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Enviada em: terça-feira, 18 de janeiro de 2005 15:41
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Assunto: [spam] BOLETIM ELETRÔNICO Nº 01/2005

 

BOLETIM ELETRÔNICO Nº 01/2005

 

Protocolo Facultativo ao PIDESC

AGENDE  Ações em Gênero Cidadania e Desenvolvimento

 

 

Brasília, 18 de janeiro de 2005

 

Entre 10 e 20 de janeiro deste ano, o Grupo de Trabalho de Composição Aberta sobre o Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Econômicos Sociais e Culturais se reúne em Genebra na Suíça. Representantes de países membros das Nações Unidas e de organizações não-governamentais participam do encontro. Marlene Libardoni, diretora executiva da AGENDE Ações em Gênero Cidadania e Desenvolvimento, participa das discussões do grupo.

 

A exemplo dos boletins elaborados pela AGENDE sobre a reunião do grupo em 2004, neste ano também será feita uma série especial de boletins com a dinâmica da reunião dia a dia.

 

 

O que tem acontecido no Grupo de Trabalho de Composição Aberta (GTCA) sobre o Protocolo Facultativo ao PIDESC?

 

Primeiro Dia: 10 de Janeiro

 

Programa do dia

O foco da sessão da manhã foram as declarações de abertura das delegações e a reeleição, por aclamação, de Catarina Albuquerque (Portugal) como presidente. À tarde, o ponto central foi um diálogo interativo com especialistas – Jean Ziegler, relator especial sobre o Direito à Alimentação; Emmanuel Dexaux, relator especial da Sub-Comissão de Direitos Humanos sobre a Aplicação Universal dos Tratados de Direitos Humanos e Doudou Diène, relator especial sobre as Formas Contemporâneas de Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlatas.

 

Mais de setenta governos participaram do primeiro dia do GTCA, um importante acréscimo em relação ao ano passado, o qual demonstra o crescente interesse no trabalho do grupo. Houve uma forte representação da América Latina, do "Grupo Ocidental" e um aumento da presença de países da África, Oriente Médio e Ásia. Cerca de vinte representantes de ONGs estavam presentes.

 

Declarações de Abertura

 

Diversas opiniões foram expressadas durante a abertura, sendo a maioria sobre posições políticas acerca de:

·         Apoios para o projeto do Protocolo Facultativo (PF) ao PIDESC

·         Atual interesse no trabalho do GTCA

·         Preocupações significativas quanto à eficácia e exeqüibilidade de um PF

 

Quanto às preocupações substantivas, dois temas chave emergiram:

·         Tendência de abrir a discussão a partir de uma abordagem "à la carte" (no qual nem todos os direitos do Pacto ou níveis de obrigações [respeitar, proteger, executar] seriam incluídos no Protocolo Facultativo)

·         Ressurgimento da preocupação quanto à justiciabilidade da obrigação de executar e quanto aos critérios que seriam usados para avaliar a violação de uma obrigação para realizar progressivamente os DhESC.

 

Representantes da União Européia e do Grupo Africano se posicionaram durante a abertura. A UE, representada por Luxemburgo, expressou seu apoio ao GTCA, embora não tenha mencionado a necessidade de se começar a esboçar um Protocolo Facultativo. Em contraste, o Grupo Africano, representado pela Etiópia, falou em favor de um projeto do PF. Os africanos, ressaltando que o atual plano é inadequado, destacaram a necessidade de um protocolo facultativo inovador, o qual deveria incorporar denúncias de grupos, levar em conta obrigações de cooperação internacional (econômica e técnica) e orientar a realização progressiva no contexto dos diferentes níveis de desenvolvimento econômico. Eles ainda lembraram que deveria haver complementaridade entre o PF e os mecanismos nacionais, regionais e internacionais já existentes.

 

Costa Rica, México, Rússia, Croácia, Finlândia e Portugal também expressaram apoio geral ao processo. Os representantes costa-riquenhos destacaram que o PF deveria expandir-se para responsabilizar as instituições financeiras internacionais. O México fez uma declaração de grande suporte, salientando que a então sessão do GTCA deveria começar a elaborar o Projeto do Protocolo. A Rússia também frisou apoio ao esboço e sugeriu que o projeto esteja preparado para a sessão de 2006 do GTCA. Ademais, os participantes demostraram que estão interessados em facilitar o trabalho da presidente em buscar consenso entre diferentes posições dos governos.

 

A Rússia, no entanto, afirmou que uma abordagem “à la carte” poderia ser aceitável. Esse movimento em direção a um tratamento diferenciado foi evidente no decorrer de todo o dia, particularmente por parte de delegações que pareciam sugerir que tal abordagem seletiva poderia ser a maneira de encontrar um consenso. As ONGs mostraram-se preocupadas com essa posição que, segundo elas, afetaria a indivisibilidade dos direitos humanos e seria extremamente nociva para a realização dos DhESC.

