Mensagem Recebida

-----Mensagem original-----
De: Marianne [mailto:stumpf@qbnet.com.br]
Enviada em: segunda-feira, 12 de julho de 2004 19:46
Para: cdh@camara.gov.br


Assunto: Re: POLITICA DE INCLUSAO: TODOS ESTAMOS ERRADOS - SURDOS - VAMOS CONTRA ELE
Dr. João Campos,

Concordo o seu pensamento até hoje tenho dificuldade entender a interpretação nas minhas aulas de doutorado e cursar a Universidade foi esforço muito grande.

Alguns intérpretes são bons para surdos mas precisa ser qualificados.

Quanto aos curriculos nós Federação Nacional de Educação de Surdos - FENEIS que desejamos muito e lutamos para puder mudar e começar ensinar os surdos de verdade.

Já organizamos em encontros nacionais curriculo acordo nossos interesses, com professores surdos e escrita de língua de sinais para desenvolver nossa língua. Até agora conseguimos muito pouco parece os ouvintes são surdos.

Marianne Stumpf

Diretora de Políticas Educacionais da FENEIS

Subject: POLITICA DE INCLUSAO: TODOS ESTAMOS ERRADOS - SURDOS - VAMOS CONTRA ELE

João Campos é advogado especialista em Direito do Consumidor

Política de inclusão: todos estamos errados

 

 

Graças a leis oportunistas, sem qualquer base em pesquisa científica, o governo e seus agentes fingem que estão cuidando do problema dos deficientes auditivos e os pais seguem acreditando que seus filhos estão sendo educados e integrados à sociedade. Todos estão errados e, depois de algum tempo, as perdas serão irreversíveis.

Há poucos dias, uma escola particular de grandes tradições e reconhecidos serviços prestados à comunidade foi intimada pelo Ministério Público de Defesa da Cidadania a contratar um intérprete na língua brasileira de sinais (LIBRAS) para um aluno deficiente auditivo.

De acordo com a moção ministerial, a lei de inclusão do surdo na comunidade deveria ser cumprida à risca e, na sua visão, para que a lei fosse cumprida, bastaria que houvesse na classe um intérprete em LIBRAS.

Fui procurado pela escola e, ao elaborar sua defesa, tomei conhecimento de um dos mais agudos problemas com esse programa de integração - ou inclusão, como prefere o Ministério Público: a lei, mais um produto do ócio de Brasília do que de sólida pesquisa científica, simplesmente, não funciona. Pior: do jeito que ela é, ou tenta ser, aplicada a ferro e fogo, sob ameaça de prisão, desobediência e tudo o que contém o arsenal repressivo típico latino-americano, o deficiente auditivo ficará em situação muito pior do que estaria se nenhuma lei existisse.

Bastaria, para a escola, concordar com o MP e contratar um intérprete da língua de sinais, desses que vemos na TV "traduzindo" sermões e parábolas da Bíblia e escaparia do processo ministerial.  O que descobri foi que não basta o intérprete e seu conjunto de sinais para que se realize o processo de aprendizado. O intérprete precisa conhecer a matéria que está sendo ministrada, convertê-la em sinais que ainda não existem na LIBRAS e repassar ao estudante com problema de audição.

De que adianta o professor estar falando sobre uma equação de segundo grau, o ponto de ebulição dos líquidos, o movimento uniformemente variável de física, um teorema de pitágoras, o som do fonema ñ na língua espanhola, a pronúncia do fonema inglês truth ou a tabela periódica de química se o intérprete não tem a  mínima idéia do que se está ensinando, nunca assistiu a nenhuma dessas aulas e, pior de tudo, não há sinais de LIBRAS para essas matérias?

Responda rápido o pai de um aluno com problema auditivo: o que será que o intérprete está passando ao seu filho quando ouve o professor falar daquelas matérias?  Repito: não é a mesma coisa que contar a história de David e Golias ou a passagem do Mar Vermelho. Trata-se de explicar - e sinalizar! - a fórmula do atrito em física, o cálculo estrutural em engenharia, a avaliação do volume de um determinado recipiente com líquido!

O que aprendi, nesta semana de contato com a realidade do deficiente auditivo, é que governo e seus agentes estão errados com suas leis inúteis, casuísticas e incompletas. Os pais estão sendo enganados com essa balela de inclusão. E, finalmente, que há muita, mas muita coisa errada mesmo com o nosso sistema educacional, seja para alunos normais, seja para portadores de algum tipo de deficiência.

É preciso trocar intimações do Ministério Público por reflexões mais sérias a respeito de um problema que é de todos nós.