Data: 14.04.2003
Discurso da deputada Vanessa
proferido no dia 14 de abril no grande
expediente da Câmara dos Deputados.
Brasília, 14 de abril de 2003
Senhor presidente, senhoras e senhores deputados,
Ocupo a tribuna neste grande expediente exaltando os colegas
para a grande
cruzada contra a prática de pirataria no país, que
nos últimos anos vem
provocando verdadeiros estragos à Nação.
Esse mercado marginal, segundo
dados recentes divulgados pela Federação do Comércio
do Estado de São
Paulo, já movimenta 20 bilhões de dólares
por ano ou 70 bilhões de reais.
São diversos artigos piratas como programa de computador
- software,
vestuário, filmes, bebidas, CDs,DVDs, cigarros, medicamentos
entre muitos
outros.
Sr. Presidente, somente para exemplificar a gravidade do problema,
destacamos o fato de que a pirataria já coloca o Brasil
na vergonhosa
posição de ser o quarto colocado, no ranking mundial
dos maiores
consumidores de produtos pirateados. Estamos apenas atrás
do México,
Alemanha, Austrália e Estados Unidos. Quanto a pirataria
de CDs os
indicativos são ainda piores: no ranking mundial, o Brasil
ocupa a
vergonhosa terceira posição, ou seja é o
terceiro colocado entre os maiores
consumidores de CDs pirateados, só perdemos para a China
e para a Russia.
Estudos encomendados pela Confederação Nacional
das Indústrias dão conta que
a evasão fiscal chega a 10 bilhões de reais por
ano, sendo que cerca de 6
bilhões correspondem a tributos federais. Só nos
setores de bebidas,
combustível e cigarros o governo deixa de arrecadar 15
milhões de reais por
dia por causa da indústria paralela da falsificação.
Um outro fato vem agravar ainda mais o problema da pirataria,
é que os dados
indicam que este crime caminha par e passo com o crime do contrabando,
ou
seja, em grande parte os produtos piratas, ou utilizados na pirataria
são
contrabandeados. O próprio Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais
da
Receita Federal, Unafisco, calcula que o contrabando movimenta
cerca de 35
bilhões de reais por ano no país. Essa prática
inviabiliza a expansão do
mercado formal e contribui diretamente para o rombo da Previdência
Social.
O aumento do desemprego, o desrespeito aos direitos autorais dos
artistas, a sonegação fiscal, as fraudes, o crime
organizado e a economia
informal são problemas que estão diretamente relacionados
a pirataria.
No meu Estado - o Amazonas, por exemplo, estimativas das indústrias
e de sindicatos do trabalhadores, revelam que, só na Zona
Franca de Manaus,
entre 1990 a 2002, cerca de 17 mil trabalhadores já perderam
o emprego por
causa da pirataria e do contrabando. No pólo de produção
de CDs, foram
extintos aproximadamente três mil postos de trabalho.
Estudos da PriceWaterhouseCooper apontam que se o índice
de pirataria de
software caísse de 56% para 25% seriam criados cerca de
36 mil empregos e
arrecadados mais 2,35 bilhões de reais em tributos.
Vale destacar que a situação da indústria
fonográfica é de extrema
preocupação. Dados levantados pela Associação
Brasileira de Produtores de
Discos (ABPD) revelam que nos últimos cinco anos a pirataria
foi responsável
pelo fechamento de duas mil lojas de CDs e pela redução
de cerca de 30% do
número de funcionários das gravadoras. Indicam ainda
que 56 mil postos de
trabalho foram perdidos no setor, principalmente nas gravadores,
fabricantes
e no comércio varejista. Os números apresentados
dão conta também de que
somente no ano passado mais de 100 milhões de CDs virgens
- CD-Rs foram
importados pelo Paraguai, sendo que 90% deles são copiados
("gravados") em
laboratórios clandestinos espalhados pelas diversas regiões
do país.
Estima-se que o mercado ilegal causou um prejuízo ao país
de 300 milhões de
reais devido o não-recolhimento de tributos.
