Mensagem Recebida
  

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De: FFranco@oxfam.org.br [mailto:FFranco@oxfam.org.br]

Enviada em: quarta-feira, 30 de junho de 2004 17:26

Para: anaind@yahoogrupos.com.br; marialuisa1@uol.com.br;

atonfon@uol.com.br; evanize@social.org.br; smdh@zaz.com.br;

arqmo@quilombo.org.br; givaconceicao@yahoo.com.br; delma@cclf.org.br;

cpisp@cpisp.org.br

Assunto: [anaind] Pelo respeito aos direitos humanos das comunidades

Quilombolas da Alcântara

 

Declaração Conjunta COHRE (Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos) -

Centro de Justiça Global - Social Watch

Brasil - 23 de Junho de 2004

As entidades internacionais de direitos humanos e luta contra pobreza COHRE

? Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos e Social Watch e a entidade

nacional Centro de Justiça Global vem por meio desta declaração conjunta

reafirmar a nossa plena solidariedade e estreito comprometimento com a luta

das comunidades quilombolas do Brasil e em especial com as comunidades do

Município de Alcântara, Estado do Maranhão, Brasil.

As 153 comunidades de remanescentes de quilombos de Alcântara que

tradicionalmente ocupam este importante território étnico do Brasil vêm

travando uma penosa luta pela garantia de implementação de seus direitos

humanos fundamentais e contra a ocorrência de violações principalmente no

que se refere ao Direito à Moradia Adequada e da livre auto determinação.

Desde a implementação do CLA - Centro de Lançamentos de Alcântara no

Município em 1984 foram deslocadas 312 famílias pertencentes a 32

comunidades tradicionais que foram reassentadas em Agrovilas. Estas

agrovilas são totalmente inadequadas às necessidades fundamentais de

sobrevivência destas populações, uma vez que o solo não oferece condições

férteis e o deslocamento afastou as comunidades da costa litorânea,

principal fonte da pesca destas populações.

Estas comunidades também tiveram o acesso à água prejudicado e hoje

convivem com a necessidade de pagar pela água a qual antes tinham acesso

gratuito. As comunidades, desde o deslocamento, jamais receberam títulos de

propriedade das terras e precisam de autorização do Centro de Lançamentos

para ampliar ou reformar suas casas. A conseqüência social direta dos

deslocamentos foi o rompimento do harmonioso tecido social que

historicamente garantiu a sobrevivência das comunidades remanescentes de

quilombos no Município de Alcântara. Tais inter-relações sociais são

baseadas em estreitas relações de parentesco e solidariedade, além do uso

comum do solo e dos recursos naturais, caracterizando uma relação econômica

e territorial completamente diferenciada dos padrões de consumo e

propriedade.

É importante ressaltar que as comunidades deslocadas hoje estão enfrentando

problemas sociais até então inexistentes como a gravidez precoce, a

prostituição de jovens e a disseminação das drogas, fatos que as

comunidades, durante a Audiência Pública em Alcântara, relacionaram ao

deslocamento.

Sem que exista uma avaliação criteriosa das medidas até agora

implementadas, avaliação esta que deve ser realizada com a participação

ativa das comunidades, novos deslocamentos já estão programados devido ao

processo de expansão da Base que hoje já ocupa quase 55% do Município.

Entre os dias 29 de Maio e 12 de Junho ocorreu a visita do Relator Especial

das Nações Unidas para o Direito à Moradia Adequada, Sr. Miloon Kothari. A

Relatoria Nacional pelo Direito a Moradia Adequada, em parceria com a

sociedade civil e ONGs programou uma visita do Sr. Miloon Kothari às

comunidades de Alcântara, mais especificamente as comunidades de Marudá,

que foi deslocada e reassentada em uma agrovila e a comunidade de Mamuna,

atualmente ameaçada pelo deslocamento. Na ocasião também foi realizada uma

audiência pública da qual participaram além dos relatores, representantes

das diversas comunidades de quilombos, sociedade civil e representantes do

COHRE, Centro de Justiça Global e Social Watch. Apesar de convidados

representantes governamentais não participaram oficialmente da Audiência

Pública.

Tanto durante a visita as comunidades de Marudá e Mamuna quanto na

Audiência Pública em Alcântara ficou claro que o deslocamento das

comunidades não trouxe os benefícios prometidos na época do deslocamento e

que na verdade houve um acréscimo nas violações cometidas contra estas

populações. O Relator Especial das Nações

Unidas Sr. Miloon Kothari e o Relator Nacional do Direito à Moradia

Adequada e a Terra Urbana foram plenamente solidários às reivindicações das

comunidades e expressaram publicamente que qualquer deslocamento só deve

ser feito de acordo com as leis

internacionais de direitos humanos e com a devida concordância da

comunidade deslocada.

Portanto as entidades que assinam esta declaração destinada à sociedade

civil nacional e internacional e ao Governo Brasileiro, com o objetivo de

reverter este quadro de violações e evitar que mais deslocamentos produzam

o mesmo quadro social que foi constatado nas comunidades deslocadas,

solicitam:

1) Que as comunidades já deslocadas tenham suas reivindicações

atendidas e consideradas, quanto à provisão de moradia e terra adequada

para morar e trabalhar, acesso à educação de qualidade, transporte publico,

serviço de água e tratamento de esgoto. Que sejam evitadas mais violações

aos direitos destas comunidades já há muito privadas de condições de

moradia e cidadania adequadas e que sejam garantidos o cumprimento dos

direitos humanos destas comunidades tal qual consagrado pelos instrumentos

fundamentais de direitos humanos e as leis nacionais do Brasil.

2) Que as comunidades que estão ameaçadas de deslocamento devido ao

projeto de expansão da Base sejam amplamente consultadas e que os

deslocamentos sejam suspensos até que sejam encontradas soluções

concensuadas e adequadas de moradia, trabalho e cidadania para estas

populações. Alem disso, que possam ser beneficiarias de políticas sociais

visando a melhoria da sua qualidade de vida e o acesso a serviços

essenciais e assistenciais.

Neste sentido solicitamos a todos os parceiros e amigos do COHRE, Centro de

Justiça Global e Social Watch a enviarem e-mails de apoio a esta

Declaração, e-mails que podem ser enviados para os endereços eletrônicos

abaixo, em um formato de e-mail simples com o nome da entidade, o nome do

representante e uma frase curta de apoio a esta declaração.

A partir destas demonstrações de apoio nossas entidades compilarão uma

carta aberta da sociedade civil a ser dirigida ao Governo Brasileiro

solicitando o mesmo não meça esforços para adotar as medidas cabíveis no

sentido de cumprir as observações preliminares do Relator Especial das

Nações Unidas, Sr. Miloon Khotari relativas à questão de Alcântara e para

garantir que as comunidades remanescentes de quilombos afetadas pela

implementação do Centro de Lançamentos de Alcântara recebam tanto do âmbito

federal, estadual e municipal a devida atenção que este caso merece nos

trâmites governamentais.

Desde já agradecemos a todos nossos parceiros e amigos pela atenção

dispensada.

COHRE ? cohreamericas@cohre.org

Centro de Justiça Global ? defensores@global.org.br

Social Watch - socwatch@chasque.net

 

 

 

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