27 de abril de 2004

Senhor, Presidente, Senhoras e Senhores Deputados,
Tendo em vista a nossa visita a Palestina, ocupo esta tribuna
no dia de hoje, para fazer, talvez mais um relato do que um pronunciamento,
e quero confessar que o faço tomada de profunda emoção.
Participei de uma comitiva de parlamentares que esteve, em missão
oficial, na Palestina, com o objetivo não só de
ter contato com diversos membros e o Presidente do Parlamento
Palestino, a quem entregamos uma carta do Presidente João
Paulo Cunha, por meio da qual convidamo-os para uma visita ao
Brasil e a nossa Câmara dos Deputados, mas também
para conhecer de perto a verdadeira situação daquela
nação e do povo Palestino.
Nossa comitiva foi composta por 4 Deputados: Além de mim,
o Dep. Jamil Murad (PcdoB/SP) que coordenou a missão, Dep.
Leonardo Matos (PV/MG) e Dep. Nilson Mourão (PT/AC). Fomos
acompanhados pelo Embaixador da Palestina no Brasil, Musa Amer
Odeh, pelo Presidente da Federação Palestina na
América Latina e Caribe, Dr. Farid Sahuan e 3 jornalistas
de importantes órgãos de comunicação
de nosso país.
No período de 7 dias, de 18 a 24 do mês em curso,
percorremos a região e realizamos mais de 3 dezenas de
reuniões. Contamos com o total apoio da Autoridade Nacional
Palestina e da Embaixada do Brasil em Israel, que tem também
jurisdição sobre o território Ocupado Palestino.
Penso ser necessário, Sr. Presidente, fazer algumas afirmações
antes de falar sobre o que vimos, ouvimos, vivemos e sentimos
em território Palestino, para que jamais possam afirmar
que estamos defendendo somente um lado, sem levar em consideração
a realidade do outro.
1. Não se trata de assumirmos uma postura contra os Judeus
ou contra o Estado de Israel, pelo contrário, uma vez que
internacionalmente e a própria Autoridade Nacional Palestina
reconhece o Estado de Israel, dentro dos limites estabelecidos
pela Resolução n° 181 de 1947 da Assembléia
Geral da ONU.
2. Entretanto, o que não podemos admitir , e jamais compactuar
é com a ação agressiva, violenta e desumana
que o Governo de Israel promove contra o povo Palestino caracterizada
por uma política de extermínio desse povo e de anexação
progressiva do território Palestino por Israel.
Sr. Presidente, senhoras e senhores Deputados, para que possamos
melhor entender as razões do conflito basta fazer uma breve
retrospectiva desde a aprovação da primeira resolução
da ONU sobre o assunto, em 1947. Após inúmeras manifestações
e revoltas Palestinas contra o domínio Britânico
sobre a região, a Grã-Bretanha anunciou, em 1947,que
não estava mais preparada para continuar a administrar
a Palestina e pediu uma solução para a recém
criada Organização das Nações Unidas
- ONU. Naquele momento os palestinos e os 5 Estados Árabes
pediram a independência da Palestina, mas a Assembléia
Geral recusou o pedido e nomeou um Comitê Especial das Nações
Unidas para a Palestina - UNSCOP, cujo relatório maior,
aprovado pela Assembléia Geral da ONU através da
Resolução 181/1947 previa a divisão da Palestina
com a criação de dois Estados, árabe e judeu:
O Estado da Palestina ficaria com somente 43% do território
Palestino histórico (11.800 Km²) apesar de ter mais
de 2/3 da população ocupando mais de 90% do território
enquanto o Estado de Israel ficaria com 57% da área Palestina
(14.500 Km²). Jerusalém, por sua vez, ficaria como
um corpus separatum, sob a administração especial
da ONU. Os palestinos, por considerar injusta a partilha, recusaram
a Resolução. No ano seguinte, 1948, Israel proclama
instalado seu Estado, que é admitido nas Nações
Unidas em 11 de maio de 1949.
A partir da resolução estabeleceu-se o caos, o
que levou a duros ataques de Israel contra o povo Palestino, como
o massacre e assassinato, em 1948, de 254 Palestinos na aldeia
de Deir Yassin em Jerusalém, como parte das ações
para a ocupação total de Israel sobre Jerusalém
a fim de torná-la uma cidade judia, e em dezembro de1949,
num completo desrespeito a resolução da ONU, Israel
declara Jerusalém sua capital.
