01 de julho de 2003
Jornal do Brasil
Caderno Brasil
CPI
da Pirataria vai dar nomes de falsificadores
Foram identificados envolvidos em fabricação
ilegal de cigarros
Belisa Ribeiro
Com nova sessão marcada para amanhã, a CPI da Pirataria
promete denunciar, em breve, os maiores falsificadores e sonegadores
em áreas que vão de brinquedos a óculos escuros,
passando pelos cigarros e combustível.
Até um ex-candidato à presidência de um país
vizinho está envolvido no que os deputados classificam,
sem nenhuma dúvida, de um braço importante do crime
organizado internacional. Primeiro vice-presidente da CPI, o deputado
Júlio Lopes (PP - RJ) disse ontem ao Jornal do Brasil que
o empresário Emerson Kapaz, presidente do Instituto Brasileiro
de Ética Concorrencial (ETCO), revelou em seu depoimento,
na semana passada, o nome dos onze maiores envolvidos em fabricação
ilegal de cigarros.
- Pedimos à Polícia Federal, através dos
dois delegados que estão trabalhando permanentemente conosco,
que confirme as denúncias. O próximo passo será
o pedido de quebra de sigilo bancário. A CPI vai dar um
grande estouro. Temos informações estarrecedoras
e, com apenas três semanas, já conseguimos um mapa
completo dos grandes revendedores, principalmente nas áreas
de óculos, em que 50% é falsificado, e de tênis,
com cerca de um terço de produtos piratas, declarou Lopes.
O deputado acrescentou que o mercado paralelo de produtos piratas
- que quadruplicou na década de 90 e pode estar movimentando
US$ 450 bilhões por ano, o equivalente ao PIB brasileiro
- está muito longe de ser um problema de camelôs
nas ruas das grandes cidades.
- É crime organizado, praticado por empresas de logística
muito bem aparelhadas, que estão localizadas principalmente
em Pernambuco, Amazonas, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná,
afirmou.
O ex-secretário de Segurança do Rio de Janeiro,
Josias Quintal (PSB-RJ), integrante da comissão, começou
a estreitar sua apuração sobre sonegadores e falsificadores
durante as investigações que levaram à prisão
do traficante Fernandinho Beira-Mar. Segundo Júlio Lopes,
foi possível se chegar aos maiores fabricantes clandestinos
de cigarro pela ligação que eles têm com o
narcotráfico.
A deputada Vanessa Grazziotin (PCdoB - AM), membro da
CPI, diz que parte do problema tem que ser resolvida com modificação
da legislação.
- O Estado é muito tímido e falta fiscalização.
Se formos ver o percentual de pessoas condenadas entre os inquéritos
e processos abertos, ele é residual, insignificante, concluiu.
Apesar do prejuízo causado pela pirataria, no ano passado
apenas 36 pessoas foram presas e 13 foram
condenadas pelo crime de violação de direitos autorais
no país.
A deputada informou ainda que a CPI vai se concentrar, nas próximas
sessões, no exame dos perigos de falsificação
de remédios, lembrando que, neste caso, está em
jogo muito mais do que a evasão fiscal, havendo sérios
riscos para a saúde pública.
Agentes da Receita Federal, da Policia Federal no Mato Grosso
do Sul e Mato Grosso e representantes do Ministério Público
participaram esta semana de um seminário, em Ponta Porã,
sobre pirataria. Pelos números do governo federal, a falsificação
de produtos causa um prejuízo de R$ 10 bilhões por
ano à economia brasileira. Um dos exemplos foi dado pela
Associação Brasileira de Empresas de Informática
- a pirataria no setor chega a 56% do volume de produtos comercializados.
Dos três milhões e trezentos mil computadores vendidos
no país nos últimos anos, apenas um milhão
foi comprado no mercado formal.
Paralelamente ao trabalhos da CPI, alguns Estados se preparam
para montar delegacias especializadas no combate à sonegação,
contrabando e falsificação. A do Estado do Rio de
janeiro será a primeira e vai contara com 30 profissionais
treinados - agentes da polícia civil, técnicos da
receita estadual e peritos - para atuar na repressão e
mais um telefone gratuito para denúncias. Atualmente a
estimativa é de que o estado deixe de arrecadar R$ 300
milhões por ano em impostos indiretos (ICMS e repasse do
IPI).