares têm boa venda. Seguem-se os romances Cacau, 1933; Suor, 1934; Jubiabá, 1935; Mar Morto, 1936, e Capitães de Areia, 1937, os quais vão ganhando edições sucessivas de 2 a 3 mil exemplares. Nos anos 50 e 60, as edições eram na faixa dos 100 mil a 150 mil exemplares. O incrível é que ele, ao mesmo tempo em que desenvolvia seu trabalho de jornalista e escritor, participava de vários movimentos literários e populares na Bahia e no Brasil.
Na Cidade Maravilhosa, além das atividades com dirigentes e intelectuais comunistas, ele passa a manter contato e a conviver com gente da qualidade dos poetas Vinicius de Moraes, Jorge de Lima e Raul Bopp; dos romancistas José Américo de Almeida, José Lins do Rego e Amando Fontes; dos cientistas sociais Gilberto Freyre, Otávio de Faria e Gastão Cruis, sem falar em Aurélio Buarque de Holanda. Mais uma atitude inusitada do nosso Jorge é que, ao ter acesso aos originais de Caetés, romance de Graciliano Ramos, empolga-se com o talento do escritor alagoano e viaja a Maceió só para conhecê-lo, iniciando uma amizade que duraria até a morte do autor de Vidas Secas.
Com a ascensão do nazismo ao poder na Alemanha, em 1933, e com o avanço do fascismo no mundo, a Internacional Comunista adota a política de Frente Popular contra o fascismo, incluindo comunistas, socialistas, liberais e outros, tática que, aplicada no Brasil pelo PCB, dá origem à Aliança Nacional Libertadora β€” ANL, tendo Luíz Carlos Prestes como presidente de honra. Jorge, então, vai ser redator do órgão da ANL, no jornal A Manhã, em 1935, ao lado de figuras comunistas da qualidade de Álvaro Moreyra, Di Cavalcanti e Aparício Torelli, o nosso querido Barão de Itararé.
O crescimento da Aliança chega a assumir grandes proporções não só pelo entusiasmo das massas, mas também pelo apoio e adesão de líderes políticos e militares progressistas e de expressão na época. Mas, em julho, ela édeclarada ilegal por Getúlio Vargas, utilizando o pretexto de um manifesto e discurso de Prestes, que afirmava haver no Brasil uma situação pré-revolucionária e revelava uma tentativa de instrumentalizar a ANLpor parte dos comunistas. Quanto mais se isolava, mais a ANL organizava a rebelião, por meio dos quartéis, o que ocorreu no dia 23 de novembro, por meio do 21° Batalhão de Caçadores, em Natal, sob a liderança do seu querido amigo baiano Giocondo Dias, com os revoltosos assumindo o Governo Estadual por uns poucos dias; no dia 24, no Recife, no 29° BC, com os amotinados, entre eles Gregório Bezerra e Severino Theodoro de Mello, mantendo a cidade em estado de guerra por 3dias, sendo depois desbaratados ou se dispersando pelo interior; e, no dia 27, irrompendo no Rio de Janeiro, sublevando o 3° Regimento de Infantaria e a Escola de Aviação Militar, sem ao menos conseguir sair às ruas.
A chamada Intentona Comunista termina em completo fracasso. Daí em diante, o PCB em particular e o movimento operário e outros setores progressistas em geral passam a sofrer violenta repressão, que durará vários anos.
É nesse clima que Jorge conhece sua primeira prisão, em 1936, no edificio sede da Polícia Central do Rio, junto com dezenas de outros detidos, dentre comunistas e outros democratas, acusado de participar do levante ocorrido na cidade de Natal. Numa das noites de cárcere, ele desperta ao ouvir ruídos, e reconhece, dentre os novos hóspedes ali chegados, o Deputado Federal João Mangabeira, seu conterrâneo, preso pelo crime de cumprir com dignidade seu mandato, uma das poucas vozes que não se deixava calar no Parlamento de então, por acusar os donos do poder e defender os presos políticos, e que se tornou posteriormente um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro, aqui neste ato representado pela Senadora, também baiana, Lídice da Mata.
Avançava novos passos o autoritarismo do governo provisório de Vargas, após a Constituição imposta de 1934 β€” a chamada Polaca β€”, dando sequência ao processo de liquidação da democracia então vigente no País.
Em 1937, atendendo a convites e também para afastar-se de ambiente tão carregado, viaja pela América Latina e, em seguida, vai aos Estados Unidos. Enquanto estava fora, sai no Brasil um dos seus clássicos, Capitães de Areia. Ao retornar ao País, chegando a Belém do Pará, é avisado pelo escritor paraense Dalcídio Jurandir de que Vargas dera um golpe de Estado. Não mais que de repente, foge para Manaus, e lá é preso, sendo libertado sóno ano seguinte. Seus livros, considerados subversivos, são queimados em plena Salvador por determinação da Sexta Região Militar. Segundo as atas militares da época, foram queimados 1.694exemplares de seus mais populares romances. Por determinação superior, embora já fosse nome famoso β€” em 1936, Mar Morto recebera o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras β€”, seus livros são retirados de circulação pela censura estado-novista.
Com as dificuldades surgidas nesse período ditatorial, inicialmente instala-se em São Paulo, onde reside com Rubem Braga, depois vai para a Bahia e, em seguida, Sergipe. Nessa época, imprime uma pequena edição do livro de poemas A Estrada do Mar, que distribui para os amigos, quando comemorou ter estreado em dois consagrados idiomas literários do Ocidente: Suor, que sai em inglês, pela New America, de Nova Iorque, e Jubiabá, em francês, pela prestigiosa Gallimard. Sobre sua edição francesa, não se pode deixar de fazer um importante registro: o famoso escritor franco-argelino Albert Camus, futuro Nobel de Literatura em 1957, escreve artigo no jornal Alger Républicain classificando o romance de magnífico e assombroso; e entusiasmado com a leitura dessa obra, o fotógrafo e francês Pierre Verger viajou para a Bahia, radicou sem Salvador, tornando-se um dos amigos mais íntimos de Amado.
