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Anistia Internacional
Informe anual 2004 - BRASIL
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
Chefe de Estado e de Governo: Luiz Inácio Lula da Silva (em substituição a Fernando
Henrique Cardoso, em janeiro)
Pena de morte: Abolicionista para crimes comuns
Convenção da ONU sobre as Mulheres: ratificada com reservas
Protocolo Facultativo à Convenção da ONU sobre as Mulheres: ratificada
O governo federal propôs uma nova política
nacional para a segurança pública, que estabeleceu parâmetros para os governos
estaduais no que diz respeito ao policiamento e aos direitos humanos. Contudo, as medidas
de segurança adotadas pelos governos estaduais para combater os elevados níveis de
criminalidade urbana continuaram a resultar num aumento das violações de direitos
humanos. Milhares de pessoas, predominantemente homens jovens, pobres, negros ou pardos,
foram mortos em confrontos com a polícia, frequentemente em situações oficialmente
descritas como resistência seguida de morte. Poucas ou mesmo nenhuma destas
mortes foram investigadas. Policiais também foram mortos em serviço, especialmente em
São Paulo, onde vários postos policiais foram atacados. Esquadrões da morte,
envolvidos em limpeza social e no crime organizado, estiveram, segundo
informações, ativos na maioria dos 26 estados do país. As autoridades tomaram
conhecimento do contínuo aumento da pratica da tortura que a tortura continuava a ser
amplamente praticada por parte de agentes da lei mas isso não foi o suficiente para
reverter este quadro. Trabalhadores rurais sem-terra e indígenas continuaram a sofrer
ataques e o número de mortos em consequência de sua luta pelo direito à terra aumentou.
Ativistas sem-terra foram detidos sob acusações que, ao que parece, foram motivadas
politicamente. Em resposta aos ataques contra os defensores dos direitos humanos, o
governo federal designou uma comissão para a elaboração de um plano nacional para a
proteção desses ativistas. Apesar de diversos julgamentos importantes terem sido
realizados, alguns culminando em condenações de responsáveis por violações de
direitos humanos, a maioria dos violadores continuaram a gozar de uma crescente
impunidade.
Informações Gerais
Em janeiro, o recém-eleito governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o primeiro
governo brasileiro do Partidos dos Trabalhadores (PT), tomou posse. Apesar de ter feito
diversas propostas para o investimento social, em particular para combater a fome, as
pressões econômicas levaram-no a adotar uma rigorosa política fiscal que limita os
gastos sociais, enquanto os planos de reformas políticas dominam sua agenda no Congresso.
No plano internacional, o governo manifestou-se firmemente a favor do multilateralismo, do
Estado de Direito e dos direitos humanos internacionais, num momento em que tais questões
estavam sob forte ameaça. Por exemplo, o Brasil recusou-se a assinar um acordo ilegal de
impunidade com os EUA para o Tribunal Penal Internacional. Entretanto, o processo de
adequação das leis brasileiras às exigências do Estatuto de Roma do Tribunal Penal
Internacional ainda se encontrava em revisão.
Na conferência da Organização Mundial do Comércio em Cancun, no México, em setembro,
o Brasil constituiu uma das principais forças na articulação de um bloco de nações
que pretendia desafiar as tradicionais potencias econômicas dos EUA e da União
Européia.
Em novembro, o Presidente Lula assegurou à Secretária-Geral da AI que apoiaria a
campanha mundial para a introdução de um Tratado Internacional para o Comercio de Armas.
A AI também considera o estatuto do desarmamento editado pelo governo para
controlar a posse e venda de armas de pequeno porte como um primeiro passo no combate à
violência.
Assassinatos cometidos pela polícia, execuções extrajudiciais e esquadrões da
morte
Elevados níveis de violência urbana e de crime continuaram a gerar na opinião pública
o clamor por um policiamento mais severo e por mais medidas punitivas judiciais. O governo
federal delineou um plano de longo prazo para a reforma da segurança pública, que inclui
a implementação de princípios de direitos humanos, no seu Sistema Único de Segurança
Pública (SUSP), a ser adotado por todos os governos dos estados. Contudo, alguns governos
estaduais, como os de São Paulo e Rio de Janeiro, continuaram a defender o uso de
métodos policiais repressivos. Ambos os estados registraram aumentos dramáticos no
número de civis mortos em conflitos com a polícia. De acordo com números oficiais, a
polícia matou 915 pessoas em São Paulo, um aumento de 11% com relação ao ano anterior.
