19 de dezembro de 2003
O GLOBO
DATA: 18.12.2003
Ex-mulher de juiz se complica ao depor
na CPI da Pirataria
Jailton de Carvalho
BRASÍLIA. A situação da auditora fiscal
Norma Regina Emílio Cunha, acusada de envolvimento com
a organização investigada por venda de decisões
judiciais em São Paulo na Operação Anaconda,
se complicou depois do depoimento que prestou ontem à CPI
da Pirataria. Norma Regina não explicou a diferença
de R$ 1,4 milhão entre a renda declarada à Receita
Federal e a movimentação, nos últimos cinco
anos, em duas de suas contas bancárias analisadas pelos
parlamentares.
Segundo um levantamento apresentado pelo deputado Josias Quintal
(PMDB-RJ), Norma Regina movimentou R$ 2,1 milhões em duas
contas no Banco do Brasil e no Banco Bic, entre 1999 e este ano.
Neste mesmo período, a ex-mulher do juiz João Carlos
da Rocha Mattos declarou ao Fisco rendimentos de R$ 700 mil. Quando
confrontada com a diferença nos números, reagiu
com evasivas.
- É necessário examinar as declarações
de renda. Pode ter havido venda de imóveis - disse Norma
Regina.
Depois ela disse que talvez o dinheiro de uma conta tenha sido
transferido para outra, o que daria a impressão de uma
movimentação bancária maior. Mas a deputada
Vanessa Graziotin (PCdoB-AM) afirmou que não houve saques.
Auditora evita comprometer o juiz Rocha Mattos
Ela se complicou também ao justificar a origem dos US$
550 mil e 100 mil euros apreendidos pela Polícia Federal
no apartamento dela em São Paulo em outubro. A auditora
disse que o dinheiro era da exploração de um garimpo,
de uma loja em Cuiabá e de economias de vários anos.
Mas acabou admitindo que ludibriou a Receita Federal por duas
vezes. Primeiro porque, como funcionária da Receita, não
poderia estar à frente de um empreendimento comercial.
Depois porque não incluiu os dólares e euros em
suas declarações de renda. As revelações
deixaram Vanessa Graziotin irritada:
- A senhora era auditora da Receita, a senhora não tinha
esse direito.
Ao longo de três horas de depoimento, Norma Regina evitou
comprometer o ex-marido João Carlos da Rocha Mattos ou
outros supostos integrantes da organização responsável
pela central de vendas de decisões judiciais que, como
ela, estão presos. Sempre se pondo no papel de vítima,
Norma Regina tentou até incluir o diretor da Polícia
Federal, Paulo Lacerda, no círculo de relacionamentos de
Rocha Mattos.
- O doutor Paulo Lacerda esteve na minha casa e no gabinete dele
(Rocha Mattos) para pedir material - disse a auditora.
Lacerda confirmou que esteve no gabinete de João Carlos,
mas negou que tenha visitado a casa do juiz. Lacerda explicou
que esteve com Rocha Mattos para tratar de assuntos relativos
às CPIs do Congresso Nacional, uma delas a de roubo de
cargas, da qual era assessor. Lacerda disse que ficou impressionado
com as críticas que João Carlos, então um
dos mais importantes juízes federais de São Paulo,
fazia à corrupção no Judiciário:
- Ele sempre foi um crítico da corrupção
no Judiciário. Falava de desembargadores que não
o queriam no tribunal.
Para Lacerda, Norma Regina citou seu nome apenas para confundir
as investigações.
Ela chegou à CPI algemada e cercada por quatro policiais
federais, e passou boa parte do tempo fazendo expressão
de choro e insistindo em relembrar fatos dramáticos da
vida particular, como a suposta tentativa de suicídio do
filho aos 7 anos de idade.
"Este depoimento foi uma farsa. Ela mentiu"
O depoimento chegou a ser interrompido quando o presidente da
CPI, Luiz Antonio Medeiros (PL-SP), chamou Norma de mafiosa. Ela
reagiu dizendo que não iria mais falar. Mas o depoimento
acabou sendo retomado logo em seguida.
- Este depoimento foi uma farsa. Ela mentiu o tempo todo - disse
Medeiros