-----Mensagem original-----

De: Severino Goes [mailto:goes@oitbrasil.org.br]

Enviada em: segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005 09:16

Para: arosa@ethos.org.br

Assunto: A VITALIDADE DO BRASIL ARCAICO -O ESTADO DE S. PAULO -20/02/2005

 

 

Disponibilizamos abaixo artigo do sociólogo José de Souza Martins, publicado ontem no jornal O Estado de S. Paulo.

A vitalidade do Brasil arcaico

 

José de Souza Martins

 

Volta e meia o Brasil arcaico recrudesce e se deixa ver. Foi o que aconteceu nos últimos dias por diferentes meios e de diferentes modos. De forma brutal, no assassinato da Irmã Dorothy, no Pará, por pistoleiros. Segundo denúncia que ela mesma fez perante comissão de inquérito do parlamento, madeireiras estavam praticando violência na sua região. Violência porque atividade econômica ilegal, baseada no lucro predatório, no esbulho e na morte. Ministros e outras autoridades foram avisados e nada foi feito. O Brasil arcaico faz parte dos nossos costumes e da nossa mentalidade adormecida.

Não é culpado apenas quem disparou os tiros. A corrida de ministros e altos funcionários do governo e numerosa tropa de policiais e militares à região da tragédia é parte desse arcaísmo sinistro, do tardio faz de conta que nos acalma. Os mortos não ressuscitarão nem o martírio romperá a muralha do atraso e da injustiça. E como tem acontecido nas últimas décadas, outras mortes infelizmente virão. Nem se pode esperar mais de uma política agrária modesta, de um governo que ainda não decidiu que reforma agrária pretende fazer, questionado por seus próprios apoiadores.

O Brasil arcaico se fez presente também nas coincidências de posições tanto do candidato petista à presidência da Câmara dos Deputados quanto do candidato que o enfrentou no segundo turno. Greenhalgh prometeu dobrar os vencimentos dos parlamentares e o mesmo fez Severino. Greenhalgh prometeu aos ruralistas rever a emenda constitucional que determina o perdimento das fazendas nas quais for constatado o emprego de trabalho escravo. Uma luta de anos para estabelecer critérios civilizados nas relações de trabalho se perde na barganha política. Perdimento que faz parte do Plano de Erradicação do Trabalho Escravo, legado pronto e acabado pelo governo anterior ao atual governo. Coincide com Severino, que no ano passado fez discurso atacando esse programa. Só faltava o absurdo de que aqueles que devem assegurar a civilização contra a barbárie estejam dispostos a atenuar a civilização em favor da barbárie.

A insurgência que elegeu Severino Cavalcanti bem nos diz o quanto o Brasil arcaico tem interesses políticos organizados. Ele é o terceiro homem na linha de sucessão à Presidência da República. Até agora sabe-se que o "programa" do deputado, além dos vencimentos dobrados para os parlamentares, contempla viagens ao exterior para se aprimorarem.

O Brasil arcaico se manifestou ainda em dois linchamentos na Bahia. Em Feira de Santana, um homem foi linchado por roubo. Em Salvador, outro foi linchado por ter estuprado duas jovens. Salvador é a nossa cidade que mais lincha, seguida de São Paulo e do Rio de Janeiro. E o Brasil é um dos países que tem o linchamento como forma regular de justiça extra-legal. Não tem classificação diversa o assassinato de um PM num assentamento em Pernambuco, há poucas semanas, ao que parece simplesmente por ser um policial.

São expressões distintas da mesma coisa: o Brasil arcaico. A morte da Irmã Dorothy, os dois linchamentos, o estupro das duas moças, o assassinato do policial militar ocorreram porque neste país a justiça privada e sanguinária está em toda parte, não só nos sertões. São expressões do poder pessoal de potentados que vivem à margem da lei: eles são a lei. O modelo se dissemina também entre os pobres. Os linchamentos e num certo sentido a morte do PM são desdobramentos de uma cultura de vendeta e justiçamento que se disseminou como coisa justa e alcançou setores da sociedade que não são apenas os que tem riqueza e poder.

Uma concepção de justiça popular que vem ganhando novas energias com base no entendimento simplificador de que todas as injustiças só tem sentido na perspectiva da luta de classes porque supostamente produzidas pela desigualdade social. Ricos e pobres tem recorrido ao justiçamento como prática de conveniência ou como forma de reparo. Portanto, a própria criminalidade teria sentido como luta por justiça.

Acusar um setor da sociedade, por conta de sua condição econômica, como fez um religioso, de ser o responsável pelo assassinato da religiosa é produto do mesmo arcaísmo que a matou, pelas mãos aliás de assassinos de aluguel recrutados, como tem sido regra, entre pessoas pobres.

Se os que mataram a Irmã Dorothy, como os que mataram centenas de trabalhadores rurais e agentes humanitários como ela, ao longo dos anos, assim o fizeram na certeza da impunidade, os que lincharam em Feira de Santana e em Salvador fizeram-no porque representam a mesma certeza do outro lado: a de que a Justiça não está do lado dos que dela carecem, pois é lenta, ineficiente e cara. Estamos em face de uma crise social que se complica na medida em que as concepções políticas são aplicadas para justificar ações impolíticas.

Faz parte do mesmo universo de direitos e procedimentos que tem o poder pessoal e o clientelismo da troca de favores como seu núcleo regulador, a eleição da mesa da Câmara. Ocorreu dentro da lei e mostrou o quanto na lei tem presença e força esse mesmo Brasil arcaico. O Brasil arcaico manda no Brasil porque o Brasil moderno é superficial e frágil. Deixamos de ser colônia de Portugal para sermos colônia do Brasil retrógrado.

Os arcaísmos recrudescem porque são estruturais e permanentes, constitutivos do nosso modo de vida. A civilização e o moderno são apenas delgada película de civilidade recobrindo endêmicas formas de nosso atraso. O atraso cumpre poderosas funções políticas e econômicas no Brasil. Estou me referindo aos arcaísmos como agentes ativos da nossa precária modernidade. Não são resíduos do passado e sim ingredientes do presente.

O Brasil não tem um projeto de modernização social, política e econômica, um projeto para superar essa contradição que nos aprisiona. Os partidos conservadores porque se beneficiam do atraso. Os partidos de esquerda porque não entendem que o desenvolvimento social depende da modernização social, política e econômica. Nossa modernização se dá aos trancos e barrancos, quase por acaso.

 

 

Severino Goes

Assessor de Imprensa

Projeto Combate ao Trabalho Escravo

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