No que pese inúmeras tentativas de paz, diversas resoluções
da Assembléia Geral e Conselho de Segurança da ONU
e de outros Organismos Internacionais e apesar do grande esforço
implementado pela Organização para a Libertação
da Palestina - OLP, que sob a direção e liderança
de Yasser Arafat, numa histórica reviravolta política,
em 1973 optou pelo caminho da negociação e gestões
diplomáticas, para a resolução do impasse,
o que culminou com a aprovação, em 1974, pelo Conselho
Nacional Palestino da opção favorável a criação
dos 2 estados proposto pela ONU.
Apesar de tudo, e mesmo os Palestinos tendo aberto mão
de parte importante de seu território histórico,
os sucessivos governos de Israel, com o apoio dos EUA, nunca puseram
fim a política de anexação de outros territórios
e de agressão contra o povo Palestino e outros povos árabes,
como na guerra dos 6 dias, em 1967, que levou a ocupação
da Cisjordânia, Faixa de Gaza, cidade velha de Jerusalém,
Península do Sinai do Egito e as Colinas Sírias
de Golã, bem como o ataque, em 1982, sob o comando do então
Ministro da Defesa - atual Primeiro-Ministro de Israel - Ariel
Sharon, aos acampamentos de Sabra e Shatila em Beirute - Líbano,
massacrando e assassinando mais de 3 mil refugiados Palestinos
desarmados, além de outras sucessivas e contínuas
tentativas de destruir as lideranças da OLP, e de quaisquer
facções políticas que se oponham aos planos
de Israel, cujo principal objetivo é a desocupação
total da área pelos Palestinos e o extermínio desse
povo.
Em 1987, como mais um ato de extremado desespero, os Palestinos
iniciaram a primeira Intifada, mas intensificaram também
as atividades diplomáticas e, com amplo apoio da comunidade
internacional, em 15 de Novembro de 1988 a Conferência Nacional
Palestina, realizada na Argélia, proclama o Estado Palestino
e reconhece todas as resoluções da ONU.
Em Setembro de 1993, no processo de busca da Paz, são
assinados entre Yasser Arafat e Itzhak Rabin os acordos de Oslo,
o que permitiu que, em 1994 Arafat retornasse ao território
Palestino e a partir daí fosse instalada a Autoridade Nacional
Palestina - ANP. Entretanto, em 1995, Rabin é assassinado
por um Israelense de extrema direita. Com a posterior eleição
dos Primeiros-Ministros Benyamin Natainiahu e Yehud Barak, suspende-se
o diálogo pela paz. Mesmo a tentativa de um acordo em Camp
David, em 2.000, não prosperou.
Com a eleição de Ariel Sharon, em 2001, ampliou-se
o grau de violência contra os Palestinos. Há 2 anos
assistimos aos duros massacres contra os Palestinos, que continuam
até hoje.
No ultimo dia 15 o Presidente dos EUA, George Bush, apareceu
ao lado de Sharon e anunciou para o mundo inteiro o seu apoio
a proposta de Israel denominada de "rota da Paz", que,
apesar de admitir a retirada de alguns assentamentos e colônias
israelenses em área Palestina (os quais já são
considerados ilegais por diversas resoluções da
ONU) está longe de representar a busca da paz, pois na
prática a proposta de Sharon retira 58% do território
Palestino determinado pela Resolução n° 181,
o que significa que os 22% do território histórico
que caberia a Palestina poderão ser reduzidos a aproximadamente
9% e o mais grave: para viabilizar sua proposta, o Primeiro-Ministro
de Israel manda matar umas lideranças palestinas e ameaça
outras abertamente, inclusive Yasser Arafat. Vejamos a sua mais
recente afirmação quando disse que o presidente
Norte-Americano teria se desobrigado de manter a integridade física
do mesmo, o que levou Sharon a afirmar que a vida de Arafat está
em suas mãos.
Os assassinatos de Palestinos sucedem-se dia-a-dia, a humilhação
imposta àquele povo é condenável, e agora
o governo de Israel avança na construção
ilegal do Muro de segregação dos palestinos e de
confisco do território Palestino - que eles cinicamente
chamam de muro da segurança - e é sobre isso que
eu passo a falar, sr. Presidente.