No Rio de Janeiro, entre janeiro e novembro, as forças policiais do estado mataram 1.124
pessoas, um crescimento de 34%. Ambos os governos estaduais informaram à AI que o aumento
no número de mortos fora o resultado de medidas de policiamento mais fortes. Contudo,
muitas destas mortes ocorreram em situações que apontavam para o uso excessivo da força
ou execuções extrajudiciais. As mortes raramente foram investigadas, pois geralmente
foram registradas como resistência seguida de morte. Em São Paulo, numerosos
postos policiais foram atacados, segundo informações, por bandos criminosos, resultando
na morte de muitos policiais.
* No dia 16 de abril, quatro jovens desarmados foram mortos a tiros na comunidade do
Borel, no Rio de Janeiro, durante uma operação realizada pela polícia militar. As
circunstâncias exatas das mortes não são claras, mas provas de medicina legal e
testemunhais indicavam que os homens haviam sido executados sumariamente. Uma
investigação civil só começou dois meses depois de ocorridas as mortes, após
manifestações de membros da comunidade e de pressões do governo federal. Cinco
policiais militares foram acusados das mortes e suspensos de suas funções. Contudo, a AI
manteve inúmeras ressalvas com relação à investigação.
Esquadrões da morte, apoiados pela polícia ou por ex-policiais, teriam sido
responsáveis por atos de limpeza social e envolvimento com crime organizado.
Em setembro, durante uma visita ao Brasil, o governo federal disse à Relatora Especial
das Nações Unidas sobre execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias, Asma
Jahangir, que os esquadrões da morte estavam ativos em 15 dos 26 estados
brasileiros. A dificuldade em oferecer proteção às testemunhas, o que é necessário
para assegurar que corram processos judiciais, tornou-se evidente após o assassinato de
duas testemunhas que haviam prestado depoimento a Asma Jahangir, nos Estados da Bahia e da
Paraíba. No Estado de São Paulo foi denunciada, por membros da sociedade civil, pela
Comissão Estadual de Direitos Humanos e pelo Ouvidor de Polícia, a existência de esquadrões
da morte nas cidades de Guarulhos e Ribeirão Preto, que seriam responsáveis pela
morte de muitos jovens, em circunstâncias que sugerem execuções extrajudiciais. Em 16
de Abril, um policial militar de Guarulhos declarou na TV Globo que esteve envolvido na
morte de cerca de 115 pessoas e que 90% das alegadas troca de tiros eram
encenações da policia para esconder as execuções.
Foram realizados vários julgamentos dos massacres da Candelária e de Vigário Geral,
ocorridos em 1993 e nos quais 21 moradores de favelas e oito crianças que viviam na rua
foram mortas pelos esquadrões da morte da polícia militar. Em fevereiro, um
policial foi condenado a 300 anos de prisão pelo massacre da Candelária, e outro, em
setembro, a 59 anos de prisão por participação no massacre de Vigário Geral. Dezoito
policiais, ouvidos em duas audiências separadas, foram absolvidos de sua participação
no massacre de Vigário Geral. O Ministério Público recorreu de nove das absolvições.
Segundo informações, de um total de, pelo menos, 40 pessoas envolvidas no massacre de
Vigário Geral, apenas duas estão presas.
Foram feitas investigações importantes sobre corrupção e assassinatos cometidos por
policiais.
* Em novembro, a Policia Federal em São Paulo instaurou inquérito contra dois delegados
de polícia e um juiz federal por envolvimento no crime organizado e na venda de
sentenças judiciais. As acusações foram vistas como um passo importante na luta contra
a corrupção no sistema de justiça criminal, que há muito contribui para a impunidade
que se verifica com relação ao crime organizado e às violações de direitos humanos.
* No dia 4 de dezembro, o Ministério Público do Estado de São Paulo anunciou a
acusação de 53 membros da Polícia Militar por homicídios triplamente qualificados. Em
5 de março de 2002, a Polícia Militar, principalmente membros da unidade especial GRADI
-- originalmente criada para a investigação de crimes de ódio -- foram acusados de
terem executado sumariamente 12 suspeitos de um bando criminoso na rodovia Castelinho. O
Tribunal de Justiça do Estado continuou a investigar o envolvimento do Secretário de
Segurança Pública do Estado de São Paulo e de dois juízes no mesmo caso.
