26 de fevereiro de 2004
Revista Istoé
Nº 1793 | 18/02/2004
Zona nada franca
Porto de Manaus é alvo de
batalha judicial entre Estado e arrendatárias: sob suspeita
a licitação e a atuação das empresas
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| Moralidade:
a deputada Vanessa e o governador Eduardo Braga lutam para
cancelar a licitação do porto |
Florência Costa
Um cheiro podre exala à margem do rio Negro, em pleno
Amazonas. Lá está o Porto de Manaus – projetado
em 1890 pelos ingleses, no auge da era da borracha. Tombado pelo
Patrimônio Histórico Nacional, o porto é alvo,
há quase dois anos, de uma guerra jurídica de proporções
amazônicas. Nessa batalha fluvial, um caudaloso rio de acusações
deságua sobre o processo de licitação do
porto, realizado em 2001, na gestão do então governador
Amazonino Mendes, e sobre a própria atuação
das empresas privadas. O Porto de Manaus – com suas complexas
operações de carga e descarga de insumos para a
Zona Franca de Manaus e de produtos para exportação
e para consumo nacional, como aparelhos eletrônicos e bicicletas
– movimenta cerca de R$ 700 milhões por ano. O porto
é a casa de máquinas de um transatlântico
para o Amazonas: 98% de seu sistema de transporte é aquaviário.
Também é lá que é feito o controle
aduaneiro, com a atuação de fiscais para impedir
o tráfico de mercadorias contrabandeadas.
A guerra pelo porto travada nos tribunais tem de um lado as atuais
empresas arrendatárias Estação Hidroviária
e a Revitalização do Porto de Manaus. De outro,
a atual administração estadual, nas mãos
do governador Eduardo Braga (PPS), políticos como a deputada
federal Vanessa Grazziotin (PCdoB), a Agência Nacional de
Transportes Aquaviários (Antaq) e a própria União.
A intenção do governo estadual não é
tomar conta do porto para sempre, já que pretende arrendar
para a iniciativa privada. A idéia é anular a licitação
feita em 2001 por considerá-la irregular. O Estado havia
conseguido retomar o porto temporariamente na quinta-feira 5,
com uma decisão favorável na Justiça estadual.
Mas cinco dias depois recebeu um golpe, com a decisão do
Superior Tribunal de Justiça (STJ), na quarta-feira 11,
de transferir para a Justiça federal a competência
de julgar o caso, como pleiteavam as empresas arrendatárias.
Com a decisão do STJ, as empresas podem retomar de novo
o porto, e o fim do conflito – que causa prejuízos
ao erário público a cada dia que passa – fica
mais distante.
Os sinais de podridão são muitos e o rol de denúncias
é extenso. O primeiro ataque ao processo de licitação
partiu da deputada Vanessa Grazziotin, que em 2002 entrou com
ação popular para sustá-lo, quando o governador
era Amazonino Mendes. Ela elencou 18 irregularidades, entre elas
a falta de documentos que qualificam as empresas vencedoras, a
ausência de prestação de contas, de relatórios
informando o andamento das obras de revitalização
do porto, a falta de fiscalização dos serviços
e a inexistência de estudos de impacto ambiental e do patrimônio
histórico. A ação arrasta-se lentamente pela
Justiça. Mas ganhou força com o apoio do governador
Eduardo Braga e do Tribunal de Contas da União, que fez
uma auditoria e confirmou as ilegalidades. Vanessa Grazziotin
está otimista com relação ao front que criou
com a ação popular. “Com o apoio do governador
e da União vamos vencer essa guerra, que é em favor
dos cofres públicos e da moralidade administrativa”,
afirmou. “O problema é gravíssimo porque o
porto é a nossa alternativa econômica. Há
um grupo de pessoas inescrupulosas que tomaram conta do porto,
não prestam conta de nada e o Estado está perdendo
dinheiro. Não tenho dúvida de que a licitação
foi fraudulenta”, afirmou a deputada.
Silvestre de Castro Filho, presidente da Sociedade de Navegação
Porto e Hidrovias (SNPH), empresa pública que exerce a
função de autoridade portuária do Estado,
diz que nunca recebeu prestação de contas das empresas
arrendatárias, como manda a lei, desde que assumiu, em
outubro de 2003. Ele lembra que, na gestão de Amazonino
Mendes, integravam a cúpula da SNPH – a parte fiscalizadora
– pessoas que se tornaram sócias das próprias
empresas arrendatárias. Uma dessas pessoas é o ex-senador
Carlos Alberto de Carli, que foi exonerado no ano passado pelo
governador Eduardo Braga. Há duas semanas, Carlos Alberto
De Carli foi um dos políticos citados pelo lobista Sérgio
de Andrade, preso pela Polícia Federal, acusado de extorsão
em um esquema de contrabando na Zona Franca de Manaus envolvendo
até US$ 10 milhões. O lobista disse que De Carli,
entre outros, estaria à frente desse lobby.
A SNPH desembolsou no governo anterior R$ 35 milhões para
as empresas arrendatárias, que tem como um de seus sócios
o próprio De Carli. O acordo foi de pai para filho: as
empresas devolvem o dinheiro em suaves prestações:
em 240 meses com juros a 6% ao ano. “As arrendatárias
receberam à vista e recompraram a prazo”, constatou
Silvestre. Um negócio da China em pleno coração
da Amazônia.