Entramos, dia 18, em território palestino, através
da fronteira com a Jordânia depois de horas de verificação
em um posto de controle de Israel - os chamados chek -points.
Após 40 minutos de viagem de táxi - pois não
é permitida a passagem de carros- chegamos a Ramallah e
na entrada da cidade fomos submetidos à nova e prolongada
verificação dos soldados de Israel e já aí
presenciamos a reação de jovens palestinos que respondiam
com pedras às bombas de gás que eram lançadas
pelos soldados que tentavam dispersar as manifestações
dos palestinos em protesto a morte de AbdelAziz Rantissi, líder
do Hamas, que foi brutalmente assassinado a mando de Sharon, menos
de 1 mês depois do seqüestro e o brutal assassinato,
(em 22.03), do xeque Ahmed Yassin, um idoso e debilitado líder
religioso e fundador da organização Hamas.
Já no primeiro dia, e após uma reunião com
um Padre da Igreja Católica Romana, que nos relatou as
barbaridades sofridas dia-a-dia pelos palestinos, estivemos com
Yasser Arafat.
Há 2 anos, a sede da ANP, onde fica Arafat, foi quase
que totalmente destruída e por meses ele ficou cercado,
sem luz, água e alimentos, ainda hoje Arafat está
lá, preso, sem sequer poder tomar sol, foi lá, neste
lugar muito simples e semi destruído, sr. Presidente que
ele nos recebeu por duas vezes, semana passada.
A primeira vez ele estava acompanhado de inúmeros dirigentes
da ANP e todos recebiam apoio, manifestação de solidariedade
e incentivo de centenas de palestinos, devido a situação
tensa vivida na região. Nosso segundo encontro se deu na
manhã do dia 20, e por mais de 1 hora e meia o Presidente
da autoridade Palestina nos relatou com detalhes a situação
difícil de seu povo, falou-nos das humilhações
impostas por Israel, das mortes de mulheres, crianças,
idosos e jovens que se sucedem na maioria das vezes sem qualquer
razão. Falou-nos do descumprimento, por parte dos governos
de Israel, das resoluções e acordos internacionais
e bilaterais. Disse que há 44 meses o governo de Israel
não repassa os recursos do recolhimento de tributos que
a Palestina tem direito.
Falou-nos da subtração cada vez maior do território
e da segregação de seu povo, devido a construção
do muro, da transformação das cidades em guetos
e da tentativa de levar seu povo ao desespero. Falou do uso experimental
de armas novas contra os palestinos, algumas com urânio
não enriquecido. Falou-nos que o crime deles não
respeita nem os Templos Religiosos. Falou-nos da sua prisão,
da prisão de todo seu povo. Contou-nos de uma história
de catástrofe a que todos os Palestinos estão submetidos,
uma catástrofe permanente, duradoura, mas também
falou da resistência, da bravura de todo um povo e da certeza
da vitória Palestina.
Destacou a amizade entre os nossos povos e as importantes iniciativas
do governo Lula, em determinar um embaixador especial para o Oriente
Médio e especialmente para ajudar na busca da paz entre
a Palestina e Israel, e da abertura de um escritório diplomático
em Ramallah. Falou-nos de sua esperança na implantação
do Estado Palestino.
Encontramo-nos com importantes dirigentes da ANP, Parlamentares,
lideranças políticas e religiosas, representantes
de ONG's, Acadêmicos e pessoas comuns. O Primeiro-Ministro
Hamad Qorei, O Primeiro negociador da Palestina Saeeb Erekat,
o Ministro das Relações Exteriores Nabeel Shaath,
o Presidente do Parlamento Nacional Rawhi Fattouh, Deputados,
inclusive de Israel, o Prefeito de Belém, da cidade de
Gaza, o Governador de Qalqilia Mustafá Al Malki. Todos,
como Arafat, expuseram-nos dados, relataram fatos.