 

Outras delegações levantaram questões relativas ao processo do PF. A Noruega, por exemplo, em sua declaração, reafirmou a concepção equivocada de que existe uma hierarquia e claras distinções entre direitos civis e políticos e econômicos, sociais e culturais. Em particular, os noruegueses questionaram como o Comitê iria avaliar violações de realização progressiva dos DhESC, especialmente daqueles relacionados à obrigação de executar.

 

Canadá e Irã debateram a criação do projeto de Protocolo Facultativo. Ao mesmo tempo em que salientaram uma série de acordos alcançados na sessão de 2004, os canadenses destacaram que não havia consenso para o projeto; que faltava ao Comitê capacidade para julgar violações aos DhESC; que procedimentos já existentes tratavam adequadamente de violações dos DhESC e que o PF seria uma duplicação de mecanismos. O Irã alegou que os DhESC são muito vagos para ser objeto de julgamento/adjudicação; que as questões requeriam estudos mais aprofundados e que, se um PF fosse esboçado, deveria incluir um mecanismo para que as instituições financeiras internacionais fossem obrigadas a cumpri-lo.

 

Sessão de Diálogo Interativo com os Relatores Especiais

 

O relator especial de Direito à Alimentação, Jean Ziegler, detalhou os três níveis de obrigação dos Estados, dando exemplos concretos de casos jurídicos domésticos. Emmanuel Decaux, relator da Sub-Comissão de DH, assinalou os benefícios associados à revisão, pelo organismo de monitoramento, da implementação dos DhESC pelos Estados Partes. Já o relator especial sobre Racismo, Doudou Diène, disse que o PF poderia prover uma oportunidade de uma elaboração mais aprofundada dos direitos culturais, dentro do contexto das novas e emergentes formas de xenofobia e, especialmente, em ações dirigidas a visíveis manifestações de cultura. Em resposta às perguntas feitas pelas/os delegadas/os quanto ao Protocolo Facultativo, Ziegler e Decaux defenderam uma abordagem ampla para o PF, rejeitando enfaticamente a opção “a la carte”.

 

Questionamentos dos governos quanto aos possíveis elementos de um PF:

 

·         Como o esquema tripartite de respeito, proteção e execução (cumprimento) seria julgado e quais os critérios de avaliação de uma violação da obrigação de executar, especialmente dentro do contexto de coerção de recursos.

·         Como avaliar a questão da realização progressiva – já que a maioria das delegações têm afirmado que todos os direitos humanos (civis, culturais, econômicos, políticos e sociais) possuem elementos de obrigação imediata e elementos de realização progressiva.

·         Como o PF iria tratar o direito à auto-determinação.

·         Se haveria denúncias individuais ou coletivas e se os Estados seriam capazes de enviar denúncias.

·         Se haveria uma distinção entre nacionais e não-cidadãos para apresentar comunicações (apesar do fato de que o Pacto se aplica a todos/as sob a jurisdição do Estado-Parte).

 

A natureza judicial ou quase-judicial do Comitê também foi discutida. Finalmente, uma delegação sugeriu que um inventário da jurisprudência nacional e regional (Comissão Interamericana e Comissão Africana em particular) deveria ser elaborado para promover uma melhor compreensão dos DhESC.

 

Inúmeras delegações tomaram a palavra somente à tarde. Chile e França fizeram declarações de apoio, enquanto a Polônia deu continuidade ao seu papel de obstrução, questionando os benefícios e a eficácia de um PF. Suíça, Japão, Congo e Argentina demonstraram interesse em se comprometer com o processo.

 

Atividades das ONGs

 

A Coalizão de ONGs fez uma declaração de abertura, na qual convocou os governos a se moverem no sentido de esboçar um PF. Representantes da Coalizão também se encontraram com o recém-nomeado embaixador francês para Direitos Humanos, que está liderando as negociações da equipe francesa. Outras ONGs destacaram a importância do protocolo se aplicar aos transnacionais, salientando a necessidade de inclusão da Comissão Internacional de Juristas no projeto, além do Centro sobre e Direitos à Moradia e Desapropriações, da Associação Americana de Juristas e CETIM.

 

As ONGs estão se programando para um encontro, nesta terça-feira com Catarina Albuquerque, presidente do GTCA, e com Eibe Riedel (Especialista do Comitê sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais relacionada ao processo do PF) na quarta-feira.

Siglas

GTCA – Grupo de Trabalho de Composição Aberta

PIDESC – Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais

PF ao PIDESC – Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais

PPF – Projeto do Protocolo Facultativo

UE – União Européia

GRULAC – Grupos de Países Latino Americanos e Caribenhos

RE – Relator(a) Especial

DhESC – Direitos humanos Econômicos, Sociais e Culturais

Preparado pela Coalizão de ONGs por um Protocolo ao PIDESC, composto por indivíduos e organizações nacionais, regionais e internacionais que apoiam a adoção de um Protocolo Facultativo ao PIDESC. O Comitê Geral Ad Hoc da Coalizão abrange representantes de IWRAW Asia-Pacific, COHRE, ICJ, FIAN, Social Rights Advocacy Centre (Canada) e por Magdalena Sepulveda, representando ESCR-Net.

 

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