Jorge, então, retorna ao Rio no ano de 1939, onde exerce intensa atividade política, num momento em que há desarticulação do PCB e denúncia de que há torturas praticadas sobre vários companheiros presos. Graças a seu prestígio, torna-se redator-chefe das revistas Dom Casmurro e Diretrizes β€” esta teve sua publicação suspensa por ordem da Polícia Política β€” e colaborador da revista Vamos Ler. Não suportando as ameaças e perseguições, é obrigado ao exílio. Vai para Buenos Aires, onde colabora em periódicos como La Crítica, Sud, dentre outros, e depois segue para Montevidéu.
Decide, então, escrever um livro sobre Luíz Carlos Prestes, que se encontrava preso, já pensando numa possível campanha por sua anistia. Nessa direção, ele, nas duas importantes capitais do Prata, faz pesquisas e recolhe material para esse memorial sobre o líder da Coluna. Decorrente desse esforço, publica, na capital portenha, em língua espanhola, no ano de 1942, as biografias ABC de Castro Alves e A Vida de Luiz Carlos Prestes, O Cavaleiro da Esperança, sendo que este foi trazido para venda clandestina no Brasil.
Com a declaração do rompimento de relações do Brasil com o Eixo nazifascista, Jorge Amado foi um dos primeiros exilados a voltar ao País, em setembro de 1942, para colaborar com os movimentos e ações patrióticos. Eis que dias depois de desembarcar, em Porto Alegre, fizeram-no preso e o enviaram para o Rio de Janeiro, sendo recolhido à prisão da Ilha Grande, ao lado de dezenas de aliancistas e comunistas. Posto em liberdade em novembro, a Polícia Política lhe estabeleceu, como residência obrigatória, a cidade de Salvador, para onde ele seguiu.
Integrando-se à vida baiana, em janeiro de 1943, passa a trabalhar na redação de O Imparcial, no qual escrevia diariamente crônicas da cidade e artigos sobre a guerra, verdadeiros primores que ganharam grande público. Ao lado disso, enfronha-se no movimento antifascista, animando-o, mas sobretudo atraindo seus admiradores, além dos simpatizantes do PCB e os meios jornalísticos e intelectuais. Em torno dele gravitava a atividade a um intenso trabalho cultural que se desenvolveu paralelamente ao movimento patriótico que empolgava a Bahia, fortalecendo-o com seu prestígio intelectual e político.
Nesse mesmo mês, em artigo para a revista Seiva, que havia sido criada pelos comunistas, tendo à frente João Falcão, ele defendeu a orientação do PCB e conclamou os líderes das correntes democráticas a abandonar tudo o que pudesse desunir e considerar apenas o que unia a todos: a defesa do Brasil e a luta ativa contra o germano-fascismo. Ele exemplificou com o comportamento positivo dos povos da China e de Cuba, que souberam colocar-se acima das divergências ideológicas e pessoais entre Governo e Oposição para encararem o essencial: a defesa da pátria ameaçada.
E finalizou, categórico: É por isso que me espanta a resistência oferecida por determinados políticos de larga trajetória democrática à concretização da União Nacional em torno do governo do presidente Vargas. Ressalte-se que o romance Terras do Sem Fim é o seu primeiro livro a ser vendido livremente em Salvador e no Rio, após 6 anos de censura.
Na Bahia, ele viajou a muitas cidades do interior, de onde choviam convites de amigos e admiradores para visitá-las, e a esses rincões afastados ele levava as palavras de ordem do partido e a campanha de mobilização popular contra o nazifascismo. Atendia também a convites para palestras, por entidades estudantis, de profissionais liberais, de trabalhadores e de intelectuais, e todas contavam sempre com uma assistência fora do comum. E, mesmo sem gostar, participava de comícios, nos quais fazia emocionados discursos e arrancava aplausos da multidão.
Sua casa, no subúrbio de Periperí, tornou-se uma espécie de meca dos literatos da Bahia, nos 2 anos durante os quais ele sacudiu Salvador e grande parte da Bahia, servindo à causa democrática e antifascista. Para láse dirigiam, aos domingos, companheiros de partido, intelectuais amigos e até admiradores, a quem oferecia almoço de pratos típicos baianos. Nessa sua nova fase baiana, ele ainda encontrou tempo para escrever São Jorge dos Ilhéus, Bahia de Todos os Santos e O Amor de Castro Alves β€” para teatro, a pedido da atriz Bibi Ferreira, cuja companhia teatral é desfeita antes da encenação desse belo espetáculo.
Em janeiro de 1945, Jorge Amado vai para São Paulo, para ser um dos organizadores do ICongresso de Escritores Brasileiros, importante encontro concebido e coordenado por intelectuais comunistas, do qual, além de chefe da delegação baiana, foi um dos seus vice-presidentes. Além dos seus debates e resoluções condenarem a ditadura e exigirem a retomada do processo democrático, a sessão de encerramento desse histórico evento se constituiu um ato contra o Estado Novo, o que irritou os setores fasainda existentes na máquina governamental, provocando a detenção, por várias horas, de Jorge Amado, Caio Prado Júnior e Oswald de Andrade.
Iniciava-se aí nova fase na sua vida. Aproveitando-se de sua presença na capital paulista e considerando que não tardaria a volta dos partidos à legalidade, inclusive a do Partido Comunista, e que haveria eleições presidenciais e para uma Assembleia Nacional Constituinte, até o final do ano, a direção nacional do PCB teve encontros com ele, que culminaram com o convite para dirigir o jornal diário Hoje, em São Paulo, e candidatar-se a Deputado Federal pelo Estado paulista.
Admitam-me aproveitar esta oportunidade para fazer uma comparação ligeira entre dois tipos de ditaduras que infelicitaram o País no século XX e realçar uma orientação política no enfrentamento delas: a do Estado Novo, implantada em 1937 e que durou até 1945, e a militar, de 1964, que se arrastou por cerca de 20 anos. É que o PCB, nesses períodos de atropelo às liberdades, foi o único partido que, mesmo atuando de forma clandestina e sob violenta repressão β€” sem deixar de cometer equívocos aqui e acolá β€”, procurou aproveitar as brechas surgidas no combate a esses regimes de exceção, de forma a estimular a participação crescente de pessoas e correntes de opinião em todas as ações que criassem condições concretas no sentido de levar o País a isolar e derrotar o autoritarismo e conquistar a retomada do processo democrático.
