Mensagem Recebida

-----Mensagem original-----
De: artur gomes [mailto:bluespoetic@yahoo.com.br]
Enviada em: segunda-feira, 6 de setembro de 2004 15:34
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Assunto: o boi-pintadinho

 

 

Escrito entre os anos de 1979 e 1980, o poema O Boi-Pintadinho é agora re-visitado por Artur Gomes, no recital O Sagarana, que esteve em cartaz no mês de agosto no Sesc-Campos e de 4 a 9 de outubro estará na cidade de Bento Gonçalves-RS dentro da programação do XII Congresso Brasileiro de Poesia. Segundo Ademir Bacca, coordenador do evento, este é hoje um dos maiores eventos de poesia realizado na América Latina. Uma dezena de poetas brasileiros e latino-americanos já estão com suas presenças confirmadas.

Saiba mais sobre o Congresso Brasileiro de Poesia no site www.fulinaima.com.br

 

Elena Vianna

www.fulinaima2.fotoblog.uol.com.br

 

  

O

Boi

Pintadinho

                           

... E

lá vai o boi

com seus olhos tristes

feito mãe cansada

da estrada e da vida,

vai carregando dor nos olhos,

cabisbaixo

com medo de levantá-los

e ser o primeiro

a enfrentar a faca

ou quem sabe,

a forca.

 

Lá vai o boi de arado

boi de carro

boi de carga

boi de cerca

boi de canga

boi de corda

boi de prado

boi de corte.

Boi preto

boi branco

 

lá vai o boi pintadinho...

 

lá vai o boi

na tua consciência

triste e solitária

olhando os que passam

com medo de levantar a voz

e colocar o seu mugido

na consciência dos outros.

 

Lá vai o boi

no teu passo manso,

dança na contra-dança

com certeza que a esperança

é muito mais do que aquilo

que já te foi predestinado.

Lá vai o boi-pintadinho...

 

lá vai o boi...

boi Antônio

boi Joana

boi Maria

boi João.

Boi Thiago

Boi Ferreira

Boi Drummond

e Boi Bandeira,

e tantos outros bois

que conheci por este país afora...

que sabendo ou não sabendo

cada boi tem sua hora.

 

Lá vai o boi

com teu jeito manso

no equilíbrio manco

que me inspira e desespera...

 

vai para o cofre,

ele sabe disso.

Vai para o açougue

ele sabe disso.

Vai pra balança

e nem parece equilibrista

mas já conhece o seu destino.

 

Lá vai o boi –pintadinho...

 

E lá vai o boi

atravessando as ferrovias

nos vagões de ferro.

Vai carregado

de marcas pelo corpo

e agonia até a alma.

 

Levanta meu boi levanta

que é hora de viajar

acorda boi povo todo

povo e boi tem que lutar...

 

Levanta meu boi operário

boi do martírio e do salário

boi da enxada e do horário

boi da cangalha no pescoço

boi de carne, boi de osso

servindo o prato da serpente

boi da lama

boi do fosso

boi indgesto e indigente.

 

levanta meu boi de fardo

boi de cerca

boi de carga

boi de canga

boi de corda

boi de força

boi de farça

boi de farra

boi de forra

boi de festa

boi de ferro

 

levanta meu boi de sina

boi de pavio

espantalho

boi de pano

levanta meu boi de palha

boi de circo

boi de sonho

boi selvagem

boi de plano

 

levanta meu boi de barra

boi de birra

boi de barro

boi de berro.

 

Levanta meu boi pintado

homem palhaço mascarado

máscara de animal e desengano

mas homem nenhum desalmado

se mostrará com a nossa face

se cobrirá com os nossos panos

 

 

 

Levanta meu boi de prata

boi de prato

boi de pranto

boi de prego

boi de arame farpado

boi de carga e de arado

boi joão desempregado

de terno inferno e gravata

boi sem livro

boi sem ata

boi de safra

boi de cofre

boi de carta

boi de corte:

boi de carne ferida

mugindo de sul a norte,

 

boi que nasce pra vida

e a gente engorda prá morte.

 

 

Artur Gomes

www.fulinaima.com.br

www.fulinaima.fotoblog.uol.com.br

 

In auto do Boi Pintadinho

Prêmio Mec - 1980