Mensagem Recebida

-----Mensagem original-----

De: Luiz Machado [mailto:machado@bra.oitbrasil.org.br]

Enviada em: segunda-feira, 12 de julho de 2004 09:05

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Assunto: O ESCRAVOCRATA PERDEU EM 2003, VENCE EM 2004

 

 

O ESCRAVOCRATA PERDEU EM 2003, VENCE EM 2004

 

O GLOBO - 11/07/2004

Elio Gaspari

 

Trabalho escravo é uma coisa a respeito da qual as pessoas estão dispostas a fazer qualquer coisa, menos ler sobre ela, sobretudo num domingo. Paciência. Há hoje 25 mil brasileiros espalhados nas matas, trabalhando em condições de escravidão, vigiados por pistoleiros, amarrados em dívidas. Esse cidadão pode ser descrito assim: tem em torno de 30 anos, é analfabeto, está a mais de 500 quilômetros de casa. Trabalha nos roçados, desmata florestas, corta cana e levanta cercas. Ele chega à fazenda que o contratou devendo algo como R$ 200 e é obrigado a gastar outros R$ 200 com roupas e material de trabalho, inclusive as botinas. Todas as compras são feitas no armazém do fazendeiro. Em geral esse brasileiro trabalha seis meses pensando em voltar à sua cidade com uns R$ 300 no bolso. Isso quando dá tudo certo. Quando dá errado volta sem nada. Às vezes fugido, às vezes espancado. Os mortos ficam.

Os atos e os números do combate a essa praga são um exemplo da marcha do PT Federal em direção ao atraso. Em março de 2003 o Companheiro Lula lançou no Palácio do Planalto o Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo e dias depois ganhou seu primeiro artigo elogioso no "The New York Times", escrito pelo repórter Larry Rohter, aquele que ele quis expulsar do Brasil.

Lula varreu uma burocracia comprometida com os fazendeiros (os fiscais estavam proibidos de passar ao Ministério Público os autos de infração) e valorizou a atividade heróica do Grupo de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho. Trata-se de um grupo de 30 servidores que, ajudado pela Polícia Federal, mudou o rosto do Brasil na questão do trabalho escravo. Mais: remeteu ao Ministério Público 600 processos que o tucanato deixava nos armários. Em novembro passado o governo divulgou uma "Lista Suja" com os nomes de 52 empresas comprovadamente receptadoras de escravos. Elas perderam o acesso a financiamentos de fundos constitucionais.

Em apenas um ano resgataram-se 5.100 trabalhadores mantidos como escravos em fazendas. Foi um número superior ao do total de resgates nos dez anos anteriores. Além disso, o governo comprometeu-se com a aprovação de uma emenda constitucional destinada a permitir o confisco das propriedades onde fossem encontrados brasileiros em regime servil.

Um governo com semelhante desempenho incomoda fazendeiros e molesta a bancada ruralista que hoje faz parte da base de apoio dos comissários. O primeiro semestre de 2004 acabou-se e o número de trabalhadores resgatados ficou em 637. É verdade que houve uma greve de três meses da Polícia Federal, mas parece difícil que Lula consiga ultrapassar os 2.306 resgates de FFHH em 2002. Regredirá. Desde maio os companheiros devem a divulgação da nova "Lista Suja". Ela está engavetada, com 49 nomes. A Petrobras continua comprando álcool de usinas metidas com escravidão. Seria divertido criar um adesivo da BR informando: "Álcool produzido por trabalho escravo na Usina Santa Cruz, em Campos".

O período legislativo está acabando e o presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha, não colocou em votação a emenda constitucional que toma as terras dos escravocratas, já aprovada no Senado. A emenda não foi votada porque João Paulo e o governo não querem hostilizar a bancada ruralista (onde o núcleo escravista é uma sublegenda). Quem fala com o deputado fica com a impressão de que a responsabilidade é do comissário José Dirceu. Falso: o responsável é o presidente da Câmara.

Os comissários deviam aprender a lição. Toda votação que tunga o andar de baixo, como a do salário-mínimo, anda depressa. Toda votação que incomoda o andar de cima dorme na gaveta.

 

 

UM GRANDE LIVRO DO TAMANHO DE UM ENORME PROBLEMA

 

Saiu um daqueles livros que ensinam aos brasileiros o que é o Brasil. Chama-se "Pisando fora da própria sombra - A escravidão por dívida no Brasil contemporâneo", do padre-professor Ricardo Rezende Figueira (com fotografias de João Roberto Ripper). Ele tem 52 anos, vinte de militância na Pastoral da Terra na Amazônia, fez mais de cem entrevistas e tirou de dentro da floresta um magistral retrato da escravidão dos brasileiros do século XX. O mundo de traficantes chamados de Luiz Bang Bang, Curiango ou Chicô. Uma hierarquia violenta, na qual há peões arrebanhados por gatos e alugados a fazendeiros, fugidos e recapturados por pistoleiros ou policiais.

Rezende descreve os mecanismos da escravidão com a minúcia de um relojoeiro. É econômico nos adjetivos e blindou o seu trabalho contra lendas. Sempre que se fala em escravidão no século XXI alguém se pergunta como é que uma coisa dessas pode existir. O professor mostra como existe e como continuará existindo se ninguém fizer nada. A privação da liberdade, o medo e a violência são mostrados com uma dolorosa lógica. Seu passeio pelo mundo do medo valendo-se dos personagens de Guimarães Rosa é uma homenagem ao estilo.

No coração do livro de Rezende está a demonstração de que o fazendeiro e os gatos fazem a cabeça do escravo. Ele acredita que deve dinheiro no barracão, tem de pagar, pois não é decente fugir. A fuga (que o fazendeiro chama de calote) é moralmente condenável.

Não é Rezende quem diz isso, mas lendo-o percebe-se que os escravos das fazendas brasileiras padecem da síndrome de Lula-Palocci. Eles também acreditam que não há outro jeito senão pagar.

 

 

Luiz Antonio Machado

Assistente Administrativo

Projeto Combate ao Trabalho Escravo

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