Mas não precisava falar, pois durante uma semana sr. Presidente,
tivemos a oportunidade de ver como se dão os acontecimentos,
a verdade dos fatos. Vimos como todos os Palestinos, todos tem
a sua liberdade privada, todos estão presos. Uns na prisão,
em território Palestino, sob a observação
de estrangeiros,como o Secretário Geral da Frente Popular
de Libertação da Palestina Ahmad Saddat, que está
preso numa penitenciária em Jericho. Outros na prisão
em Israel como o Deputado Federal Marwan Barghouthi, preso incomunicável
e sem julgamento. Outros tem prisão domiciliar, como o
próprio Arafat. E todos estão presos em seus bairros
em suas aldeias, em suas cidades. Pra sair, pra ir ao médico,
escola, trabalhar, todos tem que ter permissão de Israel,
que hoje tem mais de 730 chek-poits.
Vimos, enquanto esperávamos horas nos chek-poits, como
os palestinos são tratados pelos soldados de Israel, vimos
mulheres, idosos serem empurrados com canos de metralhadoras,
sem qualquer razão, vimos portões fechados com dezenas
de palestinos esperando sua abertura, vimos todos serem revistados.
Na cidade de Qalqilia, durante uma reunião com Deputados,
o Prefeito e o Governador, ouvimos um deputado dizer que apesar
das dificuldades que estávamos passando, elas representavam
muito pouco, ou quase nada perto do que passam diariamente os
palestinos. E mais tarde eu pude confirmar isso, quando Palestinos/Brasileiros,
nossos amigos que vivem na Palestina e em Manaus, empresários,
gente séria e trabalhadora, que sabendo da nossa estada
na região deslocaram-se de sua cidade, Hebron para nos
encontrar em Ramallah, cujo trajeto demora não mais que
40 minutos, relataram-nos que levaram mais de 8 horas para chegar,
passaram por 9 vistorias nos chek-points, andaram vários
quilômetros a pé e trocaram de carro 9 vezes. Ainda
em Qalqilia, fomos ver o Muro pelo lado Palestino e lá,
apesar de estarmos há uma longa distância, fomos
surpreendidos por um soldado que lançou uma bomba contra
nós.
No dia seguinte da nossa visita, soubemos que próximo
ao local onde plantamos uma oliveira 2 palestinos foram mortos.
Senhor Presidente, no Brasil como no mundo, vimos muitas imagens
e afirmações de que a luta do povo palestino está
diretamente ligada ao terrorismo, mostram e condenam a ação
de jovens homens bombas, também reprovamos a atitude, mas
a mesma imprensa não mostra que a maioria dos soldados
de Israel são jovens, que muitas vezes sequer suportam
o peso da metralhadora que carregam, além de estarem despreparados
para desempenhar à tarefa.
Sr. Presidente se por um lado o mundo, com razão reprova
ações terroristas, que aliás, na grande maioria
das vezes não são de responsabilidades dos palestinos,
não podemos aceitar a continuidade das ações
de Israel contra os palestinos, que podemos caracterizar como
terrorismo de estado. Conclamos os brasileiros e o mundo a condenarem
as atitudes de Israel e ajudarem o povo palestino a conquistar
a sua independência e o seu estado.
Nossa chegada, permanência na Palestina, se deu num clima
de extrema tensão, pois somente nos dias em que lá
ficamos foram mais de 20 mortes, na Cisjordânia e na Faixa
de Gaza.
Devemos ter claro também a necessidade premente do cumprimento
de todas as resoluções da ONU sobre o conflito Palestina/Israel,
em especial a Res. 181/1947 que determina a criação
dos Estados da Palestina e Israel. Sr. Presidente, Senhoras e
Senhores Deputados, como todos sabem a Palestina, assim como todo
o mundo árabe, vive um momento de extrema tensão.
Os EUA, sob o pretexto da existência de armas químicas
de destruição em massa, invadiu o Iraque, cujo povo
promove uma forte resistência, que tem levado a dezenas
de mortes quase que diariamente. As ações violentas
de Israel na Palestina, da mesma forma, tem se intensificado nos
últimos meses.
Sob o risco de o mundo voltar a enfrentar uma grande guerra,
é nosso dever defender a paz e ao mesmo tempo os direitos
da humanidade e suas nações. Foi com base nesses
princípios que nos solidarizamos com o povo palestino,
que precisa ter assegurado o desenvolvimento integral e independente
de seu Estado.
Muito Obrigada,
Deputada Vanessa Grazziotin
PCdoB/AM