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Enviada em: sexta-feira, 22 de outubro de 2004 14:28
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Assunto: OPINIÃO GAJOP 22/10/04
JUSTIÇA PARA TODOS
JAYME
BENVENUTO LIMA JÚNIOR
Há cerca de um ano, a Relatora Especial das
Nações Unidas para as Execuções Sumárias, Arbitrárias os Extrajudiciais, Asma
Jahangir, saiu do Brasil em meio ao mal-estar causado por sua proposta de que o país
fosse visitado pelo Relator das Nações Unidas sobre a Independência dos Juízes e
Advogados, tais eram os indícios de comprometimento do Poder Judiciário no tocante ao
mandato da relatora. Os setores mais conservadores do Judiciário viam como inadmissível
o que chamavam de intromissão em assuntos internos. Finalmente o Relator
Especial das Nações Unidas, Leandro Despouy, encontra-se no Brasil desde o dia 13 e só
deve retornar para Genebra, no dia 25 de outubro. Ele está cumprindo uma agenda que
inclui contatos com entidades públicas e organizações não governamentais nos estados
de São Paulo, Pernambuco, Pará e Rio Grande do Sul, além de Brasília.
Na audiência realizada esta semana no
Recife, reunindo dezenas de entidades de direitos humanos e estatais do Nordeste
brasileiro, Despouy recebeu um relatório organizado pelo programa dhInternacional
(desenvolvido em parceria entre o Movimento Nacional de Direitos Humanos Regional
Nordeste e o GAJOP) constante de 46 casos sistematizados por 18 entidades parceiras de
oito estados brasileiros.
Por ocasião da visita ao Recife, o relator
atribuiu à situação penitenciária, ao sistema de garantia dos direitos para crianças
e adolescentes e à questão agrária os grandes desafios relacionados ao Poder
Judiciário brasileiro, indicando a linha que deverá orientar o seu relatório, a ser
lançado no início de 2005. As situações relatadas pelos grupos locais entre os
quais as diversas entidades de direitos humanos filiadas ao MNDH/NE, os Observatórios do
Judiciário do Ceará e do Rio Grande do Norte e o Fórum de Controle Externo do
Judiciário da Paraíba - relacionam-se tanto a casos em que membros do Poder Judiciário
são acusados da prática de ações incompatíveis com a sua missão constitucional
(morosidade, corrupção, desvio de recursos, nepotismo, abuso sexual, homicídio), como
aquelas em que os membros do Judiciário têm sua capacidade de intervenção diminuída
por fatores alheios a sua vontade (perseguição, ausência de critérios para promoção,
remoções indevidas, falta de estrutura para o trabalho).
O que mais preocupa nas duas situações é que os principais sujeitos da administração da Justiça não venham sendo capazes de desempenhar plenamente a missão de realizar sua função. Para Despouy, deve haver uma ligação direta entre a independência dos juízes, a consolidação da democracia, o desenvolvimento do Estado e a proteção dos direitos humanos, diante do que ele salienta que em qualquer sociedade democrática, os juízes são os guardiões dos direitos e liberdades fundamentais. Os juízes e as cortes assumem a proteção judicial dos direitos humanos, em conformidade com seu último relatório.
Para
as entidades brasileiras de direitos humanos, a visita
do relator das Nações Unidas tem a importância de contribuir para o avanço do país na
adoção de medidas tendentes a democratizar o Poder Judiciário, no contexto de uma
reforma que ainda é parcial. Por essa razão, os diversos grupos locais estão ansiosos
para que Despouy elabore seu relatório conclusivo, a ser lançado no início de 2005, que
se converterá em importante instrumento de luta no diálogo diário com os organismos
estatais em torno das mudanças pretendidas. Afinal, é preciso que o mundo jurídico, em
particular a magistratura, se aproxime mais e mais da realidade social brasileira, de modo
a reexaminar sua capacidade de resolução de conflitos, particularmente aqueles com
dimensões de inclusão social e respeito aos direitos humanos. Pois para todos deve
servir a Justiça.
Jayme Benvenuto Lima Jr. é advogado e jornalista, coordena o Programa dhINTERNACIONAL, do GAJOP e do Movimento Nacional de Direitos Humanos Regional Nordeste; e é professor de Direito Internacional Público.
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