19 de dezembro de 2003
FOLHA DE S.PAULO
DATA: 18.12.2003
Ex- auditora reconhece ter sonegado renda
Em depoimento à CPI da Pirataria,
Norma Cunha tenta envolver diretor da PF com suspeitos de venda
de sentenças
ANDRÉA MICHAEL
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A auditora fiscal aposentada Norma Regina Emílio Cunha
tentou justificar parte dos US$ 550 mil e dois quilos de ouro
encontrados pela Polícia Federal em sua casa dizendo que
foi dona de um garimpo cujo rendimento nunca declarou. Também
colocou o atual diretor da PF, Paulo Lacerda, no rol de policiais
que frequentavam sua casa e o gabinete do ex-marido, o juiz João
Carlos da Rocha Mattos.
Segundo o Ministério Público, o juiz seria o mentor
de uma suposta quadrilha que extorquia dinheiro, traficava influência
e vendia sentenças judiciais. A suposta atuação
do grupo é investigada pela Operação Anaconda.
Rocha Mattos e sua ex-mulher estão presos por conta dessa
denúncia.
As afirmações de Norma foram feitas a deputados,
como testemunha da CPI da Pirataria. O garimpo, em Cuiabá
(MT), teria lhe dado ""muito dinheiro". Lacerda
disse que nunca foi à casa de Norma, que fica em São
Paulo. Mas confirmou que esteve algumas vezes no gabinete de Rocha
Mattos. O propósito da visita seria tratar de assuntos
relativos a algumas CPIs que assessorou. "Não há
nenhum ilícito nesses encontros. O juiz João Carlos
sempre foi crítico da corrupção do Judiciário",
afirmou Lacerda.
O diretor-geral da PF afirmou que a última ocasião
em que esteve no gabinete do juiz foi em 2001, para pedir ao magistrado
que determinasse a condução coercitiva do empresário
Ari Natalino da Silva -acusado de adulterar combustíveis-
para depor na CPI do Roubo de Carga.
Recuo
A maior parte das perguntas feitas pelos deputados foi sobre
diálogos gravados pela PF e pela própria depoente.
Em algumas conversas, ela faz referência a "dinheiro
de corrupção" e afirma que seu ex-marido roubava.
Ao depor, no entanto, recuou das acusações. Tratou
o conteúdo dos diálogos como um "conjunto de
insinuações", "tentativas [que fazia]
para tentar" se "proteger".
"Passei muito tempo de minha vida investigando, porque queria
me vingar dele. Mas não consegui nada", declarou a
auditora aposentada da Receita Federal.
Ela também não soube explicar a razão, conforme
levantamento da CPI, de sua movimentação bancária
ter saltado de R$ 156 mil, em 1998, para R$ 872 mil em 1999.
"A quebra de sigilo fiscal mostra que ela tem movimentação
incompatível com seus rendimentos. Não explicou
nada, o que nos leva a crer que ela sabe mais do que disse",
disse a deputada Vanessa Grazziotin (PC do B-AM). Diante das perguntas
sobre supostos amigos de seu ex-marido, Norma afirmou desconhecer
se Rocha Mattos tinha relações de amizade com o
chinês Law Kim Chong, acusado de ser um dos maiores contrabandistas
do país.
O presidente da CPI, Luiz Antonio de Medeiros (PL-SP), afirmou
que a depoente estava tentando defender Chong e a chamou de "mafiosa".
Diante da acusação, Norma invocou seu direito de
permanecer em silêncio. O mesmo direito foi acionado quando
Julio Lopes (PP-RJ) indagou-a sobre as fitas gravadas pela PF
na investigação do assassinato do prefeito de Santo
André Celso Daniel, em janeiro de 2002.
Lopes perguntou ainda se ela não responderia para não
se incriminar, um direito que tem por lei, ou se temia pela sua
segurança. "Eu me sinto em risco", declarou.
Ao ser preso, Rocha Mattos, juiz que determinou a destruição
das fitas que teriam sido gravadas em um procedimento da PF considerado
ilegal, afirmou que guardara cópia das gravações
na casa de sua ex-mulher e que as fitas estariam em poder da Operação
Anaconda. A PF nega, e deputados ouvidos pela Folha acreditam
que ela tentou corroborar a suspeita levantada pelo
ex-marido.
"O depoimento foi uma farsa. Ela mentiu o tempo todo",
declarou o deputado Medeiros.