De: Cimi - Conselho
Indigenista Missionário [mailto:cimi@embratel.net.br]
Enviada em: sexta-feira, 28 de janeiro de 2005 17:44
Para: anaind@yahoogrupos.com.br
Assunto: [anaind] Carta Denúncia dos Povos Indígenas do Brasil no Fórum Social
Mundial 2005
Carta Denúncia dos Povos Indígenas do Brasil
no Fórum Social Mundial 2005
Lula, a omissão vence a esperança!
Estamos cansados de enviar documentos e bater nas
portas dos gabinetes governamentais sem que haja respostas para a solução dos graves
problemas que enfrentamos.
Apesar de todo esforço de nossas comunidades,
povos e organizações, persistem a omissão, o descaso e a morosidade do governo em
garantir a demarcação de nossas terras.
Percebemos que a ganância e a exploração
capitalistas têm mais importância no governo Lula do que a sobrevivência física e
cultural dos nossos povos. Só assim se explica que apenas 11 terras indígenas tenham
seus limites declarados nos últimos dois anos, a redução da terra indígena Baú do
povo Kayapó, a não homologação da Raposa Serra do Sol em Roraima e a negociação
política para redução de nossas terras em todo país alimentada pela criação de
comissões envolvendo os interesses anti-indígenas locais e regionais. A demora no
procedimento demarcatório das terras indígenas vem alimentando os conflitos, tal como
acontece com a TI Monte Pascoal do Povo Pataxó (BA), um símbolo da luta indígena no
país. É lamentável, sob todos os aspectos, a negação do direito à saúde e
educação dos povos que ainda dependem do início do procedimento de demarcação de suas
terras, a exemplo do que acontece com os povos resistentes do Nordeste. Busca-se, por
interesse das mineradoras criar fatos, como a exploração garimpeira na terra Cinta Larga
em Rondônia, para regulamentar a exploração mineral nas terras indígenas sem que haja
a aprovação do novo Estatuto dos Povos Indígenas.
Constatamos que é cada vez mais freqüente nas decisões judiciais de diferentes
Tribunais, a inversão de direitos para contemplar o interesse particular de invasores e
de grupos econômicos e políticos interessados nas riquezas existentes nas terras
indígenas. Foram muitas as liminares concedidas em favor de invasores e para a expulsão
de indígenas de suas terras, como está acontecendo sistematicamente com o povo Guarani
Kaiowá (MS) e com a construção de barragens na TI Rio Branco em Rondônia que
compromete a sobrevivência de vários povos.
No Congresso Nacional, observamos que está em
curso uma forte articulação política liderada pelas forças do agronegócio com o apoio
de importantes setores governamentais para restringir os nossos direitos. São numerosas
as propostas de emendas constitucionais e projetos de lei que visam suprimir os direitos
indígenas principalmente em relação às terras e para o acesso aos recursos naturais. O mais recente é a proposta da comissão especial
do senado que através de seu relator Delcídio Amaral (PT/MS) apresentou o PLS 188,
completamente inconstitucional, que tem o apoio do articulador político do governo Aldo
Rebelo (PC do B). Esse projeto, entre outras coisas propõe retroceder os procedimentos de
demarcação das terras indígenas que ainda não foram concluídos, para que seus limites
possam ser negociados em função dos interesses econômicos e políticos representados no
Senado Federal.
A conseqüência imediata dessa política, que em
nome de um desenvolvimento excludente e depredador e que serve apenas para manter os
níveis absurdos de consumo das elites, é a violência praticada contra nossos povos. Em
2003 e 2004, aproximadamente 50 índios foram assassinados, comunidades indígenas foram
queimadas por arrozeiros, mulheres e crianças indígenas ameaçadas de morte e aliados
seqüestrados em Roraima, crianças Xavantes morreram em acampamento de seu povo à beira
da estrada, impedido de ocupar suas terras já demarcadas. E nesse início de ano de 2005
nos chega a preocupante informação do assassinato de 05 índios Djohum Djapá, no alto
rio Jutaí, na região do Vale do Javari/AM, por madeireiros. Numerosas terras indígenas
continuam invadidas de norte a sul do país. A discriminação ainda pode ser percebida em
discursos políticos e ações de órgãos governamentais quando desconsideram o direito
à diferença.
Isso pode ser constatado quando se nega o direito
territorial indígena na faixa de fronteira, impondo a criação de núcleos urbanos não
índios para a garantia da soberania nacional, quando se nega a identidade
indígena dos povos resistentes e quando a atenção à educação e à saúde específica
e diferenciada permanece somente no discurso.
É
por tudo isso que a política indigenista nos últimos dois anos não sofreu nenhuma
mudança substancial, mantendo seu viés integracionista, centralizador, repressivo e de
caráter tutelar e nem o governo se dispôs a implementar as suas propostas contidas na
carta compromisso do Lula com Povos indígenas de implantar uma nova política indigenista
em que houvesse uma ampla e efetiva participação dos povos indígenas e da sociedade
civil construída através de um processo participativo com os índios e assumida em uma
conferência indígena que seria realizada ainda no primeiro ano de governo.
Porto Alegre RS, 28 de janeiro de 2005.