Tortura e maus-tratos
A tortura continua a ser uma prática sistemática e generalizada na maioria das prisões
e delegacias de polícia, assim como também durante o processo de detenção. Depois da
morte de Chan Kim Chang, um comerciante chinês aparentemente torturado até à morte por
agentes penitenciários no Presídio Ary Franco, em agosto, no Rio de Janeiro, o Chefe de
Gabinete do Presidente Lula e o Secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de
Janeiro declararam publicamente que ainda existia tortura no Brasil. No entanto, de acordo
com relatos, o número de acusações e condenações pela Lei da Tortura, de 1997, não
aumentou significativamente. Em 26 de junho, o governo lançou uma segunda campanha contra
a tortura, envolvendo desta vez formação para promotores e juízes.
No sistema de detenção juvenil, FEBEM, de São Paulo continuaram a ser denunciados casos
de tortura, rebeliões, violência entre detentos, fugas e o uso de disputas trabalhistas
como fator desestabilizador. Em junho, delegados da AI e grupos locais de direitos humanos
visitaram a Unidade 30 do Complexo Franco da Rocha, na FEBEM. Eles documentaram dezenas de
casos de espancamentos e outras formas de tortura, que teriam sido cometidas por guardas
penitenciários. Os menores afirmaram que, em sua chegada na Unidade, foram obrigados a
correr descalços por corredores repletos de cacos de vidro. Os detentos declararam que a
tortura é cometida com total impunidade por uma minoria de guardas. As unidades 30 e 31
de Franco da Rocha foram fechadas no final do ano.
Condições de detenção e mortes sob custódia
Os detentos em delegacias de polícia, prisões e centros de detenção juvenis
continuaram a ser encarcerados em condições cruéis, desumanas e degradantes. Foram
amplamente relatados casos de superlotação, más condições sanitárias, acesso
limitado a serviços de saúde, uso persistente da tortura, rebeliões e violência entre
os próprios presos. Pelo menos 285 mil presos encontravam-se detidos num sistema
prisional construído para acomodar 180 mil.
A AI continuou a manifestar a sua preocupação com relação ao Regime Disciplinar
Diferenciado, uma proposta de medida disciplinar que permite que presos de alta
periculosidade sejam confinados em um regime de incomunicabilidade, popularmente conhecido
como solitária, durante períodos até um ano nas penitenciárias de
segurança máxima. O Congresso aprovou formalmente a proposta, que entretanto também foi
amplamente condenada por ser considerada inconstitucional e uma violação dos direitos
humanos fundamentais.
Na delegacia de roubos e furtos de Belo Horizonte, mais de 20 detentos foram mortos por
outros internos durante o ano. Cerca de 530 detentos foram encarcerados em 22 celas com
capacidade para abrigar, no máximo, 67 pessoas. Membros do Ministério Público
declararam à AI que continuaram a receber queixas dos detentos sobre tortura cometida
naquela e em outras delegacias de polícia da cidade.
Defensores de direitos humanos
Os defensores dos direitos humanos, classificados por certas autoridades _ e jornalistas
como defensores de bandidos, enfrentaram continuas ameaças às suas vidas. Em
junho, o Secretaria Especial da Presidência para os Direitos Humanos designou uma
comissão, composta por autoridades federais e estaduais, bem como por integrantes da
sociedade civil, para elaborar um plano nacional de proteção para os defensores dos
direitos humanos.
No Espírito Santo, a missão especial designada pelo governo federal para
investigar o crime organizado e os esquadrões da morte no estado efetuou
diversas prisões de personalidades importantes, incluindo o ex-presidente da Assembléia
Legislativa Estadual e um coronel reformado da Polícia Militar. Um juiz envolvido no
caso, Alexandre Martins, foi assassinado por um atirador profissional no mês de março. O
Secretário de Segurança Pública do Estado do Espírito Santo declarou acreditar que a
morte estava ligada à prisão do coronel da Polícia Militar reformado.
Violência contra os povos indígenas
Houve uma escalada nas mortes, intimidações e perseguições das populações
indígenas. Em outubro, 23 líderes indígenas foram assassinados. O processo de
demarcação de territórios indígenas foi interrompido em muitas áreas sendo que,
segundo relatos, em algumas delas a interrupção se deveu a negociatas políticas,
resultando num aumento dramático da tensão nessas regiões. Líderes indígenas foram
criminalizados em virtude de suas atividades políticas e os ataques contra eles foram
freqüentemente negados pelas autoridades e classificados como resultado de disputas
tribais. O Ministro da Justiça afirmou à AI que todas as mortes de indígenas durante o
ano se deveram a conflitos internos das aldeias.