A pirataria já domina mais de 50% do mercado de CDs no
país. O fato é tão
grave que a gravadora Abril Music fechou suas portas, alegando
entre as
principais razões a pirataria. A empresa, que era a gravadora
de artistas
como Rita Lee, Titãs, Ivan Lins, Harmonia do Samba e Capital
Inicial,
detinha em seu catálogo mais de 300 títulos nacionais
e internacionais.
Vamos agora acompanhar a evolução do problema: o
índice de cópias ilegais de
CDs no País era de apenas 3% em 1997, chegando em 2001
a 53% e atualmente
pode ter ultrapassado a marca dos 55%. São cerca de 800
milhões de CDs
falsos que entram no mercado brasileiro todos os anos.
O que nos deixa mais perplexa é que nos últimos
anos, apesar das inúmeras
iniciativas adotadas, como a aprovação de leis,
publicação de decretos e de
instruções normativas, por falta de ações
mais concretas por parte das
autoridades brasileiras, a situação tem se agravado
e o poder público se
mostrado incapaz de solucionar o problema.
Podemos citar como exemplo a atuação do Comitê
Interministerial de Combate à
Pirataria, criado por decreto no mês de março de
2001 pelo ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso. O Comitê, que é composto
por representantes dos
ministérios da Justiça, Ciência e Tecnologia,
Indústria e Comércio, Relações
Exteriores, Cultura e Fazenda, apesar da dedicação
de seus membros e das
inúmeras reuniões realizadas não tem cumprido
o seu papel de órgão
formulador de uma política de combate a pirataria e acompanhamento
dos
resultados das ações implementadas.
Chegou-se ao absurdo de alguns de seus membros terem apresentado
o
argumento, vejam os senhores, de que a luta antipirataria esbarrava
na
cultura brasileira de comprar o que for mais barato.
Talvez esse argumento tão frágil tenha servido
somente para justificar que
muito pouco foi feito para combater as máfias e quadrilhas
que praticam,
quase que livremente, o crime da pirataria. Essas quadrilhas atuam
no
interior de todo o País, mas sobretudo nas fronteiras onde
o controle dos
portos e aeroportos e a fiscalização da Receita
Federal é extremamente
precário. Há carência, por exemplo, de recursos
materiais e humanos.
Destacamos também o fato de que nenhuma campanha educativa
contra a
pirataria, capaz de conscientizar a população de
que o barato sai caro, foi
implementada pelo poder público.
Na Justiça, foram instaurados mais de seis mil processos
criminais, mas
apenas 30 pessoas foram condenadas. Sabe-se que no mínimo
400 pessoas
citadas em diversos processos eram reincidentes, algumas por mais
de dez
vezes. Exceção à regra, o chinês Han
Hai Cahao, líder de uma quadrilha presa
em flagrante numa fábrica de CD pirata em São Bernardo,
São Paulo, foi
condenado no ano de 2000 a seis anos e oito meses de prisão.
No parlamento diversos projetos tramitaram na Câmara e
no Senado, mas até
agora não fomos capazes de aprovar uma legislação
adequada e que seja
aplicada e executada com eficácia. Ou seja, muito se precisa
fazer.
Destacamos aqui, como fato positivo, o Projeto de Lei 2.681/96,
que após
anos tramitando na casa, recebeu pedido de urgência por
parte dos líderes
partidários e foi aprovado nesta Casa no último
dia 20 de março, sendo
remetido ao Senado, onde se encontra. O projeto aumenta a pena
para pessoas
envolvidas no crime de pirataria, ou seja, aquelas que reproduzem
e
comercializam CDs, sem a autorização dos autores
ou de que detém os direitos
autorais. A pena mínima é aumentada de um para dois
anos e a pena máxima de
dois para quatro anos.