Na ditadura populista de Vargas, que num primeiro momento se manifestava simpática à política e aos avanços nazifascistas dentro do contexto da II Guerra Mundial, os comunistas brasileiros agiram de forma a convencer os democratas, independente de sua convicção política e/ou ideológica, de que o caminho para reconquistar a democracia passava por desenvolver um amplo movimento na sociedade capaz de pressionar e levar o Brasil a declarar guerra ao eixo, pois a derrota deste na Europa forçosamente criaria as condições para pôr fim ao Estado Novo. Dito e feito.
O mesmo ocorreu, nos anos 60/70, quando o PCB, não se distanciando de suas formulações renovadoras iniciadas em 1958, propôs a formação de uma ampla aliança da esquerda com democratas de centro e até conservadores como o caminho para superar o regime ditatorial. Como todos sabem, foi, assim, através do Movimento Democrático Brasileiro β€” MDB, partido criado artificialmente pelo regime e que pela resistência se transformou na grande frente democrática que se desenvolveu e foi instrumento da luta política aberta e de massas e com a qual se isolou e se derrotou a ditadura no País. No seio das forças de esquerda, a divisão se delimitou muito nítida: entre os que defendiam a reconquista da democracia, pela via aberta da política de massas, e os que optavam pelo combate estreito da luta armada, via guerrilha urbana e rural, de minúsculos grupos tidos como revolucionários para assaltar o poder e nele implantar a ditadura do proletariado.
Para enfrentar e obter bons resultados no pleito nacional que se realizaria no dia 2 de dezembro de 1945, o PCB decidiu adotar uma iniciativa inovadora em termos de disputa eleitoral. É que, tendo clareza sobre a importância da comunicação para conquistar corações e mentes, o partido passou a implantar, com a ajuda de companheiros e aliados, gráficas e editoras em várias e importantes capitais do País e, apoiado nelas, a lançar jornais, revistas e livros, difundindo informações, análises e propostas que iam ampliando seu raio de ação e sua força política. O diário Hoje, por exemplo, de São Paulo, dirigido por Jorge Amado, era o de terceira maior tiragem na capital, com uma edição de 70 mil exemplares, o que era algo extraordinário para a época.
Algo muito pouco sabido é que Jorge Amado também tinha pendores publicitários. Em 1934, no Rio, tornara-se chefe de publicidade da Livraria José Olympio Editora, que veio a ser uma das maiores casas editoriais do País β€” uma das suas estratégias era preparar e remeter press releases a todos os veículos de comunicação, principalmente emissoras de rádio, jornais e revistas. Na José Olympio, ajudava também na parte editorial, tendo influenciado na publicação de O Conde e o Passarinho, primeiro livro do cronista capixaba Rubem Braga, e no lançamento de autores latino-americanos como o uruguaio Enrique Amorim, o equatoriano Jorge Icaza, o peruano Ciro Alegría e o venezuelano Rómulo Gallegos β€” de quem traduziu o romance Dona Bárbara.
Em 1945, engenhoso como poucos, passou a criar e coordenar o trabalho de divulgação visual do PCB, no centro político do País, a capital da República. Juntamente com o escritor paraense Dalcídio Jurandir, criou o slogan Falam os muros da cidade. Os militantes foram orientados a espalhar cartazes e faixas pelas cidades, com palavras de ordem do tipo Estado Novo nunca mais, Legalidade para o PCB, Viva a democracia, Cuida-te contra os secretas de Filinto β€” alertava os comunistas e demais democratas contra os agentes infiltrados da Polícia Política do Governo Vargas.
Na campanha eleitoral, Jorge dirigiu inicialmente a propaganda para o pleito de dezembro, utilizando os slogans Constituinte e liberdade, Morte ao azifascismo e Elejamos o Cavaleiro da Esperança para o Senado. Inclusive, ele sugeriu a Prestes passar a visitar favelas e escolas de samba, ao mesmo tempo em que, com a ajuda do compositor Dorival Caymmi, compôs o hino da campanha do futuro Senador, arrebatando multidões por onde passava, segundo o compositor Heitor Villa-Lobos. Mais que isso, foi dele a proposta de se organizar dois grandes comícios e que se concretizaram, o primeiro, em maio, no Rio, no campo de São Januário, do Vasco da Gama, onde Luiz Carlos Prestes, recém-saído da prisão, discursou para um estádio completamente lotado, e o segundo, em julho, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, onde também a multidão se espraiava pela Praça Charles Miller, tidas como as maiores manifestações populares realizadas no País até então. Outros grandes comícios aconteceram em outras capitais, como no Recife e em Salvador, nos meses de agosto e setembro. Para o evento paulista, Jorge trouxe seu querido amigo e companheiro de lutas do PC chileno, o poeta Pablo Neruda β€” que viria a conquistar o Prêmio Nobel de Literatura, 26 anos depois. Foram acontecimentos muito importantes no contexto da época, reveladores do prestígio do Cavaleiro da Esperança, do Partido Comunista e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, então vitoriosa junto com aliados, à frente os Estados Unidos, na luta contra o nazifascismo na II Guerra Mundial.
Para a batalha em busca de votos, o PCB, além de contar com os seus jornais diários ou semanais, nas mais importantes cidades do País, por meio dos quais faziam a propaganda dos seus candidatos, apresentando suas biografias, suas qualidades e seus méritos, e as propostas que tinham para o País, torna-se inovador na estratégia dentro do projeto de eleger o máximo de seus candidatos. Tratava-se de imprimir e envelopar não apenas o modelo de cédula que o eleitor deveria usar no dia da eleição, mas também um pequeno panfleto com uma análise da realidade mundial e brasileira sob a ótica do partidão e a lista dos seus candidatos. À época, a ênfase maior era sobre o partido e não apenas sobre o candidato, por mais importante e visível que este fosse.
