11 de julho de 2003
Dircurso
proferido no Grande Expediente
da Câmara dos Deputados
Senhor Presidente,
Senhoras Deputadas e Senhores Deputados,
Antes de qualquer comentário em torno dos últimos
fatos envolvendo as reformas em andamento nesta Casa, gostaria
de ressaltar o que vem sendo antecipado pelo nosso partido, o
PCdoB, que acaba de realizar uma Conferência Nacional vitoriosa.
Isso porque durante um amplo processo de debate em todo o país,
que acabou culminando com a plenária final em Brasília,
o partido deixou claro sua posição em lutar pelo
fortalecimento do governo Lula como forma de buscar um novo projeto
político, que priorize o crescimento econômico e
um estado nacional forte. É bom ressaltar que se trata
do único partido que realizou uma conferência para
discutir os seis meses do governo Lula e decidir como passaremos
a atuar de forma unitária e coesa a partir de agora.
Com o olhar um pouco mais atrás, entramos no processo
eleitoral com a convicção de que esse governo representaria
um novo ciclo histórico e político no país.
Um passo fundamental para derrotar um modelo ultraliberalizante
e desnacionalizante que acabou nos deixando uma incontestável
instabilidade e uma vulnerabilidade enorme do ponto de vista da
macroeconomia.
Nesses primeiros meses de governo Lula, ainda convivemos com
uma herança que nos preocupa. Basta olharmos para o passivo
externo brasileiro, calculado em torno de US$ 400 bilhões,
resultado da soma de aproximadamente US$ 215 bilhões da
dívida externa pública privada com o estoque de
capital estrangeiro aqui investido. Só o custo de amortização
desse passivo chega a US$ 50 bilhões anuais ou US$ 1 bilhão
por semana. Em abril a dívida pública (interna e
externa) atingiu a cifra de R$ 839,76 bilhões, o que representa
52,18% do PIB. fato que tem se agravado ainda mais por conta das
elevadas taxas de juros que vem sendo praticadas pelo Banco Central,
como forma de atrair capital estrangeiro, viabilizar a rolagem
da dívida e manter "calmo" o mercado financeiro,
que aliás, foi para quem os governos anteriores entregaram
o verdadeiro poder do nosso país.
Diante desse elevado e crescente índice de endividamento
e do comprometimento de significativa parcela dos recursos públicos
com o pagamento dos encargos e serviços da dívida,
o superávit primário da balança comercial
- o mais elevado dos últimos tempos - não tem sido
suficiente para equilibrar as contas do governo.
Esse agravamento tem levado a uma situação de estagnação
da produção industrial e a baixa de investimento
produtivo no país.
Nossa Conferência discutiu profundamente essa conjuntura.
Saímos dela com a clareza do quadro assumido pelo atual
governo, cuja situação, como vimos, é extremamente
grave, delicada, que requer cautela e nos impõe um período
de transição para que se preparem as condições
necessárias a aplicação de mudanças
na política econômica, capazes de gerar desenvolvimento,
criar empregos e melhorar a distribuição de renda,
elementos fundamentais e exigidos pela maioria dos segmentos populares
e produtivos deste país.
Temos consciência do papel histórico e fundamental
da frente político-partidária que propiciou a chegada
de Lula à Presidência e que, compondo as forças
governistas, tem o grande desafio de operar as mudanças
anunciadas antes e durante a campanha eleitoral, mudanças
que tem como centro o rompimento com o a política neoliberal,
que enfraquece o estado nacional, gera desemprego, rebaixa o nível
de produção, o poder aquisitivo dos trabalhadores
e piora a qualidade de vida de toda nossa gente. Destacamos portanto
a necessidade de lutarmos a cada momento para o êxito desse
governo, uma vez que o seu fracasso representará inevitavelmente
a derrota das forças populares e progressistas, da esquerda
brasileira e até mesmo de setores de centro.
Nesse sentido, apontamos a necessidade das mudanças profundas
que levem em conta os interesses maiores da nossa população
como a geração de emprego, distribuição
de renda e retomada do crescimento econômico. A ótica
financista de mercado não pode prevalecer em detrimento
de grandes investimentos em infra-estrutura, educação,
saúde e saneamento. É neste contexto que estamos
atuando desde que o presidente Lula determinou como prioridade
de seu governo a efetivação das reformas da Previdência,
Tributária, Trabalhista e Política. Ou seja, ao
manifestar apoio aos propósitos do governo, o partido tem
expressado de forma clara a necessidade de que as reformas contivessem
como princípios básicos a manutenção
da ampliação dos direitos dos trabalhadores e servidores
e o fortalecimento do caráter democrático, independente
e soberano do país.