*Em 7 de fevereiro, em Pesqueira, Estado de Pernambuco, o cacique da tribo Xucuru, Marcos
Luidson de Araújo, e o seu sobrinho de 12 anos, escaparam a uma aparente emboscada, na
qual dois outros indígenas, Adenílson Barbosa da Silva e Joséilton José dos Santos,
foram mortos. Em outubro de 2002, a Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos
determinou ao Governo Brasileiro que protegesse o cacique Marcos Luidson, o que não
aconteceu. Um homem foi acusado de estar envolvido no ataque. De acordo com relatos, a
Polícia Federal, encarregada da investigação do atentado, tentou repetidamente acusar a
vítima, Marcos Luidson, de tê-lo provocado. Uma área de 27 mil hectares, demarcada a
favor da tribo Xucuru em 1992, tem sido disputada por latifundiários desde então e,
após 1998, duas lideranças da tribo Xucuru já foram assassinadas.
Violência e conflito pela terra
Violência, ameaças, intimidação e perseguição política de ativistas rurais
continuam a ser endêmicos. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, 53 ativistas
rurais foram mortos entre janeiro e setembro. Somente cinco pessoas foram presas como
consequência das 976 mortes ocorridas entre 1985 e 1996. A região que registrou maior
incidência de violência relacionada a conflitos rurais foi, mais uma vez, o sul do
Estado do Pará, uma área atingida por trabalho escravo, tráfico de drogas e conflitos
agrários. Até setembro, 31 mortes haviam sido registradas no Pará, a maioria no sul do
Estado.
* Em 12 de setembro, sete trabalhadores rurais e um agricultor foram mortos por homens
armados, em São Felix do Xingu, um dia depois de terem sido ameaçados por seguranças de
um proprietário local, com quem os trabalhadores disputavam os direitos sobre a terra.
* Em 4 de agosto, no Estado do Paraná, Francisco Nascimento de Souza, uma liderança do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), foi encontrado morto a tiros na cidade
de Mariluz. O nome de Francisco Nascimento constava de uma lista de morte que
indicava 7 lideranças do MST que deveriam ser assassinadas no Estado do Paraná.
Os sem-terra foram presos sob acusações que aparentavam ser politicamente motivadas. No
Pontal do Paranapanema, em São Paulo, o dirigente nacional do MST, José Rainha Junior,
foi condenado a dois anos e oito meses de prisão por porte ilegal de arma. O Secretário
Especial para os Direitos Humanos do governo federal teria descrito a sentença como sendo
absurda. Em novembro, o Supremo Tribunal Federal acatou o pedido de habeas corpus de José
Rainha Junior e ele foi libertado, enquanto aguarda o julgamento do recurso. De acordo com
relatos, um juiz na região emitiu 11 mandados de prisão contra 40 integrantes do MST,
entre setembro de 2002 e setembro de 2003. Os mandados, todos eles anulados,
caracterizavam a organização como bando criminoso, uma descrição condenada, entre
outros, pela AI.
Defensores dos direitos humanos no nordeste relataram que oito trabalhadores rurais,
presos no Estado do Paraíba, também foram detidos aparentemente por acusações
politicamente motivadas e torturados durante a detenção.
As condenações, em dois casos separados, dos responsáveis por encomendar a morte de
ativistas sem-terra, foram uma importante vitória na luta contra a impunidade. Em 25 de
maio, no Estado do Pará, Vantuir Gonçalves de Paula e Adilson Carvalho Laranjeira, um
ex-prefeito, foram condenados a 19 anos e 10 meses de prisão por mandar assassinar o
sindicalista João Canuto, em Rio Maria, em 1985. No Estado do Maranhão, o proprietário
rural Osmar Teodoro da Silva, foi condenado a 19 anos de prisão, por ter mandado
assassinar o padre e agente da Comissão Pastoral da Terra, Josimo Moraes Tavares, morto
por um atirador em 1986.
Relatórios/Visitas da AI
Relatórios
Brasil: Rio de Janeiro 2003: Candelária e Vigário Geral 10 anos depois (Índice AI: AMR:
19/015/2003)
Visitas
Delegados da AI visitaram o Brasil em março e junho de 2003 para realizar pesquisas. Em
novembro, a Secretária-Geral e delegados conheceram o Presidente e outros membros do
governo, assim como os governadores do Rio de Janeiro e de São Paulo, integrantes da
sociedade civil e vítimas de violações de direitos humanos. Um delegado da AI assistiu
ao julgamento de Vantuir Gonçalves de Paula e de Adilson Carvalho Laranjeira, em maio.