Toda a capacidade de mobilização dos comunistas se destinava a fazer o até hoje conhecido porta-a-porta em cada rua e bairro. Cada militante tinha como missão conquistar seus parentes, vizinhos, companheiros e amigos e estimulá-los a contatar casas ou conjuntos residenciais, pedindo licença para entregar aos membros da família o modelo de cédula eleitoral e lhe transmitir algumas informações e ideias sobre a eleição e como melhor se posicionar sobre os candidatos, levando em conta os interesses do País e de sua gente. No caso de Jorge, além de sua visibilidade natural, por ser um nome famoso, ele escrevia, além de no jornal Hoje, também na Folha da Manhã, e era secretário do Instituto Cultural Brasil-URSS, cujo diretor-geral era Monteiro Lobato, num momento em que, com a vitória dos Aliados sobre o nazifascismo, a imagem da União Soviética era das mais positivas e simpáticas.
Graças ao extraordinário desempenho nas eleições de dezembro de 1945, nas quais o seu candidato a Presidente da República, Yeddo Fiúza, obteve cerca de 10% do total de votos, ficando em terceiro lugar, o PCB alcançou papel de destaque na Assembleia Nacional Constituinte, ao se constituir a quarta maior bancada, de um total de 9 partidos disputantes, elegendo 1 senador e 15 deputados β€” 4,7%. Os representantes dos interesses das classes dominantes, sobretudo das oligarquias, eram o Partido Social Democrático, com 54,7%, e a União Democrática Nacional, com 26,3%, que juntos dariam as cartas na elaboração da nova Constituição, seguidos do Partido Trabalhista Brasileiro, PTB, ainda em organização por Getúlio Vargas, que foi o terceiro colocado, com 6,8%. Estruturados nacionalmente, os comunistas haviam lançado candidatos em todas as Unidades da Federação, fato possibilitado pela articulação deles com bases organizacionais previamente existentes.
A bancada pecebista era composta pelo engenheiro e ex-Capitão do Exército, o gaúcho Luiz Carlos Prestes, eleito Senador pelo Distrito Federal; e pelos Deputados por Pernambuco, o ex-Sargento do Exército e líder camponês Gregório Bezerra, o médico Alcedo Coutinho e o ferroviário e operário mecânico Agostinho de Oliveira; pela Bahia, o jornalista Carlos Marighela; pelo Distrito Federal, o operário e marinheiro cearense João Batista Neto, o contador e desenhista técnico paraense João Amazonas, e o jornalista baiano Maurício Grabois; pelo Rio de Janeiro, o operário metalúrgico e carpinteiro Alcides Sabença e o ferroviário e carpinteiro Claudino Silva, o primeiro negro eleito Deputado no País; por São Paulo, o médico e jornalista Milton Caires de Brito β€” destacado militante comunista na Bahia e um dos principais responsáveis pela reorganização do PCB após a Conferência da Mantiqueira, no Rio, em 1943), o advogado, jornalista e escritor baiano Jorge Amado, o ex-sargento do Exército, pedreiro e alfaiate paraense Jose Maria Crispim, e o estivador e líder sindical em Santos, o sergipano Osvaldo Pacheco; e pelo Rio Grande do Sul, o operário metalúrgico Abílio Fernandes e o ex-militar Trifino Correia.
Já no tocante ao perfil social de seus integrantes, a bancada comunista era a mais jovem da Constituinte, sendo que 56,2% de seus membros tinham menos de 40 anos β€” o mais jovem, Osvaldo Pacheco, não completara ainda 30 anos. O PCB era também a agremiação com a maior porcentagem de Parlamentares sem curso universitário β€” 62,5% β€” e também o único partido cuja metade de seus membros era constituída de pessoas que exerceram profissões manuais como atividade principal β€” 50% β€” e representavam 80% do total de todos os Constituintes. Outro detalhe a considerar é que, apesar de todos eles terem tido militância clandestina, apenas quatro não haviam ainda sido presos, no caso Alcides Sabença, Batista Neto, Milton Caires de Brito e Osvaldo Pacheco.
Instalada a Constituinte, em fevereiro de 1946, o Presidente eleito, Marechal Eurico Gaspar Dutra, desencadeou ativa repressão contra os subversivos. Além do mais, os Parlamentares dos demais partidos olhavam os comunistas com suspeita, quando não de repulsa. Qualquer emenda ou projeto da bancada via-se rejeitado in limine. Senadores e Deputados conservadores e/ou reacionários do PSD e da UDN β€” 81% da ANC β€” descobriam na proposição mais inocente o famigerado dedo de Moscou, uma ameaça à sociedade estabelecida, à moral e aos bons costumes, à família brasileira. Foi nesse período que houve o lançamento dos seus audaciosos livros Seara Vermelha, pela Editora Martins, e, pela Edições Horizonte, do Rio de Janeiro, Homens e Coisas do Partido Comunista.
Jorge Amado, como Parlamentar ativo em Plenário e nas Comissões, denunciava os espezinhamentos por parte do Governo e concentrava sua atuação na luta pela ampliação das liberdades individuais e políticas e na defesa das propostas do PCB. Logo no início dos trabalhos constituintes, interveio várias vezes para justificar propostas da bancada comunista ao Regimento Interno, realizando pronunciamentos, nos quais leu documento de seu partido em que reivindicava a imediata revogação da antidemocrática Carta de 1937, imposta por Vargas ao País, e justificava emenda de sua autoria β€” rejeitada β€”, suprimindo dispositivo regimental que concedia ao Presidente da Assembleia Nacional a prerrogativa de censurar expressões não parlamentares dos discursos de Constituintes.
Em outras fases do processo de elaboração constitucional, ocupou a tribuna para proferir discursos denunciando o fechamento do Sindicato dos Estivadores e da União Geral do Sindicato dos Trabalhadores de Santos; protestando contra a apreensão de edições do diário comunista Tribuna Popular, por esbirros da ordem política e social; e declarando voto contra o projeto constitucional, aproveitando a ocasião para justificar longamente uma série de emendas apresentadas pela bancada comunista ao projeto. Além disso, foi encarregado pelo PCBde saudar, em nome da bancada comunista, várias personalidades de destaque em visita ao Parlamento.
Em março, a situação internacional começava a sofrer alterações, com o início da chamada Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, o Governo Dutra e diversos setores das classes dominantes tudo faziam para isolar e barrar o crescimento do PCB, que se expressava, sobretudo, na conquista da hegemonia do movimento sindical, seja no Movimento de Unificação dos Trabalhadores β€” MUT, cujo objetivo era inserir os sindicatos e o movimento operário na política geral, seja na Confederação Geral dos Trabalhadores do Brasil β€” CGTB, e na influência junto a amplos setores da intelectualidade. Ainda em 1946, o Governo proíbe a existência do MUT, ao tempo em que decreta a intervenção nos sindicatos e a suspensão das eleições sindicais.
