CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Sessão: 334.3.55.O Hora: 15h46 Fase: BC
  Data: 07/11/2017

Sumário

Texto de autoria do orador publicado no Blog no Noblat, relativo às lições da Revolução Russa no decorrer dos 100 anos de história.

O SR. CHICO ALENCAR (PSOL-RJ. Sem revisão do orador.) - Obrigado, Presidente Carlos Manato.
Quero deixar registrado nos Anais da Casa um texto de minha autoria, publicado hoje no Blog do Noblat, sobre o dia 7 de novembro, o Centenário da Revolução Russa, movimento que incendiou o mundo.
Foi, de fato, uma tomada de poder que modificou a relação de classes e aquele tipo de sociedade. Cristalizou o fim da Dinastia Romanov, opressiva. Depois, ao longo do século XX, também mergulhou em muitos desvios e equívocos. Em muitos aspectos, foi uma espécie de contrarrevolução estalinista.
Assim como qualquer evento histórico, é preciso que nos debrucemos sobre ele para aprendermos a como caminhar na utopia necessária de uma sociedade igualitária, justa, radicalmente democrática e fraterna, da qual o Brasil infelizmente ainda está muito distante.
Fica aqui o registro.
Muito obrigado.

PRONUNCIAMENTO ENCAMINHADO PELO ORADOR

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados e todos que assistem a esta sessão ou nela trabalham, apresento, para os Anais da Câmara, artigo meu publicado hoje, dia 7 de novembro, no Blog do Noblat. Trata das lições que a Revolução Russa nos deu ao longo desses 100 anos de história, lições tanto positivas quanto negativas.
ARTIGO A QUE SE REFERE O ORADOR

Nós, que amamos tanto a revolução.
Minha geração foi contemporânea de duas revoluções: a Chinesa e a Cubana. A centenária Revolução Russa, de 1917, as inspirou. Ali, os 300 anos do domínio czarista dos Romanov foram derrotados por operários(as), camponeses(as) e soldados mobilizados por "paz, pão e terra". A multidão de anônimos, organizada em torno de um projeto, podia transformar a sociedade injusta.
A compreensão da História revela a chama que incendiou mudanças e aponta erros que não devemos repetir. Um olhar meramente laudatório sobre a Revolução Russa será ineficaz. Passado o período extraordinário da tomada do poder, a Revolução viveu o ordinário de sua realização concreta, ao longo do século XX. Por isso, nestes tempos em que a esquerda precisa se reinventar, é imprescindível pontuar os muitos fatores em que o "socialismo real" negou seus arrebatadores impulsos originários.
Estatização não significa, necessariamente, controle popular e democratização da gestão. O aparato do Estado soviético gerou pesada dominação burocrática. O partido único - expressão, em tese, da vontade majoritária do proletariado - criou uma casta privilegiada, com seu mando vertical e suas "dachas". As diferentes nacionalidades e religiosidades daqueles povos, existentes no imenso território da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, então com 22.402.200km², foram desrespeitadas, abafadas, reprimidas. A prolongada guerra civil entre "vermelhos" e "brancos" provocou uma militarização do regime, o que foi amortecendo o dinamismo dos sovietes (conselhos populares) e reconstituindo uma hierarquização que engessou a então chamada - nos anos inaugurais - "sociedade mais livre do mundo".
Tudo isso deu curso ao stalinismo, que, para consolidar "a revolução em um só país", acossada pelo imperialismo capitalista, levou à morte 680 mil pessoas no final da década de 1930 - entre os quais muitos revolucionários autênticos, que ousaram divergir dos "guias geniais dos povos". Ainda reverbera a denúncia de Vladimir Maiakovski: "ao Comitê Central do futuro ofuscante, sobre a malta dos poetas velhacos e falsários, apresento em lugar do registro partidário todos os cem tomos de meus livros militantes".
O capitalismo hegemônico no mundo, em sua etapa de financeirização, continua sendo reprodutor da desigualdade. Mas o socialismo a ser reinventado, sem negar as virtudes das experiências revolucionárias para sua implementação, tem que incorporar novos valores e se inserir nas exigências do século XXI: há de ser democrático, ecológico e libertário.
Urge conceber um novo Estado, transparente, poroso às demandas populares. Que, como diz Álvaro Linera, vice-presidente da República plurinacional da Bolívia, "orquestre o modo como concebemos aquilo que nos vincula aos outros, como educação, estradas, comércio, saúde e concepção de vida em coletividade".
O planeta Terra faz uma revolução permanente, em torno de si mesmo e do Sol. Se não nos revolucionarmos, ficaremos tontos e andaremos para trás.



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