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Enviada em: quarta-feira, 16 de março de 2005 12:21
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Assunto: OPINIÃO GAJOP 16/03/05
DA
POLÍTICA DE COTAS ÀS POLÍTICAS DE INCLUSÃO E DEMOCRATIZAÇÃO DA UNIVERSIDADE
BRASILEIRA JOSÉ
ALBERTO LINS E LEONARDO NUNES Após
discussão sobre o artigo de Conceição Costa (Psicóloga do GAJOP), que fala
sobre cotas para negros nas universidades públicas (24/02/2005), alguns pontos merecem
maior debate. O primeiro se refere à quantidade de
vagas. É preciso criar um maior acesso às
universidades públicas no lugar de dividir as poucas vagas existentes. O segundo ponto é
que as cotas não devem ser exclusivas para os afrodescendentes, mas para os alunos
oriundos de escolas públicas e de baixa renda que devido a condições históricas
(período do Brasil Colônia, Império e República) e
estruturais, em sua maioria são negros ou pardos. Os
europeus, que vieram ao Brasil no final do século XIX (italianos e alemães
em sua maioria), e seus descendentes não precisam hoje
de cotas, devido ao fato de que ao longo do século XX terem sido beneficiados por
políticas de ocupação de território (a colonização do Sul se deu através de
doação de terras pelo governo brasileiro). Enquanto
isso, os negros estavam vivendo à ferro o período
escravocrata; não por terem a cor negra (uma vez que os índios também foram
escravizados), mas porque a economia do Brasil Império
necessitava de mão-de-obra escrava para as lavouras de cana de açúcar, café e demais
bens de exportação. A
questão de cotas passando pelo âmbito da raça/cor pode
aumentar o preconceito racial, pois os beneficiados
(negros) serão visto como pessoas sem capacidade para entrar na universidade pelas vias
usuais (vestibular). A verdade, no entanto, passa pela falta de
acesso a educação de qualidade que estes não tiveram, devido aos baixos investimentos
do governo brasileiro, durante décadas no ensino público (ninguém pensou na cota para
brancos de baixa renda... Preconceito?). Já
a cota via Classe Social, por recorte de renda, (partindo do pressuposto de que a classe
determina os coeficientes médios de escolaridade e não a cor/raça das pessoas), seria
aproveitada também pelos afrodescententes, como foi mencionado acima, devido a sua classe
e não à cor de sua pele, gerando assim um efeito indireto sobre a ascensão desse
público às instituições públicas de ensino superior. Isto
evitaria o efeito residual do aumento do preconceito racial
("Você entrou aqui porque é negro" ou "o negro é burro e precisa de
cotas para entrar na universidade"). Além
do mais, do que adianta pensar em cotas - seja para afrodescententes ou para pessoas de
baixa renda - se as pessoas assim classificadas não têm como se manter na Universidade?
Assim, as cotas por si mesmas não representam uma garantia de democratização do ensino
superior público. A manutenção dessas pessoas nesse sistema é tão importante ou mais
do que o seu ingresso. Outra
questão é como se daria à mensuração dessa seleção. Exame de DNA? Ou "no olhometro?. Porque sendo por DNA, está comprovado
através da biociência que mais de 85% da variabilidade genética das pessoas ocorrem
entre os indivíduos e não entre os grandes grupos humanos (caucasiano, asiático e
africano) de modo que a idéia de raça é falsa, que o máximo que existem são cores da
pigmentação da pele humana e certos traços fisionômicos, nada relacionado à
capacidade intelectual (ver: Scientifc American Brasil - Ed.
Janeiro 2004 - "Ambigüidades que limitam uma definição de raça"). Por
fim, as hipóteses que respondem a natureza dessas cotas que tanto se fala são obscuras.
São vagas ociosas já existentes a serem ocupadas de qualquer maneira, desde que a pessoa
tenha se declarado afrodescendente ou são vagas não-ociosas que serão reservadas para
afrodescendentes, ou ainda, são vagas criadas a mais pelo sistema e que devem ser
ocupadas por pessoas que, antes de serem classificadas como afrodescendentes, tem muito
potencial para tal e não tiveram oportunidade? Essas questões acima mencionadas devem
estar inseridas no discurso sobre as cotas nas universidades públicas para que não
fiquemos presos a uma questão de piedade racial referente, mais ao domínio
das paixões do que ao discurso de parâmetros éticos e científicos. José
Alberto Lins (Mestrando em Ciência Política) e Leonardo Nunes (Formando em Ciências Sociais)
são integrantes do Gajop e Técnicos do Programa Educação para a Cidadania www.gajop.org.br Endereço: Rua do
Sossego, 432. Boa Vista. Recife/PE - Brasil - Fones: (81) 3222.1596/ 322.2036. Fax:
(81) 3223.0081 O Opinião Gajop foi criado para fortalecer a comunicação entre o GAJOP e todos aqueles que compartilham dos ideais de promoção e defesa dos Direitos Humanos, contribuindo para o fortalecimento do Estado e da Sociedade, na perspectiva da vivência plena da cidadania e da indivisibilidade dos Direitos Humanos. É um espaço de expressão da pluralidade de idéias dos profissionais e colaboradores do GAJOP. Não necessariamente reflete o pensamento institucional. Caso você não queira mais recebê-lo, por gentileza, escreva para vpress@nlink.com.br |