Na condição de membro da Comissão de Estudo das Indicações e mesmo vivenciando um clima anticomunista crescente, Amado formulou diversas indicações e pareceres sugeridos por outros Constituintes. Dentre estes, destacam-se seus pareceres positivos às indicações de Luíz Carlos Prestes, propondo a desaprovação, pela Constituinte, do Decreto-Lei nº 9.070, baixado pelo Governo Dutra, proibindo o direito de greve e protestando contra a presença de agentes da Delegacia de Ordem Política e Social nas assembleias sindicais; de Horácio Lafer β€” PSD-SP, sugerindo a criação de um órgão governamental para estimular o plantio de trigo no Sul do País; e da UDN baiana, solicitando a restituição aos cacauicultores da Bahia da diferença entre os preços de compra e exportação do cacau adquirido pelo Instituto do Cacau durante o Estado Novo. Além disso, declarou voto contra a moção do líder pessedista Nereu Ramos β€” PSD-SC β€”, louvando as Forças Armadas pela dissolução a tiros de comício organizado pelo PCB no Largo da Carioca, na capital federal, e manifestou-se favorável à ruptura de relações diplomáticas com a ditadura franquista e à supressão das polícias políticas. Foi ainda contrário à invocação da proteção de Deus no preâmbulo da Constituição, ao ensino religioso obrigatório nas escolas de 1° e 2° graus e ao Estado de Sítio preventivo.
Nesse sentido, é importante registrar que a bancada do PCB, na Constituinte de 1987/1988, da qual éramos o líder, defendendo a República laica, também se posicionou contrariamente à proposta dos representantes do pensamento da Igreja Católica no sentido de tornar obrigatório nas escolas públicas o ensino da religião dominante. Algumas lideranças cristãs evangélicas temiam pelo que poderia acontecer com essa liberdade que tenderia a fortalecer a hegemonia católica, mas votaram a favor.
Jorge Amado chegou a apresentar 15 emendas ao Projeto de Constituição, das quais se destacam, dentre outras, a que suprimia a necessidade de censura prévia para a publicação de livros e periódicos; a que, pela primeira vez no País, garantia direitos autorais; e a que eliminava dispositivo que facultava apenas a brasileiros natos o exercício das profissões liberais. Porém, orgulhava-se de duas delas, que foram transformadas em lei, tornando-se fundamentais para a futura liberdade de ação e expressão: uma diz respeito à liberdade religiosa e a outra refere-se àfacilidade para que a imprensa e as editoras obtivessem papel de imprensa a preços acessíveis, a fim de imprimirem suas publicações.
Na sua vida, desde muito jovem, constatara que a liberdade de professar uma crença ou religião, com a separação entre o Estado e a Igreja, definida quando da implantação da Constituição da República, em 1891, não passara do papel, de uma farsa. Cursando a vida popular baiana, inclusive nas casas-de-santo, nos terreiros de candomblé, foi-lhe dado testemunhar a violência desmedida com que os poderes do Estado e da Igreja tentavam aniquilar os valores culturais provenientes da Africa. Além da discriminação religiosa, havia perseguição aos orixás, violência contra pais e mães-de-santo que eram presos, espancados e humilhados, e tinham seus lugares sagrados invadidos e destruídos.
A segunda lei de sua autoria derrubou algo vigente há anos no Estado Novo, ou seja: a aquisição de papel era profundamente controlada pelo Governo Vargas, aproveitando-se a ditadura das dificuldades inerentes à época, devido à Segunda Guerra, para também dificultar ao extremo a mobilização de forças oposicionistas, entre estas os comunistas, que precisavam de papel para suas atividades políticas e culturais β€” desde o mais simples panfleto de rua até a confecção de jornais, revistas e livros.
Mesmo sofrendo uma desonesta campanha, por todos os meios possíveis, em que eram acusados de dirigidos por uma potência estrangeira, teleguiados de Moscou, espiões soviéticos e coisas similares, nas eleições estaduais de janeiro de 1947, os comunistas confirmaram sua votação anterior, elegendo um número razoável de Deputados em vários Estados, além de obter uma grande votação nos pleitos municipais β€” em algumas cidades, conquistando a maioria dos eleitos para as Câmaras Municipais.
No dia 7 de maio desse ano, manifestando-se sobre denúncia do Deputado Barreto Pinto, o tribunal cassou o registro do PCB, acusado de ter dois estatutos, de se denominar Partido Comunista do Brasil e não Brasileiro, de utilizar símbolos internacionais β€” foice e martelo β€”, etc. A partir desse momento, ampliou-se a perseguição, suspendendo o funcionamento da UJC, fechando as sedes partidárias, apreendendo seus arquivos e fichários, demitindo todos os funcionários públicos suspeitos e decretando o fechamento da CGTB, a maior organização de trabalhadores existentes no País e que tinha a hegemonia comunista.
No dia 7 de janeiro de 1948, os Parlamentares do PCB têm seus mandatos cassados, e a polícia invade e depreda as redações de mais de uma dezena de jornais comunistas, nas principais capitais brasileiras. O partido é jogado na clandestinidade. Ao se referir à data, Jorge Amado comenta:
Dia triste, de derrota política, a batalha pelos mandatos durara meses, árdua e áspera β€” batalha perdida β€”, sabíamos desde o começo. Dia alegre, pois me livrei do fardo da deputação, não nasci para parlamentar, sou refratário às tribunas e aos discursos. Custou-me esforço colocar-me à altura do mandato, creio que não fui de todo mau deputado, apesar de minhas limitações e das decorrentes da suspeição que cercava a bancada comunista e do sectarismo que dirigia sua atuação.
Prezados senhoras e senhores, se dependesse da vontade ou sonho dele, como se vê, nosso homenageado não teria se candidatado àAssembleia Constituinte. Resistiu até onde lhe foi possível. Mas aceitou a tarefa colocada pela direção nacional do PCB, assumindo o compromisso pessoal com o próprio Prestes de permanecer no máximo 3 meses na Câmara Federal, quando as mais importantes questões da nova Carta Magna deveriam ter sido apresentadas e discutidas, para aprovação no Plenário da Assembleia Nacional Constituinte. Jornalista e escritor que era, adorava concentrar-se nessas atividades que tanta satisfação lhe davam, como militante engajado.