É nessa linha que nosso partido e nossa bancada tem se
portado diante das reformas apresentadas. Quanto a REFORMA PREVIDENCIÁRIA,
apresentamos 6 (seis) emendas à Proposta de Emenda Constitucional,
à PEC número 40. Elas foram centradas no resgate
do regime geral de Previdência Social, com garantia de financiamento
e inclusão social, elevação do teto dos benefícios,
com sugestões para o valor desse cálculo; criação
da previdência complementar pública e fim da taxação
dos inativos. Em suma, são emendas que adotam como critério
a defesa da inclusão social.
I. Quanto ao Regime Geral de Previdência Social:
As emendas apresentadas quanto ao RGPS, tem como objetivos definir
um teto de benefícios que proporcione ao trabalhador a
segurança de uma aposentadoria digna e a manutenção
de seu poder aquisitivo, alterar a fórmula de cálculo
dos benefícios e assegurar a cobertura dos 60% dos trabalhadores
do setor privado, que no desemprego, na informalidade ou por desconfiança,
foram afastados da cobertura previdenciária. E, propõe
ainda, a possibilidade de adesão do trabalhador da iniciativa
privada em fundo de previdência complementar pública;
a cobertura do seguro acidente de trabalho a cargo do INSS e a
criação de mecanismos para que a concessão
de isenções e renúncias fiscais sejam cobertas
pelo Tesouro, para que essas consequências não recaiam
exclusivamente sobre o segurado urbano como ocorre atualmente.
A emenda permite também que todo e qualquer incentivo ou
benefício de natureza tributária relativo a créditos
do INSS seja coberto pelo Tesouro Nacional e considerado para
cálculo do equilíbrio financeiro e atuarial do Regime
Geral de Previdência Social.
II. Quanto ao Regime Próprio dos Servidores Públicos:
As emendas abordam questões centrais como a Integralidade,
o Fundo de Previdência Complementar Pública e a taxação
dos Inativos.
- Criação da Previdência complementar pública
Essa emenda da bancada comunista abre a possibilidade para que
a previdência complementar do servidor possa ser pública.
Hoje a única opção é a revidência
complementar privada. É importante uma emenda para a criação
de um regime complementar público que seja facultativo,
contributivo, de capitalização, administrado pela
União e aberto à filiação de todo
e qualquer trabalhador, facultado ainda que as empresas possam
também contribuir conforme cada contrato individual de
trabalho, acordo ou convenção coletiva. O PCdoB
já tem uma PEC apresentada nesse sentido, já apensada
à proposta do governo. Essa emenda é fundamental,
primeiro porque cria uma cobertura complementar pública
para o regime geral. Os trabalhadores hoje têm de se submeter
às seguradoras privadas, às altas taxas de administração
e a um exacerbado risco. Desde 1995 tenta-se incluir essa questão
na Constituição. Em segundo lugar, cria-se também
uma garantia para os servidores públicos.
* Taxação dos inativos, Integralidade e Paridade
no Regime Público de Previdência
Em relação ao item da proposta que taxa os inativos
a bancada do PCdoB apresentou uma emenda que se opõe a
taxação dos aposentados e pensionistas.
Quanto o Regime Público de Previdência, entendemos
que há diferenças significativas entre este e o
setor privado. O setor privado tem na livre remuneração
de seus trabalhadores e na participação dos resultados,
os mecanismos de premiação e cooptação
de quadros. No setor público, é bastante diferente.
A vinculação à legalidade, impessoalidade
e ao interesse público impõe restrições
a salários, gratificações e benefícios.
Assim, o direito à aposentadoria responde a essas limitações
premiais e valorativas do trabalho. Não deveria ser diferente,
porque são necessárias compensações
para que a administração pública possa competir
na seleção de bons profissionais. A sociedade não
merece menos do que as empresas privadas.
Ao limitar os benefícios ao teto do regime geral, a reforma
atinge especialmente os servidores mais capacitados, responsáveis
pelas atividades de planejamento e desenvolvimento das principais
atividades do Estado, garantidoras dos direitos à saúde,
educação, justiça, fiscalização,
controle, segurança, desenvolvimento tecnológico,
etc.
O outro argumento invocado é a necessidade de isonomia
entre servidores públicos e trabalhadores da iniciativa
privada. Esse argumento desconhece uma diferença básica
entre o combate aos privilégios, apoiado pelo Partido,
e reconhecer que há diferenciações legítimas,
derivadas dos diferentes laços que unem um servidor ao
Estado e um trabalhador a uma empresa privada. É preciso
considerar ainda que o fim desse modelo de aposentadoria exigirá,
a menos que estejamos intencionados a fazer decair ainda mais
a qualidade do serviço público, compensações
outras aos servidores que agora terão que ampliar os seus
dispêndios com aposentadoria. Podem-se esperar compensações
que significarão mais gastos fiscais ou a piora da qualidade
dos serviços públicos.
