-----Mensagem original-----

De: tcahill@amnesty.org [mailto:tcahill@amnesty.org] Em nome de

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Enviada em: terça-feira, 26 de outubro de 2004 11:13

Para: tcahill@amnesty.org

Assunto: Comunicado da Anistia - Portugues

 

 

 Brasil: Cicatrizando as Feridas

 

Segredos e mentiras não serviram como base para que o Brasil pudesse

superar a dor e as violações sofridas por tantas pessoas durante a ditadura

militar. Hoje, centenas, senão milhares, de brasileiros ainda não

cicatrizaram suas perdas, incapazes de viver o luto pela perda de seus

entes queridos, pois a verdade continua a lhes ser negada.

 

 O recente incidente acerca da publicação de fotografias que supostamente

seriam de Vladimir Herzog, o jornalista torturado e morto pelo governo

militar em 1975, é um exemplo de como essas feridas permanecem abertas,

resultado da sensação de injustiça e traição que se mantém até hoje.

 

 Esse sentimento agora foi agravado pela nota grosseira e ofensiva divulgada

pelas Forças Armadas em defesa de suas ações durante o regime. A tímida

retratação que se seguiu não foi suficiente para compensar a dor e a

consternação causadas. Ressalta, porém, a urgência e a necessidade de que

os familiares e o público sejam informados sobre os terríveis crimes

cometidos pelas autoridades naquela época, bem como de que o Estado

brasileiro assegure que ninguém que tenha sido responsável ou que expresse

publicamente seu apoio a esses crimes continue a ocupar algum cargo

público.

 

Quase vinte anos após o término do regime militar no Brasil, as famílias

dos que foram mortos ou "desaparecidos" pelo governo da época continuam a

ter negado o acesso a informações sobre o destino de seus parentes. Além

disso, informações recentes de que estas fotografias são parte de um acervo

muito maior de arquivos do regime militar parecem contradizer a insistência

com que o governo e os militares afirmam que a maior parte das informações

relevantes foi destruída. Essas informações devem ser investigadas

imediatamente e de maneira transparente para assegurar que todos os

documentos existentes sejam totalmente protegidos de quaisquer tentativas

de destruí-los e que as famílias das vítimas tenham pleno acesso a eles.

 

Na verdade, a Anistia Internacional está extremamente preocupada com os

constantes empecilhos que vem sendo colocados por sucessivos governos,

inclusive o atual, para que seja concedido acesso público aos arquivos ou a

outras informações sobre violações dos direitos humanos ocorridas naquele

período. Entre esses obstáculos incluem-se a publicação do Decreto Nº

4.553, que estende o período de sigilo para documentos do Estado; a recente

decisão da Advocacia Geral da União de apelar contra uma decisão do Supremo

Tribunal de Justica que ordenava à União que investigasse e apresentasse

suas conclusões sobre os "desaparecimentos" ocorridos no Araguaia, uma

região em que as forças militares se engajaram em operações de

contra-insurgência contra uma pequena força guerrilheira no início da

década de 70; e o estabelecimento de uma Comissão Interministerial para

investigar a localização dos restos mortais dos "desaparecidos" no

Araguaia, a qual não contava com a participação da sociedade civil ou dos

familiares das vítimas.

 

Como podemos perceber em outros lugares do mundo, justiça e reconciliação,

bem como reparação plena, somente sobrevirão com a verdade. Longe de criar

as "condições para a construção de um novo Brasil, em ambiente de paz e

segurança", como expresso na declaração do Exército recentemente divulgada

pela imprensa, o regime de 1964 criou um precedente, até hoje praticado

pelas forças de segurança, de tortura, repressão e impunidade.

 

É urgente que o governo assuma agora a posição de assegurar que todos os

impedimentos legais e políticos para informar a verdade às famílias sejam

imediatamente removidos, de modo a permitir que tanto indivíduos quanto o

país como um todo possam superar esses fatos do passado, usufruir da

justiça que por tanto tempo lhes foi negada e superar os crimes do

presente.

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