Gostava de proferir palestras ou conferências, e não se furtava a discursar, onde quer que fosse, a convite ou por determinação partidária, porém jamais gostou de subir em palanques e/ou tribunas, já que nunca se considerou um orador ou mesmo alguém que pretendesse permanecer no Parlamento por vários mandatos. Quando, por acaso, isso ocorria, ele repetia sempre que cumpria apenas mais uma tarefa do partido.
Com o PCB posto na ilegalidade, tendo cassado seu mandato eseus livros considerados como material subversivo, Jorge Amado, ainda no mês de janeiro de 1948, parte sozinho em exílio voluntário para Paris.Em fevereiro, sua casa no Rio é invadida por agentes federais, que apreendem livros, fotos e documentos. Logo após o episódio, Zélia e o filho partem para Gênova, na Itália, onde Jorge os apanha, levando-os a residir com ele em Paris. Para ele, naquele momento, que vivia exclusivamente dos direitos autorais das suas obras, não havia outro caminho para dar continuidade ao seu trabalho literário e desenvolver suas atividades políticas. Para alegria sua, foi, nessa ocasião, que o escritor travou amizade com Jean-Paul Sartre,Picasso e outros expoentes da literatura e da arte mundial, assim como com os maiores dirigentes comunistas do planeta.
Sempre atento militante político, além dos contatos que desenvolvia com intelectuais comunistas e outros democratas, ele muito contribuiu para a realização exitosa, em Wroclaw, na Polônia, em 1948, do Congresso Mundial de Escritores e Artistas pela Paz, do qual foi um dos vice-presidentes, e tendo como ilustres presenças, dentre outras as de Picasso, Louis Aragon e Ilyá Ehrenburg, seus amigos pessoais. Foi também, naquele período, um dos ativos dirigentes do Conselho Mundial da Paz, como representante do Brasil e cuja sede era em Praga.
Nessa sua intensa atividade internacional, desde seu exílio europeu, destacam-se ainda sua participação, em 1949, no Congresso de Escritores na então Tchecoslováquia, e em uma promoção de autógrafos organizada pelo Comitê Francês de Escritores em Paris; em 1950, sua colaboração ao Movimento Mundial Pró-Libertação do poeta e à época Senador Pablo Neruda; sua presença no Congresso dos Escritores Romenos, em Bucareste; no Congresso Albanês pela Paz, em Tirana; e no II Congresso de Escritores Poloneses; sua participação como presidente do I Congresso Continental de Cultura, em Santiago do Chile, em 1953; assim como no II Congresso de Escritores Soviéticos, em Moscou, em 1954; e na 1 Exposição Internacional do Livro Infantil, no Rio de Janeiro, em 1958.
Em 1951, recebeu em solenidade no Kremlin, em Moscou, o Prêmio Stalin da Paz, depois renomeado para Prêmio Lênin da Paz. Recebeu também títulos de Comendador e de Grande Oficial, nas ordens da Argentina, Chile, Espanha, França, Portugal e Venezuela, além de ter sido feito Doutor Honoris Causa por dez universidades em Portugal, Itália, Israel, França e no Brasil, onde, em abril de 1961, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, cadeira 23, cujo patrono é José de Alencar. Foi também membro correspondente da Academia de Ciências e Letras da antiga República Democrática Alemã; da Academia das Ciências de Lisboa; da Academia Paulista de Letras; e membro especial da Academia de Letras da Bahia.
De volta à pátria, instalou-se no Rio, onde organizou a coleção Romances do Povo, de 25 volumes, lançados pela Editorial Vitória, criada pelo PCB, no Rio de Janeiro, de 1954 a 1956, e foi um dos fundadores do jornal Para Todos, no ano de 1956. No ano de 1954, lançou o romance Os Subterrâneos da Liberdade, do qual sentia um grande orgulho por entender que β€” bem ou mal escrito β€” era o único painel histórico verdadeiro, na literatura brasileira contemporânea, a confrontar diretamente os esbirros do Estado Novo, os trotsquistas e os quinta-colunas integralistas.
Em seguida, ele concebeu e editou sucessos da qualidade dos romances Gabriela, Cravo e Canela, 1958; A Morte e a Morte de Quincas Berro dAgua, 1961; Os Velhos Marinheiros ou o Capitão de Longo Curso, 1961; Os Pastores da Noite, 1964; O Compadre de Ogum, 1964; Dona Flor e Seus Dois Maridos, 1966; Tenda dos Milagres, 1969; Teresa Batista Cansada de Guerra, 1972; a historieta infanto-juvenil O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, 1976; os romances Tieta do Agreste, 1977, e Farda, Fardão, Camisola de Dormir, 1979; os contos Do Recente Milagre dos Pássaros, 1979 e as memórias O Menino Grapiúna, 1982;o de literatura infantil A Bola e o Goleiro, 1984; os romances Tocaia Grande, 1984, e O Sumiço da Santa, 1988; as memórias Navegação de Cabotagem, 1992;o romance A Descoberta da América pelos Turcos, 1994; a fábula O Milagre dos Pássaros, 1997; e as crônicas Hora da Guerra, 2008.
É profundamente lamentável que os seus problemas de saúde o tenham impedidode concluir o romance picaresco Bóris, o Vermelho, que, segundo dizia a amigos, seria uma sátira não só ao anticornunismo profissional brasileiro, mas a todo tipo de tirania.