Outra importante iniciativa partiu da deputada federal Tânia
Soares, do
PCdoB de Sergipe. Um Projeto de Lei de sua autoria, aprovado na
Câmara e no
Senado, acrescentou um artigo à chamada Lei do Direito
Autoral (lei 9.610,
de 19 de fevereiro de 1998). O artigo, de número 28-A,
diz sucintamente: "Os
exemplares postos à venda da obra artística, científica
ou literária deverão
conter numeração ordinal crescente e a assinatura
do autor."
Mesmo a propositura tendo sido vetada pelo então Presidente
Fernando
Henrique, o governo se viu obrigado a avançar na matéria
e um acordo com o
setor foi celebrado: O Presidente retomou, pelo menos em parte,
a natureza
do projeto através da edição do Decreto número
4.533, de 19 de dezembro de
2002, que revogou um decreto anterior e estabeleceu a obrigatoriedade
de
identificação do número do lote e da quantidade
produzida em cada embalagem
dos CDs.
No último dia 8 deste mês, através de uma
ação conjunta das Comissões do
Trabalho e Ciência e Tecnologia, demos um passo importante
para retomarmos
as discussão. Promovemos uma Audiência Pública
para discutir o problema da
pirataria, numa primeira fase, discutimos os problemas relacionados
com o
segmento do meio fonográfico. Nela compareceram empresários,
trabalhadores
e representantes do governo e artistas como Alcione, Gabriel o
Pensador,
Toni Garrido, Leonardo, Martinho da Vila, Xandy, Jorge Vercilo
e Gian &
Giovani, entre outros.
Não só por sua repercussão, mas também
pelas sugestões apresentadas nessa
reunião não tenho dúvida de que o assunto
volta ao parlamento mais
fortalecido. Não foi à toa, que no início
do meu pronunciamento, exaltei a
todos para formar uma grande cruzada contra pirataria. Tanto é
que lançamos
uma Frente Parlamente de Combate á Pirataria e, por sugestão
do presidente
desta Casa, João Paulo, já foi proposta a criação
de uma Comissão Especial
sobre Pirataria, a qual já foi encaminhada à Mesa
desta Casa.
Nessa mesma direção, o deputado Medeiros - PL/SP
vem colhendo assinaturas
dos Deputados para a criação de uma CPI para investigar
o problema da
pirataria.
Seguindo na linha de buscar soluções para o problema,
os Presidentes das
Comissões do Trabalho e de Ciência e Tecnologia,
estão solicitando audiência
com o ministro da Justiça, Márcio Thomas Bastos,
para discutir as ações
formuladas pelo Comitê Interministerial para o combate à
pirataria e a
necessidade de sua recomposição e fortalecimento.
Na oportunidade vamos propor a ele que os empresários
e trabalhadores de
alguma forma possam ser ouvidos pelo órgão colegiado.
Ou seja, o combate à
pirataria volta a fazer parte da nossa agenda legislativa e tudo
faremos
para que também seja agendada pelo poder executivo, pois
só assim poderemos
agir de forma mais sistematizada para que possamos cumprir nosso
papel na
elaboração de uma legislação mais
adequada e para que atos concretos sejam
capazes de reverter a grave situação da pirataria.
Tenho a convicção que o tema já está
recebendo o tratamento que merece.
Tenho dito que não se trata de reprimir os camelôs,
que assim como a
população, são vítimas das empresas
marginais.
Esse movimento resultará na prática no reconhecimento
do próprio governo de
que o combate à pirataria precisa ser uma prioridade nacional.
O
ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, sobre o problema
disse
recentemente que "se somarmos nossos esforços vamos,
num curto espaço de
tempo, enfrentar o contrabando e a impunidade, que, para o governo,
são
práticas intoleráveis, que ultrapassaram todos os
limites".
Sr presidente, senhores e senhoras deputadas, para finalizar
minha
participação na sessão de hoje quero convidar
todos os deputados e todas as
deputadas a ingressarem na FRENTE PARLAMENTAR DE COMBATE À
PIRATARIA,
através da qual poderemos desenvolver inúmeras ações
e melhor interagir com
a sociedade brasileira.
Muito
Obrigada,
Vanessa Grazziotin
Dep. Federal