Mensagem Recebida![]()
-----Mensagem original-----
De: Antonio Campos de Abreu [mailto:acdeabreu@usiminas.com.br]
Enviada em: sexta-feira, 9 de julho de 2004 14:42
Para: 'cdh@camara.gov.br
Assunto: POLITICA DE INCLUSAO: TODOS ESTAMOS ERRADOS - SURDOS - VAMOS CONTRA ELE
João Campos é advogado especialista em Direito do Consumidor
Política de inclusão: todos estamos errados
Graças a leis oportunistas, sem qualquer base em pesquisa científica, o governo e seus agentes fingem que estão cuidando do problema dos deficientes auditivos e os pais seguem acreditando que seus filhos estão sendo educados e integrados à sociedade. Todos estão errados e, depois de algum tempo, as perdas serão irreversíveis.
Há poucos dias, uma escola particular de grandes tradições e reconhecidos serviços prestados à comunidade foi intimada pelo Ministério Público de Defesa da Cidadania a contratar um intérprete na língua brasileira de sinais (LIBRAS) para um aluno deficiente auditivo.
De acordo com a moção ministerial, a lei de inclusão do surdo na comunidade deveria ser cumprida à risca e, na sua visão, para que a lei fosse cumprida, bastaria que houvesse na classe um intérprete em LIBRAS.
Fui procurado pela escola e, ao elaborar sua defesa, tomei conhecimento de um dos mais agudos problemas com esse programa de integração - ou inclusão, como prefere o Ministério Público: a lei, mais um produto do ócio de Brasília do que de sólida pesquisa científica, simplesmente, não funciona. Pior: do jeito que ela é, ou tenta ser, aplicada a ferro e fogo, sob ameaça de prisão, desobediência e tudo o que contém o arsenal repressivo típico latino-americano, o deficiente auditivo ficará em situação muito pior do que estaria se nenhuma lei existisse.
Bastaria, para a escola, concordar com o MP e contratar um intérprete da língua de sinais, desses que vemos na TV "traduzindo" sermões e parábolas da Bíblia e escaparia do processo ministerial. O que descobri foi que não basta o intérprete e seu conjunto de sinais para que se realize o processo de aprendizado. O intérprete precisa conhecer a matéria que está sendo ministrada, convertê-la em sinais que ainda não existem na LIBRAS e repassar ao estudante com problema de audição.
De que adianta o professor estar falando sobre uma equação de segundo grau, o ponto de ebulição dos líquidos, o movimento uniformemente variável de física, um teorema de pitágoras, o som do fonema ñ na língua espanhola, a pronúncia do fonema inglês truth ou a tabela periódica de química se o intérprete não tem a mínima idéia do que se está ensinando, nunca assistiu a nenhuma dessas aulas e, pior de tudo, não há sinais de LIBRAS para essas matérias?
Responda rápido o pai de um aluno com problema auditivo: o que será que o intérprete está passando ao seu filho quando ouve o professor falar daquelas matérias? Repito: não é a mesma coisa que contar a história de David e Golias ou a passagem do Mar Vermelho. Trata-se de explicar - e sinalizar! - a fórmula do atrito em física, o cálculo estrutural em engenharia, a avaliação do volume de um determinado recipiente com líquido!
Finalmente, e isso foi um deficiente auditivo que me ensinou há poucos dias, quando me viu envolvido com essa questão, as autoridades, os conselhos de educação, as entidades de proteção e defesa do deficiente deveriam se preocupar com a pesquisa vocacional, como nos velhos tempos. O meu amigo deficiente me disse que o seu tempo deveria ser gasto com aprendizado técnico que ele vai usar no dia-a-dia, pois se o conteúdo programático ensinado nas escolas é inútil até para os alunos normais, quanto mais não o será para os surdos?Esse negócio de inclusão é o que os burocratas de Brasília e seus seguidores transformam numa corrida de obstáculos entre deficientes e normais, pedindo a uns que convivam no meio dos outros, que os normais corram menos para esperar os menos dotados e que estes façam o possível para assimilar conhecimentos, técnicas, gestos e aprendizado que o governo acha que nos será útil para a vida.
Infelizmente, um deficiente auditivo dotado de outras capacidades com que a natureza, em sua insuperável sabedoria, procurou compensá-lo, deve, na verdade, ser excluído de nosso mundo normal e burro, onde um aluno que só quer ser um grande corretor de imóveis tem de aprender mistérios da Biologia, o núcleo da célula, os vasos lenhosos da planta antes de assimilar algum conhecimento sobre o mercado imobiliário, avaliação de imóveis, expansão das cidades, noções de condomínio vertical, etc.
E esse é um aluno normal, querendo apenas ser um bom corretor de imóveis, a profissão que lhe dará fama, fortuna e condições de criar sua prole e reconhecimento na sociedade. Mas, não. Os burocratas do MEC querem que ele tire 2, 3 ou 5 em Física, Química, Matemática antes de lhe dar uma única e miserável luz sobre o que, realmente, ele quer ser no futuro!
Por isso já não me espanta quando leio que alunos do ensino fundamental e mesmo os que ingressam nas universidades americanas sempre respondem com um sonoro «não» quando lhes perguntam "Sabe quem foi Lincoln?". Quem precisa desse conhecimento obrigatório num país que sempre tem três ou quatro ganhadores do Nobel em cada área de conhecimento universal?
Aqui nossos alunos de segundo grau certamente sabem quem foi Lincoln e alguns até sabem que ele tinha o saudável hábito matinal de comer rosquinhas embebidas em Jack Daniels. Mas nem isso nos tira da miserável pobreza intelectual em que nos afundamos ano após ano.
Com toda experiência de quem vive o problema, ensinou-me o meu jovem amigo que mais do que entender a teoria física que levou à produção de um aparelho de micro-ondas, o deficiente auditivo precisa somente aprender a apertar os seus botões de controle e os infindáveis usos a que se destina o aparato industrial. Em resumo, é mais fácil - e mais útil para o deficiente e para o mundo moderno - prepará-lo para controlar a logística de uma cozinha industrial ou de um grande hotel do que levar anos a fio tentando ensinar as teorias de Newton. Ou introduzi-lo, com seus olfato superdesenvolvido pela falta de audição, no mágico mundo dos queijos e vinhos, onde um profissional ganha 10, 15 mil dólares por mês, do que tentar explicar como Pasteur chegou aos mistérios de seu mofo verde.
O que aprendi, nesta semana de contato com a realidade do deficiente auditivo, é que governo e seus agentes estão errados com suas leis inúteis, casuísticas e incompletas. Os pais estão sendo enganados com essa balela de inclusão. E, finalmente, que há muita, mas muita coisa errada mesmo com o nosso sistema educacional, seja para alunos normais, seja para portadores de algum tipo de deficiência.