CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Sessão: 333.3.55.O Hora: 20h12 Fase: OD
  Data: 06/11/2017

Sumário

Texto do escritor Mia Couto em agraciamento como Doutor Honoris Causa pela Universidade Politécnica de Maputo, Moçambique, sobre importância de transmissão de valores morais aos jovens.

O SR. CHICO ALENCAR (PSOL-RJ. Pela ordem. Sem revisão do orador.) - Bom, sou eu, Presidente. Obrigado, até porque estou inscrito há duas horas e meia.
Ontem se realizou, como todos sabemos, o Exame Nacional do Ensino Médio, envolvendo 4 milhões e 300 mil estudantes, sobretudo jovens, com uma abstenção que foi recorde nos últimos 8 anos, o que é preocupante.
De qualquer forma, por falar em educação, algo fundamental para o País sair das sombras em que se encontra, eu quero registrar aqui na Casa um texto magistral de um coirmão, o escritor Mia Couto, moçambicano, que, ao receber o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Politécnica de Maputo, nos disse o seguinte:
Preocupa-nos que os nossos estudantes entrem para universidade com fraco desempenho académico. Pois eu acho mais preocupante ainda que os nossos jovens cresçam sem referências morais. Estamos empenhados em assuntos como o empreendedorismo como se todos os nossos filhos estivessem destinados a serem empresários. Ocupamos em cursos de liderança como se a próxima geração fosse toda destinada a criar políticos e líderes. Não vejo muito interesse em preparar os nossos filhos em serem simplesmente boas pessoas, bons cidadãos do seu país, bons cidadãos do mundo.
Escrevi uma vez que a maior desgraça de um país pobre é que, em vez de produzir riqueza, vai produzindo ricos. Poderia hoje acrescentar que outro problema das nações pobres é que, em vez de produzirem conhecimento, produzem doutores (até eu agora já fui promovido...). Em vez de promover pesquisa, emitem diplomas. Outra desgraça de uma nação pobre é o modelo único de sucesso que vendem às novas gerações. E esse modelo está bem patente nos vídeo-clips que passam na nossa televisão: um jovem rico e de maus modos, rodeado de carros de luxo e de meninas fáceis, um jovem que pensa que é americano, um jovem que odeia os pobres porque eles lhes fazem lembrar a sua própria origem.

É preciso remar contra toda essa corrente. É preciso mostrar que vale a pena ser honesto. É preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros.
Portanto, não há mudança profunda sem a mudança do padrão cultural, sem novos valores de ética pública para qualquer sociedade. O Brasil carece muito disso.
Obrigado.
O SR. PRESIDENTE (Mauro Pereira) - Obrigado, Deputado Chico Alencar.

PRONUNCIAMENTO ENCAMINHADO PELO ORADOR

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados e todo(a)s o(a)s que assistem a esta sessão ou nela trabalham:
Apresento aqui, para os Anais da Câmara, parte do discurso de Mia Couto ao receber o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Politécnica de Maputo. O trecho, de extrema relevância para a atual situação política brasileira, expõe a necessidade de nos preocuparmos mais com a formação humana de nossos cidadãos:
Preocupa-nos que os nossos estudantes entrem para universidade com fraco desempenho académico. Pois eu acho mais preocupante ainda que os nossos jovens cresçam sem referências morais. Estamos empenhados em assuntos como o empreendedorismo como se todos os nossos filhos estivessem destinados a serem empresários. Ocupamos em cursos de liderança como se a próxima geração fosse toda destinada a criar políticos e líderes. Não vejo muito interesse em preparar os nossos filhos em serem simplesmente boas pessoas, bons cidadãos do seu país, bons cidadãos do mundo.
Escrevi uma vez que a maior desgraça de um país pobre é que, em vez de produzir riqueza, vai produzindo ricos. Poderia hoje acrescentar que outro problema das nações pobres é que, em vez de produzirem conhecimento, produzem doutores (até eu agora já fui promovido..,) . Em vez de promover pesquisa, emitem diplomas. Outra desgraça de uma nação pobre é o modelo único de sucesso que vendem às novas gerações. E esse modelo está bem patente nos vídeo-clips que passam na nossa televisão: um jovem rico e de maus modos, rodeado de carros de luxo e de meninas fáceis, um jovem que pensa que é americano, um jovem que odeia os pobres porque eles lhes fazem lembrar a sua própria origem.
É preciso remar contra toda essa corrente. É preciso mostrar que vale a pena ser honesto. É preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros.
(Mia Couto)

Agradeço a atenção.


JOVEM, EDUCAÇÃO, ÉTICA, TEMA, MIA COUTO, ESCRITOR, ANÁLISE, UNIVERSIDADE POLITÉCNICA DE MAPUTO, PRÊMIO, ANAIS DA CÂMARA DOS DEPUTADOS, REGISTRO.
oculta