Uma resposta ao artigo Gostaria de ser índio....
Diferentes sim, mas não desiguais!
Azelene Kaingáng*
Se o comum e desprotegido mortal que escreveu o artigo na edição do Jornal do
Brasil do dia 07/10/2004, fosse um índio, e não um privilegiadíssimo brasileiro que teve o privilégio de formar-se advogado, talvez
não estivesse por aí fazendo essas afirmações que beiram a irresponsabilidade, porque
os poucos 410 mil índios brasileiríssimos, são sobreviventes de uma história de
extermínio, de massacres, de chacinas e toda a sorte de discriminação e preconceito de
que um Povo pode ser vítima. Como diz o comum talvez nosso exterminador
também não tenha sido tão hábil e por isso ainda estamos aqui... Teimosamente vivendo
num País que em pleno século XXI, ainda abriga pensamentos e conceitos tão retrógrados
sobre a diferença, explicitando a intolerância que sempre caracterizou as relações de
uma minoria esmagadora deste país que detém o poder econômico e político, em
detrimento de uma maioria de diferentes.
Realmente o Brasil é feito de muitos Brasis,
porque cada seguimento sonha com um País que o acolha, os quilombolas, os indígenas, os
afrodescendentes, os homossexuais...todos querem o seu Brasil e é natural que não se
sintam incluídos num País onde uma minoria, que sempre sustentou o mito da democracia racial, tem muito e uma
grande maioria não tem nada! Somos apenas 410 mil, graças a uma errônea política de
extermínio adotada durante séculos e que matou milhões de nós em apenas cinco
séculos.
É natural que o Brasil dos homens bons, de
homens e mulheres nobres que aprovaram uma Constituição que tenta minimamente reparar
toda a desgraça histórica sofrida pelos Povos Indígenas, sejam hoje questionados e
acusados de errados e equivocados aos olhos do poder, da ganância e da intolerância.
Somos diferentes sim! Falamos mais de 180
línguas diferentes, é mais do que justo que o Estado que nos submeteu aos horrores do
extermínio, assuma a responsabilidade de proteger o que ainda restam das nossas culturas,
crenças, tradições e as terras das quais usufruímos. Temos
12% do território nacional emprestados
porque nenhum Povo Indígena detém o título das terras que usufrui, foi o que nos restou
dos saques que cometeram contra nossos antepassados, 12% que são bens da União, por isso
cabe a ela proteger e, por isso quem autoriza o acesso a essas terras é somente o Órgão
Federal Indigenísta, FUNAI Fundação nacional do Índio, que é o Órgão do
Governo responsável pela política indigenísta no país e se há algo errado nisso, não
queremos ser responsabilizados.
Esses privilegiados Senhores,
como diz o autor do artigo, outrora donos desse País, são os grandes responsáveis por
ainda haverem muitas riquezas nas terras a eles emprestadas, porque respeitam, porque
preservam, porque cuidam e jamais permitirão, e um exemplo disso é a luta do povo
Indígena Ashaninka do Acre na proteção da integridade territorial e da soberania do
País na fronteira com o Peru, que alguém faça algum tipo de intervenção estrangeira
nas terras que ocupam.
É equivocado e injusto querer
condicionar a consolidação da democracia e da soberania nacional à supressão dos
direitos dos Povos Indígenas, especialmente os direitos territoriais. A faixa de
fronteira não é composta somente por terras indígenas, mas por aproximadamente 580
municípios e mais de 10 milhões de brasileiros que vivem nessa área, sem contar os
grandes empreendimentos como a Itaipu Binacional, cidades como Foz do Iguaçu que é um
importante pólo turístico do nosso país e tantos outros. Está mais do que na hora de
desmistificarmos o conceito de soberania, como se fosse apenas uma questão de fronteira
física, é mais que isso é uma fronteira social a maior ameaça a soberania do nosso
país, é a exclusão, a falta de políticas de gestão e de desenvolvimento sustentável
para os Povos Indígenas, para os ribeirinhos, para os seringueiros e tantas outras
populações que hoje não tem o mínimo benefício do Estado e que estão a mercê de
qualquer um, estrangeiro ou não, de alguém que nos confins da Amazônia, onde o Estado
não chega, tem condições de alcançar um remédio ou um prato de comida para um
brasileiro e que este não quer saber de onde vem, apenas que recebeu...o tráfico de
drogas, de armas, as interferências do FMI na nossa economia, no nosso País, nas nossas vidas, nas nossas casas...nós estamos a
mercê dos estrangeiros faz muito tempo e não foram os Povos Indígenas quem permitiram.
Necessitamos sim, da proteção do Estado Brasileiro aos nossos conhecimentos
tradicionais, em especial os associados aos componentes da biodiversidade, necessitamos de
um sistema sui generis para essa proteção, porque as leis que estão aí
não foram feitas para proteger direitos de diferentes...
Como podemos ser acusados de
ameaçar a soberania, quando 64% das famílias indígenas que estão em suas terras
tradicionais, tem renda inferior a 1/4 de salário mínimo, se 2/3 da população
indígena vive em situação de pobreza extrema...e quando passamos fome, tanto que a causa de morte por doenças associadas a desnutrição e a
fome chega a 45% nos menores de um ano e a 75,8% nos menores de cinco anos, esse sim é um
caso de ameaça a soberania nacional, quando o Estado não consegue garantir aos seus
nacionais, condições mínimas de sobrevivência.
É lamentável que sejamos vistos como
privilegiados diante do quadro que nos afeta. O resultado final é que ser indígena nesse
País significa uma alta probabilidade de se encontrar em situação de pobreza extrema.
Os resultados das últimas pesquisas mostram que
as populações indígenas estão entre os mais pobres entre os pobres desse País.
*Socióloga
Membro do Conselho Nacional de
Combate a Discriminação CNCD
Presidente do Warã Instituto Indígena Brasileiro