Outro problema presente na proposta de reforma que precisa ser
enfrentado pelas forças mais avançadas da sociedade
é a criação de paradigmas diminutivos que
a emenda cria ao estabelecer maiores requisitos e piores condições
para a aposentadoria do setor público do que as existentes
hoje para o regime geral.
A proposta do Partido estabelece como requisito para aposentadoria
integral a ampliação das carências para 20
anos no serviço público e dez no cargo. Os demais
servidores poderão se aposentar pelas regras atuais, calculando-se
o benefício pela média das últimas 60 contribuições.
Não altera os limites de idade, mantendo a situação
atual. Determina que as pensões poderão ser reduzidas
em no máximo até 30%, ponderando-se a situação
econômica e o grau de dependência econômica
do beneficiário (a PEC propõe redução
de no mínimo 30% aplicável a todos os pensionistas).
Em resumo são essas as contribuições que
o partido apresentou ao conjunto da sociedade e ao ministro da
Previdência, Ricardo Berzoini e ao chefe da Casa Civil,
José Dirceu. Propostas que estão em sintonia com
a nossa própria história de luta junto aos setores
organizados da sociedade e daqueles que defendem um estado soberano
e nacional e que ponha fim ao tempo perdido, ou seja, mais de
uma década convivendo com as mazelas do desmonte do estado.
Portanto não se trata de nenhuma investida corporativista.
Mas uma ação coerente com o nosso passado de luta.
Aliás bem sintonizado com as manifestações
populares e com a luta dos servidores públicos que acabaram
deflagrando um significativo processo de mobilização
e greve. Quero destacar que a mobilização social
e a ponderação dos ganhos fiscais permitiu que nos
últimos dias o governo em conjunto com as lideranças
partidárias sinalizassem para a construção
de mudanças na proposta original da reforma da previdência,
ou seja para mudanças na PEC 40. Mudanças essas
que apontam para a manutenção da aposentadoria integral
e da paridade do reajuste para os servidores públicos.
Como bem disse ontem, nosso colega, e líder do PT nesta
Casa, deputado Nelson Pelegrino: "essa proposta dialoga com
o Judiciário, com a Magistratura e com os servidores".
Assim como o presidente desta Casa, deputado João Paulo,
analiso que ao contrário de recuo, o governo avançou
e muito em direção ao entendimento, pois as propostas
de mudança são justas, pois asseguram a integralidade
e a paridade dos benefícios com os salários da ativa,
propondo-se em troca maior tempo de serviço. Não
se trata de manutenção de privilégios, que
nosso partido sempre combateu, mas de valorização
do servidor que vai trabalhar mais do que os trabalhadores do
setor privado para se aposentar. É bom destacar que os
atuais servidores, que pela regra atual já poderiam se
aposentar, vão ficar no exercício das suas funções
em pelo menos mais quatro anos.
Pelas contas do governo as perdas, com a proposta alternativa,
seriam insignificantes. Ficariam em torno de R$ 1,5 bilhão
em 20 anos, mas que só teriam reflexos a partir de 2013.
Portanto, não vejo porque o "mercado", alguns
governadores e os oposicionistas se posicionem contra uma medida
que busca o consenso entre todos os agentes sociais e que garante
o eixo central da reforma, que é a busca do equilíbrio
fiscal da previdência social.
Enfim, além de louvar essa iniciativa, creio que foi aberto
um importante canal para que possamos avançar ainda mais
na busca do fortalecimento do estado, da manutenção
dos direitos dos trabalhadores e de uma sociedade mais justa para
todos. Acreditamos na capacidade de dialogo iniciada pelo governo
federal com as lideranças políticas, governadores
e servidores. Entendemos que neste momento, em início de
debate, não cabem as manifestações precipitadas
contrárias às negociações. Tão
pouco podemos aceitar o argumento daqueles que dizem que a abertura
das negociações representam um sinal de fraqueza
do governo, ao contrário, esse é um novo tempo que
privilegia o debate e a negociação na busca de soluções
que contribuem com a nação brasileira. Como bem
disse o presidente de Lula, de Portugal, o Congresso é
o grande responsável pelas negociações e
as mudanças que estão sendo sinalizadas.
Muito obrigada,
Vanessa Grazziotin
Deputada Federal PCdoB-AM