17 de fevereiro de 2005
Portal Vermelho
TRABALHADORES
CUT se divide sobre reforma sindical
O projeto de reforma sindical que o governo promete encaminhar
ao Congresso Nacional em 2 de março está provocando
uma notável divisão no interior da Central Única
dos Trabalhadores (CUT). Isto ficou evidente nesta quarta-feira
(16), durante reunião da Diretoria Executiva da Central,
quando dois projetos de resolução sobre o tema foram
a voto.
Um deles define apoio ao projeto, embora com ressalvas: foi apresentado
pela tendência majoritária, a Articulação
Sindical (Artsind). O outro, proposto pela Corrente Sindical Classista
(CSC), considera a proposta elaborado pelo Ministério do
Trabalho (em parte com base no debate do Fórum Nacional
do Trabalho) um retrocesso que deve ser repudiado e combatido.
Venceu a proposta de resolução da Artsind (com
13 membros entre os 25 que compõem a Executiva), mas a
divisão ficou patente. Por razões diversas, os 12
outros componentes da Executiva que não pertencem à
corrente majoritária têm posição contrária
à proposta e sobressai uma certeza: a Central não
marchará unida nas mobilizações contra e
a favor do projeto que deverão ser deflagradas ao longo
deste ano.
Dirigentes classistas de entidades ligadas à CUT divulgaram
na reunião da Executiva um manifesto em que explicam as
razões de sua rejeição e conclamam à
luta contra o projeto de reforma sindical. Veja a íntegra
do texto:
"Projeto de reforma é um retrocesso
para o sindicalismo brasileiro"
"Na condição de dirigentes da Central Única
dos Trabalhadores (CUT) vimos a público manifestar nossa
oposição ao projeto de reforma sindical que o governo
pretende encaminhar ao Congresso Nacional, consistente de uma
PEC (Proposta de Emenda Constitucional) e um PL (Projeto de Lei
ordinária). Expressamos a firme convicção
de que, por mais de uma razão, as propostas em questão
constituem uma séria ameaça de retrocesso em matéria
de organização, democracia, conquistas e direitos
dos trabalhadores brasileiros.
A ameaça começa pela revogação pura
e simples do inciso II do Artigo 8º da Constituição,
que preconiza a unicidade sindical. Deixa de existir limite geográfico
para a definição da base dos sindicatos, que também
não se constituirão pelo critério de ramo,
categoria ou setor de atividade. Cai por terra todo esforço
para impedir a pulverização das organizações
sindicais.
O propósito, evidente na PEC e no PL, é instituir
um pluralismo sindical limitado, sob o estrito controle das cúpulas,
baseado na proliferação dos chamados sindicatos
derivados, sem o requisito de representatividade nas bases e concebidos
como uma estrutura orgânica das centrais. Trata-se de um
tipo de organização essencialmente antidemocrática
e cupulista, que vem sendo classificado com ironia – e não
sem razão – de sindicato biônico.
Defendemos o aprimoramento da unicidade, vinculando-a a critérios
de democracia, representatividade e aprovação das
bases, em assembléia geral. Não é este o
espírito da reforma. A exclusividade de representação
é concedida de forma restrita, e como exceção,
somente para sindicatos já existentes, sendo vedada aos
que serão constituídos futuramente. Mesmo para as
entidades atuais dificilmente será viabilizada, uma vez
que variados obstáculos são impostos neste sentido.
Os critérios de democracia não possuem caráter
universal, são exigidos apenas para quem optar pela exclusividade
de representação. Aos sindicatos que não
fizerem tal opção tudo será permitido.
O projeto também abre caminho à flexibilização
dos direitos trabalhistas, instituindo a prevalência do
negociado sobre o legislado, revivendo a odiosa iniciativa do
governo FHC, que à época foi repudiado com firmeza
pela CUT. O princípio segundo o qual, em caso de conflito
entre a legislação, convenções ou
acordo coletivo vale a norma mais benéfica ao trabalhador
e não necessariamente o negociado – uma exigência
da bancada sindical no Fórum Nacional do Trabalho e compromisso
do governo –, desaparece. Prevê-se que o contrato
coletivo de nível superior (firmado pelas centrais, confederações
ou federações) terá cláusulas que
não poderão ser alteradas pelos sindicatos.
O dissídio coletivo fica inviabilizado na medida em que
só poderá ser instalado se for ajuizado em comum
acordo por patrões e empregados e não mais por uma
das partes envolvidas no conflito, insinuando-se a privatização
da mediação e solução dos conflitos
e o fim do poder normativo da Justiça do Trabalho quando
se trata de proteger o empregado. Por outro lado, o caráter
repressivo do Poder Judiciário é reforçado
e o já limitado direito de greve sofre novas restrições.
Ao mesmo tempo, o direito à negociação e
greve no setor público permanece em suspenso, o que consideramos
inaceitável. Já o Conselho Nacional de Relações
do Trabalho fica atrelado ao Ministério do Trabalho, cujos
poderes também resultam ampliados.
A organização por local de trabalho (OLT) é
um avanço e corresponde a um antigo anseio dos sindicalistas
mais combativos. Todavia, também neste aspecto o projeto
deixa a desejar, Serão conferidas atribuições
de Comissão de Conciliação Prévia
à representação de base, o que enseja justificados
temores.
Por outro lado, a PEC não garante a criação
da OLT, limita-se a prevê-la, remetendo a concretização
de tal objetivo à legislação ordinária,
num quadro de correlação de forças adverso
aos trabalhadores.
Não somos contra a reforma em princípio. Consideramos
que a organização sindical brasileira precisa ser
modificada, mas num sentido progressista, voltado para o fortalecimento,
a unidade e a democratização das organizações
de massas da classe trabalhadora e subordinado aos interesses
refletidos na luta por um novo projeto de desenvolvimento nacional,
fundado na soberania e na valorização do trabalho.
Infelizmente, o projeto em tela se orienta noutra direção
e traduz interesses hostis à classe trabalhadora, induzindo
à divisão, ao cupulismo e ao enfraquecimento do
movimento sindical.
Por tudo isto, conclamamos à unidade e luta contra este
projeto e por uma reforma que efetivamente corresponda aos interesses
imediatos e futuros da classe trabalhadora.
Assinam o texto membros da CSC que atuam na direção
de entidades e instâncias cutistas de abrangência
nacional: Wagner Gomes, vice-presidente da CUT; Paschoal Carneiro,
da executiva nacional da CUT; Gilda Almeida, secretária
de políticas sociais da executiva nacional da CUT; Carlos
Rogério de Carvalho Nunes, da executiva nacional da CUT;
Gilson Reis, suplente da executiva nacional; Everaldo Augusto,
presidente da CUT/Bahia; Jaime Ramos, presidente da CUT/Rio de
Janeiro; José Antonio de Lacerda (Jota), presidente da
CUT/MG; Madalena Guasco, presidente da Contee-CUT; Maria Eugênia,
presidente da Fenafar-CUT; Wagner Fajardo, presidente da Fenametro;
Edson Pimenta, presidente da Fetag/Bahia. Segundo Batista Lemos,
coordenador da CSC, nos próximos dias o manifesto buscará
a adesão de mais sindicalistas.
Umberto Martins