De: Pastoral Social-CNBB
[mailto:psocial@cnbb.org.br]
Enviada em: segunda-feira, 7 de março de 2005 09:26
Assunto: Ciência, Religião e Mágica - Roberto Malvezzi (Gogó)
Ciência, Religião e Mágica
O velho embate entre ciência e religião, absolutamente arcaico, ganhou ares de modernidade no debate sobre as células tronco. A grande mídia, uma ala de cientistas, invocou a luz da razão contra os obscurantismos da religião para fazer prevalecer suas idéias. O Iluminismo prometeu um mundo organizado pela luz da razão, sem obscurantismos religiosos e mais feliz para toda a humanidade. É esse o mundo que vivemos?
Todos sabemos como essa questão surgiu. O absolutismo religioso impedia a pesquisa científica e condenava, não raro à fogueira, alguma descoberta da ciência junto com o cientista - que pusesse em risco certas afirmações de fé, sobretudo no campo da criação. Ficou como símbolo desse confronto Galileu Galilei. A partir daí, para a elite iluminada do mundo, os argumentos religiosos passaram a ser parte dos atrasados e da razão obscura.
Mas a humanidade evoluiu e hoje estamos em pleno século XXI. Hoje fala-se em inteligência racional, inteligência emocional e inteligência religiosa. A afirmação é que elas não se contrapõem, não se excluem, mas também não se substituem, ao contrário, se completam.
A humanidade gerida pela razão especulativa e prática trouxe toda evolução científica e tecnológica que conhecemos. Não deixa de ser fantástico uma simples sonda pousar no solo de Titã, há mais de um bilhão de quilômetros, e enviar as informações e imagens que os cientistas buscavam naquele satélite longínquo. Nem vamos listar aqui os benefícios cotidianos que a ciência e a tecnologia nos trazem. Mas nos trouxeram também um planeta doentio, cada vez mais quente, de águas contaminadas, de florestas devastadas, de eliminação da biodiversidade, da tecnologia devastadora das guerras, de remédios anunciados como milagrosos e depois retirados do mercado pelo efeito nefasto à saúde das pessoas. A razão iluminada promoveu duas guerras mundiais e justificou a eliminação de sociedades indígenas porque, na sua visão, representavam o atraso. Em nome da ciência os nazistas cometeram um dos maiores genocídios da história. Cientistas honestos nos dirão que aí já não é mais ciência, mas sua manipulação para fins hediondos. É verdade. Einstein também pensou assim quando viu sua teoria transformar-se em bomba atômica sobre Nagasak. Mas isso só prova que a ciência e a tecnologia, quando absolutas, sem uma ética que as controle, também podem perder o respeito pelo ser humano, pela natureza e podem ser postas a serviço de crimes hediondos contra a humanidade. Esse é o verdadeiro debate contemporâneo, que analisa a história e os obscurantismos da religião, mas também da razão iluminada.
A escola filosófica de Frankfurt (Habermas, Benjamim, Adorno) já no século passado refletia sobre os problemas da pesquisa cientifica financiada por grandes empresas, com a finalidade de pesquisar não o que interessa à humanidade, mas o que interessa ao capital privado. Com que clareza a aprovação dos transgênicos, embutida na Lei de Biossegurança, nos mostra esse lado obscuro da ciência e da tecnologia sob interesse do mercado! Especificamente na questão dos transgênicos, o que venceu não foi a ciência, foi o interesse do grande capital.
Os cegos vêem, os coxos andam, os enfartados recuperam o coração, os tecidos degenerados se recompõem. Não é um discurso religioso, é o discurso sobre as células tronco às vésperas da aprovação da Lei de Biossegurança. Um discurso absolutamente mágico. Só no dia seguinte vieram alguns cientistas para dizer que a injeção de células tronco pode gerar tumores, que os embriões com mais de três anos não são descartados do ponto de vista reprodutivo, que de um único embrião pode haver o repique de células, enfim, que nada está garantido porque as pesquisas ainda vão começar. Primeiro falaram das vantagens e possibilidades como fato consumado. Só depois falaram dos riscos e desafios. Só depois da lei aprovada o debate foi mais transparente.
Dirão que estamos chutando cachorro morto. Pode ser. Mas os impactos dessa lei sobre o ser humano ainda virão no futuro. Só o tempo dirá o impacto dos transgênicos sobre a saúde humana e o meio ambiente. Só o tempo dirá, mesmo com sacrifício dos embriões humanos, se as células embrionárias farão o milagre prometido.
Entretanto, é preciso reafirmar que ciência e religião, quando absolutas, quando perdem o respeito pela vida em seu horizonte, cometem atrocidades. Mas o que esteve na mídia para ganhar a opinião pública não foi religião e nem ciência. Foi mágica. Agora já voltamos à realidade.
O outro nome da mágica, como sabemos, é ilusionismo.