Foram-lhe outorgados no Brasil e no exterior os maiores prêmios que um intelectual e político merece, exceção apenas do Nobel. Dentre outros estrangeiros: Prêmio de Latinidade, Paris, 1971; Prêmio do Instituto Ítalo-Latino-Americano, Roma, 1976; Prêmio Risit dAur, Udine, Itália, 1984; Prêmio Moinho, Itália, 1984; Prêmio Dimitrov de Literatura, Sofia, Bulgária, 1986; Prêmio Pablo Neruda, da Associação de Escritores Soviéticos, Moscou, 1989; Prêmio Mundial Cino DeI Duca da Fundação Simone e Cino Del Duca, 1990, e Prêmio Camões β€” o maior das outorgas em língua portuguesa β€”, Lisboa, 1995. No Brasil, dentre outros: Prêmio Nacional de Romance, do Instituto Nacional do Livro, 1959; Prêmio Graça Aranha, 1959; Prêmio Paula Brito, 1959; Prêmio Jabuti, 1959 e 1970; Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, do Pen Club do Brasil, 1959; Troféu Intelectual do Ano, 1970; Prêmio Fernando Chinaglia, Rio de Janeiro, 1982; Prêmio Nestlé de Literatura, São Paulo, 1982; Prêmio Brasília de Literatura β€” Conjunto de Obras,1982; Prêmio Moinho Santista de Literatura, 1984; prêmio BNB de Literatura, 1985.
Recebeu também diversos títulos honoríficos, nacionais e estrangeiros, entre os quais: Comendador da Ordem Andrés Bello, Venezuela, 1977; Commandeur de lOrdre des Arts et des Lettres, da França, 1979; Commandeur de la Légion dHonneur, 1984, também da França; Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia, 1980,e do Ceará, 1981; Doutor Honoris Causa, pela Universidade Degli Studi de Bari, Itália, 1980, e pela Universidade de Lumiàre Lyon II, França, 1987; Grão Mestre da Ordem do Rio Branco, 1985,e Comendador da Ordem do Congresso Nacional, Brasília, 1986.
No último triênio do século XX, é convidado a proferir conferências na Universidade da Pensilvânia, EUA, 1971; a participar do I Congresso de Escritores da Língua Portuguesa, Lisboa, 1989;a representar o Brasil na Comissão Internacional que assessorou o projeto de reconstrução da antiga biblioteca de Alexandria, Egito, 1990; a fazer parte da Mesa-Redonda sobre a Literatura Brasileira, promoção da Seção da América Latina da Associação France-Amérique e do Pen Club, França, 1990. Participou ainda, no ano seguinte, de uma série de atividades, em que se destacam uma tarde de autógrafos no Salão do Livro β€” Evento Primavera do Livro, em Cassis, França; do I Encontro Mundial das Artes, organizado pelo Fórum Mundial das Artes, em Veneza, Itália; fez parte do júri do Prêmio Nonino, na Itália; do Grupo dos Cem, composto de intelectuais e escritores latino-americanos em defesa do meio ambiente e do Fórum Internacional sobre Cultura e Democracia em Praga, República Tcheca. Já em 1992, além de ser escolhido como membro colaborador da Fundação Guillén, em Havana, Cuba, participou do Seminário Reencontro de Dois Mundos, em comemoração ao IV Centenário do Descobrimento da América, em Paris, França.
Um aspecto pouco conhecido do grande Jorge é que também se lançou no mundo da composição, sendo autor de letras para músicas, em parceria com Dorival Caymmi e João Gilberto das quais a que mais aprecio, pois muito me emociona já que adoro ver panorama em beira de praia: É doce morrer no mar. Ele também compôs, com Caymmi e Carlos Lacerda, a serenata Beijos pela noite. E mais curioso ainda: fez papel de pescador no filme Itapuã, de Ruy Santos, no qual também colaborou na criação do argumento. Na área do cinema, aliás, 1947, por exemplo, foi um ano de vários acontecimentos para ele: a Atlântida comprou os direitos de Terras do Sem Fim; ele escreveu os diálogos do filme O Cavalo Número 13, uma produção de Fernando de Barros, e ainda o argumento de Estrela da Manhã, que seria dirigido por Mário Peixoto, encarregado também do roteiro β€” o filme acabou sendo feito, mas não por Peixoto.
Como adorava escrever, Amado deixou mais de cem mil páginas em formas de cartas trocadas com gente do mundo inteiro, contendo relatos sobre livros e obras de arte, assim como sobre fatos do cotidiano. Grandes escritores, poetas e intelectuais deseu tempo se corresponderam com ele: Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Monteiro Lobato e Gilberto Freyre, entre outros brasileiros; Pablo Neruda, Gabriel García Márquez e JoséSaramago, entre tantos outros estrangeiros.
No campo da política, a correspondência se estabeleceu com nomes os mais variados como Juscelino Kubitschek, François Mitterrand, Antônio Carlos Magalhães e José Sarney, tendo mantido estreita relação de amizade e elogiado seus trabalhos literários, desde que leu seu livro de contos Norte das Aguas, no qual, diz Jorge, encantou-me o conhecimento íntimo que revelava da vida popular da gente maranhense, (que) ele a recriou numa escrita rica de invenção.
Faço um destaque especial, nesse plano, para o cidadão baiano Giocondo Gerbasi Alves Dias, considerado por Jorge como um irmão siamês dele. Ante o desenlace, em 1987, do sucessor de Prestes na Secretaria Geral do PCB, escreveu Amado:
Morreu Giocondo Dias, agora sou metade apenas. Ele cravejou a certeza no peito, jamais renegaria mesma se a evidência o deixasse β€” e o deixou β€” sozinho em meio à multidão de camaradas. (...) Viveu clandestino boa parte de sua existência, na Bahia, com nome falso, era a cabeça do PC, quem de fato o dirigia (...), tinha bom senso, ouvia e aprovava, e a algaravia dos arruda-boys que arrotavam marxismo β€” alguns ainda o arrotam e peidam. Só nós dois, ele e eu, sabíamos por fora e por dentro e poderíamos contar daqueles anos da guerra na Bahia. (...) Nos encontrávamos nas esquinas do mundo, nas encruzilhadas do Brasil (...), Giocondo, modesto e discreto sorria, era ternura e desengano, jamais o desencanto pela vida: abandonar, isso nunca, tomava-me do braço, afirmativo: mais além da merda, chegaremos à relva de flores, ao rio de águas puras, à decência do homem. (...) Juntos batalhamos, erramos e aprendemos. Aprendemos na carne a diferença entre a grandeza dos ideais e a miséria da ideologia, ficamos sabendo que o grande homem pode diminuir em anão quando o vírus do mundo β€” ainda que seja nesga ínfima do poder absoluto β€” lhe invade o sangue e lhe atinge o coração. Havíamos aprendido tudo o que havia a aprender e ninguém mais podia nos enganar, mas não ficamos nem áridos nem pérfidos, conservamos intacto o sonho que iluminou nosso percurso (...) Sou metade de mim mesmo (...). 
