03 de junho de 2003
A
CRÍTICA
Juiz
descarta ida à CPI
[ Joubert Lima - Especial para A CRÍTICA ]
O juiz Lafayette Carneiro Vieira Júnior informou ontem,
à A CRÍTICA, que não é obrigado a
prestar esclarecimentos sobre seus atos na CPI dos Combustíveis,
no Congresso Nacional, salvo se quiser ou se a Justiça
assim determinar. De antemão, o juiz disse que não
tem intenção de ir à CPI. A prerrogativa
está prevista na Lei Orgânica da Magistratura. Lafayette
Júnior tornou-se alvo de críticas ao baixar uma
liminar, na última quinta-feira, dia 29, fixando margem
mínima de lucros para 11 postos de combustíveis
de Manaus. A medida obrigou os postos a elevarem os preços
que vinham praticando para o litro da gasolina e causou estranheza
na população.
A possibilidade de Lafayette Júnior depor na CPI surgiu
com a entrada de um requerimento da deputada federal Vanessa Grazziotin
(PC do B/AM), que pedia a convocação do magistrado,
em caráter emergencial, para esclarecer a sua posição.
Segundo a parlamentar, a decisão se estenderia a empresários
do setor.
O Ministério Público do Estado (MPE) solicitou
vistas dos autos que originaram a decisão judicial. Os
documentos serão avaliados pelo promotor de Justiça
dos Direitos do Consumidor, Lincoln Queiroz. A diretora do Programa
Estadual de Proteção e Orientação
ao Consumidor (Procon/Am), Rosely Fernandes, também pediu
vistas dos autos. Segundo Rosely, os postos envolvidos praticavam
preços entre R$ 1,79 e R$ 1,82 para o litro da gasolina,
o que resultava no acirramento da concorrência no setor.
Essa concorrência, comenta Rosely, fica prejudicada com
a fixação de uma margem mínima.
Diante da decisão judicial, o Auto Posto Gemar e o J.C.M.
Auto Posto Ltda. interpuseram, no último dia 30, um agravo
de instrumento junto ao Tribunal de Justiça do Estado,
na tentativa de suspender os efeitos da liminar. A ação
dos postos está sendo apreciada pelo desembargador Francisco
das Chagas Auzier Moreira.
De qualquer forma, todos os postos citados na liminar - e também
os que não foram - cumpriram a determinação
judicial e praticavam, na tarde de ontem, preços na média
de R$ 2,15. Em alguns casos, a variação entre o
preço antigo e o reajustado à força ultrapassa
os 20%. É o caso do Posto Transequador (Equatorial) - no
bairro de Educandos (Zona Sul), que antes da liminar comercializava
o litro da gasolina a R$ 1,78. Por conta da decisão, teve
que reajustar para R$ 2,15.
O gerente do Auto Posto Agenor (Texaco), na Betânia, Zona
Sul, Eduardo Rodrigues, 28, explicou que o posto praticava preços
mais acessíveis devido a uma série de fatores. "Para
começar, nosso posto é próprio, não
precisamos pagar aluguel; e temos um caminhão para fazer
o transporte do combustível; então não pagamos
frete. Além disso, fazemos uma forte contenção
de despesas. A realidade de cada posto é diferente, quem
não pode, que se retire do setor", detalhou Eduardo.
Antes da determinação judicial, o Auto Posto Agenor
comprava o litro do combustível por R$ 1,68, e revendia
por R$ 1,78, com lucro de 6%.
No entanto, o empresário Leopoldo Rocha de Oliveira, 47,
proprietário do Auto Posto Liberdade (DNP) tem uma outra
explicação para os preços acessíveis
praticados por seus concorrentes. "Eles são donos
de distribuidoras, por isso podem vender mais barato".
Dona de posto diz que ficou surpresa
A empresária Carmélia Carvalho, dona do posto Santa
Rosa, de bandeira Esso, localizado na avenida Carvalho Leal, 1562,
Cachoeirinha (Zona Sul), disse que ficou surpresa com a decisão
judicial que obrigou o estabelecimento a reajustar o preço
da gasolina. Ela tomou conhecimento da liminar na noite de quinta-feira
e no dia seguinte colocou um aviso justificando o reajuste.
"Eu tinha que avisar os clientes, porque o preço
do produto era R$ 1,859 e eu estava reajustando para R$ 2,15",
diz a empresária, completando que o advogado do posto ainda
está estudando o caso, mas ela deverá entrar com
um recurso na Justiça. Diz que não sabe como será
conduzido o processo, mas considera que como há um clamor
do povo, do Ministério Público e de alguns políticos
e isso talvez agilize as coisas.
O posto é a "menina dos olhos" de Carmélia,
que no ano passado fez um investimento de R$ 750 mil para modernizar
o empreendimento. Decidida a não perder para a concorrência,
ela conta que fazia um verdadeiro jogo de cintura para acompanhar
os preços adotados na área. Trabalhava no sentido
de baixar para R$ 1,79, como estavam fazendo outros postos da
cidade quando saiu a liminar. Carmélia admite que gosta
da concorrência, "mas uma concorrência leal".
