-----Mensagem original-----
De: Patricia Audi [mailto:audi@oitbrasil.org.br]
Enviada em: segunda-feira, 11 de outubro de 2004 12:14
Para: cpereira@ime.usp.br
Assunto: A vitória da impunidade em Unaí - Jornal do Brasil - 10/ 11/
2004 - Augusto Nunes
A vitória da impunidade em Unaí
Jornal do Brasil - 10/ 11/ 2004 - Augusto Nunes
Ancorada há quase 30 anos no município de Unaí, Minas Gerais, a família Mânica vem cintilando com brilho crescente no universo que jornais do interior qualificam de "melhor sociedade local". São oito irmãos, todos grandes fazendeiros. Lidera-os o mano Norberto, mais conhecido como "o rei do feijão".
De maneiras rudes e linguagem tosca, Norberto comanda o clã com a energia de antigos monarcas. Os Mânica hoje têm muita terra, muito dinheiro, muita força. Não podiam prescindir da influência eleitoral indispensável a famílias decididas a mandar no Brasil. Norberto resolveu que o braço político seria o irmão Antério, agora com 49 anos. E o escalou para assumir o cargo de prefeito.
O plano enfrentaria imprevistos, tropeços e sobressaltos. A mais pontiaguda das pedras no caminho irrompeu com a chegada à região, ainda em 2003, de fiscais do Ministério do Trabalho dispostos a revogar a histórica indulgência reservada aos fazendeiros do lugar.
Punidos com multas e sanções, como ocorre nas nações civilizadas com criminosos crônicos, os Mânica e seus comparsas decidiram replicar ao desafio. Numa reunião presidida por Norberto, expediu-se a sentença de morte. Em janeiro, quatro fiscais foram assassinados.
Investigações da Polícia Federal desvendaram pormenores da trama homicida. Na noite da execução, os assassinos utilizaram um carro pertencente a Antério, que participara da reunião dos mandantes. Àquela altura, o político da família já figurava entre os concorrentes à prefeitura. Fora lançado pelo partido do governador Aécio Neves, o PSDB. Era um candidato em campanha.
E candidato continuou, mesmo depois da prisão em setembro, que se seguiu à captura do rei Norberto. Além do apoio do partido do governador, conseguiu a adesão ostensiva do vice-presidente da República, José Alencar. Mineiro fiel aos aliados, Alencar presenteou o suspeito com os votos dos amigos do PFL e, mais grave ainda, uma declaração formal de apreço.
Tamanha demonstração de força, protagonizada pelo homem recolhido à cadeia de Contagem, parece ter causado forte impressão entre os eleitores da cidade fundada em 1943, a 165 quilômetros de Brasília e 350 quilômetros de Belo Horizonte. Hoje, com quase 70 mil habitantes, Unaí abriga 46.163 portadores de títulos de eleitor. Se tanto o partido de Aécio quanto José Alencar em pessoa queriam Antério no cargo, por que contrariar os figurões?
A bordo da vontade popular - 72% dos votos -, Antério acaba de deixar a cadeia. Com cara de vítima e pose de príncipe, convalesce das festas pela vitória enquanto prepara a cerimônia de posse. Espera que, até lá, em Brasília o irmão Norberto saia da gaiola. Merece comandar uma Secretaria de Segurança.
A vitória da impunidade em Unaí - Jornal do Brasil - 10/ 11/ 2004 - Augusto Nunes
Patricia Audi
Coordenadora Nacional
Projeto de Combate ao Trabalho Forçado
OIT Brasil
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