Assim como para Jorge Amado, Giocondo foi para mim também uma espécie de outra metade, pois foi dele a iniciativa de me levar à direção nacional do PCB e nela me valorizar, criando as condições para que eu me tornasse, ao lado de Salomão Malina, seu principal dirigente.
Nascido em uma família católica, tendo estudado em colégio interno religioso, e mesmo dizendo-se materialista, Jorge Amado era simpatizante do candomblé, religião na qual exercia o posto de honra de Obá de Xangô, no Ilê OpóAfonjá, do qual muito se orgulhava. Sua introdução ao terreiro se dá, em Salvador, em 1927, quando conhece o pai-de-santo Procópio, que o nomeará ogã β€” protetor β€”, o primeiro de seus muitos títulos religiosos. Suas amizades nessa área foram construídas, com o passar dos anos, com destaque para as mães-de-santo Mãe Aninha, Mãe Senhora, Mãe Menininha do Gantois, Mãe SteIla de Oxóssi, Olga de Alaketu, Mãe Mirinha do Portão, Mãe Cleusa Millet, Mãe Carmem e o pai-de-santo Luís da Muriçoca.
No plano estritamente familiar, Jorge era filho de João Amado de Faria e Eulália Leal, teve três irmãos mais jovens que ele: Jofre, 1915, o médico neuropediatra; Joelson, 1920; e o escritor James Amado, 1922.
Casou-se, em primeiras núpcias, em 1933, com a sergipana Matilde Garcia Rosa, com quem escreveu e lançou o livro infantil Descoberta do Mundo, e teve com ela uma filha, Eulália Dalila. Desquitou-se desta em 1944 e, a partir de julho de 1945, passou a viver com a escritora paulista Zélia Gattai, tendo oficializado, em 1978, esta sua relação, da qual nasceram João Jorge, em 1947, e Paloma, em 1951.
Para sintetizar tão produtiva e militante vida, nada mais posso dizer que não apenas na sua intensa atividade política, que durou mais de meio século, mas na sua criativa e imorredoura produção intelectual, Jorge Amado teve pautada sua trajetória colocando-se sempre pela liberdade contra o despotismo e a prepotência; pelo explorado contra o explorador; pelo oprimido contra o opressor; pelo fraco contra o forte; pela alegria contra a dor; pela esperança contra o desespero. Como ele mesmo escreveu, jamais fui nem serei imparcial nessa luta do homem, na luta do futuro e o passado, entre o amanhã e o ontem.
A trilha por ele escolhida foi a de constante fidelidade aos ideais democráticos e o caminho nada cômodo de compromisso com os que nada têm e lutam por uma oportunidade igual aos outros, com os que, mesmo sendo criadores e construtores dos bens do mundo, deles não usufruem. E pagou caro por essa opção, não apenas várias vezes sendo perseguido, constrangido e preso, como também obrigado ao exílio, o que ocorreu durante momentos em que as liberdades democráticas eram espezinhadas no País.
Não é estranho, portanto, que suas obras, consideradas como uma das mais significativas da moderna ficção nacional, com dezenas de livros de enorme sucesso de público e de crítica, tenham como temas constantes os problemas e injustiças sociais, a política, as crenças e tradições, e também e de forma pioneiramente acentuada a sensualidade do povo brasileiro.
Sobre o rompimento com o stalinismo, Jorge Amado, ao deixar a militância, além de recusar inúmeros convites para se integrar a partidos que também se diziam de esquerda, ainda criticava, aberta e juntamente com Astrojildo Pereira, Ênio Silveira, Nelson Werneck Sodré, Oscar Niemeyer e outros antigos, o surgimento de partidos com a palavra comunistaem suas siglas respectivas, considerando-os apenas meros oportunistas.
Ressalte-se ainda que, mesmo magoado, jamais renegou o seu passado comunista e nem as láureas do tipo Prêmio Stalin da Paz, recebido em 1951, sendo de ressaltar que a éntão União Soviética e o restante do então bloco socialista jamais vetaram o seu nome para presidir ou simplesmente participar de encontros internacionais pela cultura e/ou pela paz, depois que se afastou do PCB.
Esse seria apenas um dado pequenino da nossa história, que ajudaria muito a desmontar, neste seu primeiro centenário de nascimento, a lenda de que ele tenha abandonado de vez os seus princípios, que haja se omitido ante o advento do golpe de 1964 e até mesmo que se mantivera neutro ao regime dos militares, conforme versões desonestas que circularam na imprensa da época. Jorge Amado, muito pelo contrário, além de só se referir aos golpistas como gorilas, assinou o manifesto do Comando Geral de Trabalhadores Intelectuais, criado pelo PCB, em plena clandestinidade, e também ajudou concretamente dezenas de perseguidos políticos, de todos os partidos, a deixarem o País, além de auxiliar seus respectivos familiares, enquanto se batia contra as prisões e sobretudo contra as torturas.
Tão odiado pelos protofascistas militares e civis, quanto qualquer um de nós, ainda militante do dia a dia, ele usava o seu prestígio de romancista para enviar notícias ao exterior, pedindo liberdade e também a respeito da participação oficial brasileira na Operação Condor. O auge de sua irritação contra 1964 se deu quando os militares mataram, em São Paulo, em uma emboscada, no dia 4 de novembro de 1969, o seu amigo de adolescência baiana, camarada de PCB e depois colega de Constituinte, Carlos Marighela β€” apesar de discordar das novas formas de luta deste contra a ditadura.
Nesse sentido, foi motivo de muita alegria e orgulho para mim, quando o PCB me lançou candidato à Presidência da República, na primeira eleição direta, após 25 anos de ausência de disputa democrática, em 1989, ter recebido de Jorge todo o seu apoio, sob a forma de declarações públicas e até de gravação de imagem. Ele afirmava abertamente que eu era o portador das melhores ideias e propostas na luta para fazer reformas estruturantes, sem as quais o Brasil continuaria sendo um gigante de pés de barro.
Salve Jorge Amado, o intelectual e o militante político, em seu primeiro centenário de nascimento! Salve Jorge!