De: Glaucia Paschoal
[mailto:glauk_mag@yahoo.com.br]
Enviada em: quinta-feira, 31 de março de 2005 01:02
Para: cedefes; anaind@yahoogrupos.com.br; Pindorama; nepe
Assunto: [anaind] Política indígena de Lula decepciona, diz Anistia
30/03/2005 - 06h42
FOLHA ON-LINE
Política
indígena de Lula decepciona, diz Anistia
da BBC
Brasil
O governo do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva decepcionou a população indígena brasileira ao manter uma
política que priva o grupo das terras que precisa para sobreviver e estimula violações
de direitos humanos, afirma um relatório da Anistia Internacional divulgado nesta
quarta-feira.
"Os povos indígenas parecem
estar bem abaixo na lista de prioridades de um governo que tenta equilibrar muitas
demandas conflitantes. Como resultado, eles estão cada vez mais vulneráveis, num clima
em que a ameaça da violência está sempre presente", diz o documento intitulado
"Estrangeiros no nosso próprio país".
Segundo a Anistia, havia grandes
esperanças de mudança com o início de um governo do PT, "um tradicional aliado do
movimento indígena", mas os avanços teriam sido relativamente pequenos.
Pouco antes de o presidente ser
eleito, o partido divulgou o "Compromisso com os Povos Indígenas do Brasil", no
qual reconhecia erros cometidos no passado e prometia "respeito à autonomia aos
povos indígenas, demarcação de suas terras e reorientação das políticas de governo
para honrar esses compromissos".
"Apesar dessas promessas e
do forte apoio das populações indígenas do Brasil durante a campanha eleitoral, passada
mais da metade do seu mandato, ainda não há sinal de que o governo federal desenvolveu
uma estratégia coerente para tentar resolver os diversos problemas enfrentados pelos
índios brasileiros", afirma o relatório.
Risco de retrocesso
Segundo a Anistia, embora tenha
reconhecido a necessidade da terra para a sobrevivência da cultura indígena, o governo
Lula, assim como os que o precederam, não conseguiu garantir esse direito aos índios.
A entidade diz que o processo de
demarcação e ratificação de territórios indígenas tem se dado de forma muito lenta.
O grupo também critica a fiscalização das áreas já demarcadas.
"Em situações em que a
terra deles está legalmente demarcada, muito freqüentemente o Estado fracassa em lhes
fornecer proteção", afirma o relatório.
A entidade não só diz que os
avanços foram "insuficientes", como alerta para o que considera ser uma
tendência de reverter as conquistas asseguradas na Constituição de 1988, que reconheceu
o direito inalienável dos índios brasileiros às "terras tradicionalmente ocupada
por eles" e determinou a remarcação de todas elas até 1993.
"Os consideráveis avanços
feitos após a Constituição de 1988 estão sob risco de serem perdidos. Um poderoso e
cada vez mais vociferante lobby está pedindo uma redução dos seus direitos. Aliado com
o fracasso de sucessivos governos ao implementar uma estratégia coerente para assegurar o
reconhecimento e a proteção dos seus direitos, a segurança deles e até a sua
sobrevivência estão em risco."
Madereiras, militares, grileiros
e proprietários de terra, que compraram territórios indígenas "de boa ou má
fé", estão entre os grupos que a Anistia cita como tendo interesses em "adiar
ou interromper" a solução de disputas de terras indígenas.
De acordo com a Anistia, embora a
Constituição tenha dado amparo legal à luta indígena e embora a área total de terras
demarcadas tenha de fato aumentado, o número está muito distante da meta. "Dos 580
territórios indígenas reconhecidos no Brasil, 340 foram ratificados, enquanto 139 ainda
aguardam identificação, o primeiro estágio no processo."
O título do relatório,
"Estrangeiros no nosso próprio país", foi tirado da declaração de um líder
indígena decepcionado com o governo Lula, que é reproduzida no documento.
"O governo adotou a mais
perversa forma de tratamento diferenciado, pela qual a questão indígena foi assumida
pela Câmara de Relações Internacionais e Defesa Nacional, que lida com questões
relacionadas à soberania, o que significa que nós estamos sendo tratados como
estrangeiros no nosso próprio país e mesmo como uma ameaça à soberania."
A Anistia destaca grupos
indígenas especialmente vulneráveis, como os guaranis-kaiowás que, embora sejam o grupo
guarani mais populoso do país, proporcionalmente têm uma das menores áreas.
Segundo a Anistia, há cerca de
20 mil pessoas vivendo em áreas rurais densamente povoadas, assoladas por problemas como
a desnutrição e o alcoolismo e onde a mortalidade infantil chega a 64 por mil (dados de
2004).
'Suicídio'
"Nós índios já tomamos
uma decisão. Se ocorrer uma expulsão nessas áreas em conflito, vamos cometer suicídio.
Nós vamos cometer suicídio porque nós não significamos nada para ninguém", disse
um guarani-kaiowá aos pesquisadores da Anistia.
O relatório menciona diversos
ataques contra índios, geralmente motivados por disputas de terra, e lembra, entre outros
casos, o assassinato do cacique guarani-kaiowá Marcos Verón durante um protesto
pacífico para reocupar um pequeno território indígena em Takuara, no Mato Grosso do
Sul.
A Anistia destaca que, no caso de
Verón, os suspeitos foram presos e estão respondendo a uma série de acusações,
incluindo assassinato e tortura, mas a organização cobra a investigação e punição
dos responsáveis por outros crimes envolvendo índios.
Para a Anistia, a impunidade é
especialmente "persistente" no Brasil, quando os abusos envolvem índios.
A organização conclui o
relatório dizendo que os índios brasileiros estão diante de um "futuro
incerto" e cobrando estratégias específicas do governo brasileiro para
protegê-los.
"É essencial que o governo
federal cumpra as suas promessas eleitorais e siga as obrigações internacionais. Sem um
forte compromisso estratégico das autoridades com a segurança dos índios, a solução
de disputas de terra e a ratificação de reivindicações pendentes à terra, mais
violência e retrocesso parecem inevitáveis."