Admite que a "briga" pelo mercado deixa o posto sem
uma grande margem de lucro, mas havia sempre abertura para a negociação
com a distribuidora, que também reduzia o preço
de custo.
O posto vendia nos dias "magros", como domingo, em
torno de cinco mil litros/dia e nos dias bons podia chegar a 8
mil litros. Ela preferiu não mencionar o movimento desde
sexta-feira até ontem, só informando que "despencou".
Os postos atingidos pela decisão judicial terão
que apresentar as notas fiscais de compra do combustível
e o livro de movimento contábil (LMC) que registra as vendas
diárias, para que a Justiça possa confirmar se a
liminar vem sendo cumprida. A liminar do juiz Lafayette Carneiro
Vieira Júnior proíbe 11 postos de praticarem margem
de lucro inferior a 22% na venda do combustível. O posto
Santa Rosa tem mais de 10 anos de atividades e emprega 14 funcionários.
Magistrados pedem cuidado no noticiário
O presidente da Associação dos Magistrados do Amazonas
(Amazon), juiz Jomar Fernandes, reuniu a imprensa ontem à
tarde para pedir cuidado com a forma como as notícias sobre
a decisão do juiz Lafayette Carneiro Vieira Júnior,
que determinou o reajuste no preço da gasolina em 11 postos,
estão sendo veiculadas. "Porque podem confundir a
cabeça da população, que acaba vendo um Poder
Judiciário sem autoridade para perceber que essa decisão
vai mexer no bolso do consumidor", afirmou.
O juiz disse que não ia entrar no mérito da decisão
do colega, mas que se ela não agradou a maioria e se há
o pensamento de que ela é injusta, a própria população
pode se valer do Ministério Público para que recorra
dessa decisão. Fernandes afirmou que todas as colocações
que viu na mídia foram no sentido de condenar o colega
sem que houvesse uma análise de mérito. "Quero
a mídia parceira e não confundindo a cabeça
da população, porque da forma como as coisas estão
sendo colocadas há uma desautorização do
Poder Judiciário, este passa a figurar como se não
se importasse com as causas da cidadania".
O presidente da Amazon lembrou que há uns três anos,
num episódio em que um desembargador respondeu processo
no Superior Tribunal de Justiça (STJ) sob a acusação
de prevaricação e tráfico de entorpecente,
a Amazon nunca se posicionou defendendo a causa desse colega.
Ele garante que a associação não é
corporativista fisiológica.
ESPERTALHÕES
Quanto ao fato de muitos postos terem reajustado o preço
da gasolina para R$ 2,15, logo após a decisão judicial,
Fernandes diz que foram espertalhões que estão a
reboque do que foi decidido, porque a liminar só alcançava
os postos citados. "Os outros foram a reboque, são
espertalhões, não têm compromisso nenhum".
Ele afirmou que a convocação da imprensa não
foi motivada por contato com o juiz Lafayette Júnior. Desde
a quinta-feira, quando saiu a liminar eles não conversaram.
A coletiva foi por uma preocupação com o conceito
do Poder Judiciário que está num processo de aproximação
da sociedade. Durante muito tempo os juízes tinham por
doutrina não conversar com a imprensa, viviam encastelados,
só falavam nos autos. "Nós nos distanciamos
da sociedade. A magistratura moderna hoje já pensa diferente".
A associação, como braço político
do Poder Judiciário tinha o dever de falar à população,
explicou o presidente.
Tema na tribuna
A deputada federal Vanessa Grazziotin (PCdoB/AM), em pronunciamento,
ontem, no Congresso Nacional, falou sobre a decisão do
juiz Lafayette Júnior e dos reflexos nos preços
praticados por postos em toda a cidade. "O fato se torna
ainda mais grave quando sabemos que este não foi um problema
isolado que envolve o setor, pois no Estado do Amazonas já
foram realizadas investigações pelo Departamento
de Polícia Federal, apurando denúncias de formação
de cartel, o que resultou na prisão de diversos proprietários
de postos", disse Vanessa.
A deputada lembrou ainda que, após o desmonte do esquema
pela Polícia Federal e pelo Ministério Público,
houve redução nos preços praticados em Manaus.
"Diante disso, é de se estranhar ainda mais a decisão
do magistrado", complementou.
Vanessa enfatizou que a decisão do juiz Lafayette gerou
forte reação. "A revolta da população
é generalizada. Diversas entidades impetraram recursos.
Os jornais, as televisões e as rádios têm
abordado o assunto com freqüência impressionante, e
a tônica tem sido a mesma: é unânime a opinião
discordante à decisão do juiz", comentou.
A parlamentar apresentou requerimento à CPI dos Combustíveis
para que sejam convocados o juiz Lafayette Carneiro Júnior
e os proprietários de postos de combustíveis envolvidos,
para que esclareçam os fatos. Procurado por A CRÍTICA,
Lafayette Júnior explicou que os magistrados têm
a prerrogativa, expressa na Lei Orgânica da Magistratura,
de não estarem sujeitos à notificação
ou intimação para comparecimento, a não ser
por determinação de autoridade judicial. O requerimento
de Vanessa ainda será avaliado pelos membros da CPI.