07 de agosto de 2003
Jornal Amazonas Em Tempo
Previdência:
Amazonas vota a favor, mas diverge
O governo Lula poderá perder, em breve, o apoio quase incondicional
da bancada amazonense na Câmara dos Deputados, em votações
como ocorreu na última terça-feira em que foi aprovado
o projeto do governo para a reforma da Previdência Social.
Dos oito deputados do Amazonas, apenas Pauderney Avelino (PFL)
votou contra as propostas do governo, mas pelo menos dois da bancada
aliada admitem que votaram a favor do governo, mas não
aprovam integralmente as mudanças propostas.
Vanessa Grazziotin (PCdoB) admite que votou para garantir a unidade
do governo "que vinha sofrendo todo o tipo de pressão
e estava ameaçado", enquanto o deputado Carlos Souza
(PL) deixou Manaus anunciando em alto e bom som que votaria contra
o projeto do governo e revelou que estava se sentindo "a
caminho do matadouro". Souza chegou a levantar a possibilidade
de deixar o partido por conta de possíveis punições
que sofreria pelo voto desfavorável ao governo. O deputado
do PL mudou de idéia e votou a favor do projeto, provavelmente
pressionado por sua bancada. O Em Tempo não conseguiu localizar
Carlos Souza por telefone, ontem.
Pauderney Avelino não só votou contra o projeto
do governo, como adotou um comportamento de protesto, usando um
apito e cantando "a música dos traíras",
segundo sua própria definição. "Você
pagou com traição, a quem sempre te deu a mão"
diz a letra da música entoada pelo deputado, segundo ele,
em homenagem ao PT, PC do B e PSB, partidos de esquerda e com
uma trajetória ligada aos servidores públicos, segmento
afetado diretamente pelo projeto do governo.
"Há mais de quatro meses assumi uma posição
em relação a esse projeto", explicou Pauderney
Avelino, que apresentou várias emendas à reforma
da Previdência, baseadas na discussão com mais de
30 entidades de servidores púbicos, todas elas rejeitadas
pela maioria da Câmara. Ainda assim, o seu partido, o PFL,
apresentou três emendas para votação em destaque,
ontem, contra a taxação dos inativos, contra a taxação
de pensionistas (viúvas e órfãos) e alterando
o subteto da magistratura de 85% como quer o governo, para 90,25%.
"Não tenho obrigação de votar no governo.
O PFL é oposição e mesmo assim tem assumido
uma postura de votar favorável sempre que o assunto for
de inquestionável interesse nacional. No caso da reforma
da Previdência, esses interesses estão sendo contrariados",
afirmou o deputado pefelista.
Nas ruas
Mesmo considerando insuficientes as modificações
incorporadas ao projeto do governo e mesmo tendo divergências
e críticas ao texto apresentado, o PC do B decidiu dar
o voto favorável ao projeto porque, segundo análise
da deputada Vanessa Grazziotin, havia um quadro político
instável que se formou em torno de sua votação,
recaindo sobre o governo pressões de toda ordem. "A
derrota do governo no processo de votação poderia
provocar conseqüências graves no quadro institucional
gerando dificuldades de governabilidade", justifica.
Vanessa afirma, ainda, que o PC do B tem responsabilidade na
manutenção do atual governo, "duramente conquistado",
e por isso decidiu dar um voto de confiança na expectativa
de que "em breve este governo trilhará um programa
de mudanças, que construa um novo modelo de desenvolvimento,
com soberania, democracia e ampliação dos direitos
sociais e trabalhistas".
Apesar do voto favorável, Vanessa faz questão de
dizer que está consciente que o projeto é polêmico
e que acentuou o conflito entre a mudança e o continuismo.
E ameaça: "De agora em diante estaremos nas ruas,
como sempre estivemos, para junto do movimento popular exigir
e ajudar o governo a promover as mudanças necessárias
à melhoria da qualidade de vida dos
brasileiros".