CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Sessão: 282.1.54.O Hora: 16h18 Fase: GE
  Data: 11/10/2011

Sumário

Associação à luta da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro e da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, pela reconstrução e tombamento do terreiro Zélio de Moraes, no Município de São Gonçalo, Estado do Rio de Janeiro.

A SRA. ERIKA KOKAY (PT-DF. Pela ordem. Sem revisão da oradora.) - Sr. Presidente, eu venho aqui me somar aos esforços da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro e também da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - SEPPIR, ligada à Presidência da República, no sentido de questionarmos, denunciarmos e fazermos esforços para a reconstrução do terreiro Zélio de Moraes, em São Gonçalo, que, no último dia 5, foi demolido.
Ali, em 1908, há mais de 100 anos, foi fundada a umbanda, que é a demonstração de sincretismo e, fundamentalmente, de resistência, religião genuinamente brasileira.
Portanto, aquele terreiro Zélio de Moraes, não é apenas uma estrutura física, que já estava em ruínas; ele é parte do patrimônio imaterial. Nós devemos ter direito à memória. Nós devemos reconhecer a nossa africanidade. E há tantos exemplos de resistência que este Brasil vivenciou.
Isso faz com que nós tenhamos a noção exata de que não podemos mais ter reedições de casas grandes e senzalas. Demolir o terreiro, um chão onde se construiu e onde se implementou a umbanda neste País, é voltar aos ventos de casas grandes e senzalas, que este País não pode mais admitir.
Por isso, solidarizo-me com todos que têm tido esforços no Rio de Janeiro e também na SEPPIR, na perspectiva de reconstrução e tombamento daquele espaço, um terreiro que é símbolo de resistência e da nossa africanidade.
Não há brasilidade ativa e altiva se não reconhecermos a nossa africanidade.

PRONUNCIAMENTO ENCAMINHADO PELA ORADORA

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, ocupo esta tribuna hoje para denunciar a todos e a todas a demolição do terreiro Zélio de Moraes, em São Gonçalo, no Estado do Rio de Janeiro, ocorrida na quarta-feira passada. Não se trata apenas de mais um triste caso de intolerância contra as religiões de matriz africana, como de resto é comum no nosso País. Trata-se da destruição do suporte de uma parte da memória do nosso povo, pois foi ali, naquela casa antiga, que a umbanda, religião genuinamente brasileira, nasceu. Foi ali, no dia 15 de novembro de 1908, há mais de 100 anos, que o médium Zélio Fernandino de Moraes realizou o primeiro encontro de umbanda.
A umbanda é uma religião genuinamente brasileira, que surge da mescla das práticas religiosas africanas, especificamente do candomblé, com representações vindas da religiosidade do povo indígena que aqui vivia e de elementos do espiritismo kardecista e do cristianismo católico. Forjada sob o signo da repressão do Estado, a umbanda originária tinha no sincretismo entre a religiosidade africana e o culto dos santos católicos uma forma de se proteger da violenta repressão infringida aos seus praticantes. Foi só em 1945 que José Álvares Pessoa obteve deste Congresso Nacional a legalização da umbanda.
A destruição do terreiro Zélio de Moraes, que está em área de propriedade privada, representa mais que a perda de um signo material dos praticantes de umbanda. Representa a destruição de um patrimônio imaterial, de valor imensurável, dos que professam essa fé. E também de uma parte do patrimônio cultural e histórico comum a todo o povo brasileiro.
A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro, organização da sociedade civil, vinha pautando a desapropriação e a transformação daquele espaço num museu já há algum tempo, mas infelizmente a demolição ocorreu antes que a Prefeitura de São Gonçalo tomasse as providências necessárias. A casa, antes da demolição, encontrava-se em ruínas. Eu me solidarizo com Comissão de Combate à Intolerância do Rio e com todos e todas as umbandistas na necessidade de recuperação e reconstrução desse importante espaço simbólico, cultural, religioso e histórico.
Muito obrigado, Sr. Presidente.



SINCRETISMO RELIGIOSO, UMBANDA, CULTURA AFRO-BRASILEIRA, DEMOLIÇÃO, TERREIRO DE UMBADA ZÉLIO DE MORAES, MUNICÍPIO, SÃO GONÇALO, RJ, COMISSÃO DE COMBATE À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA, SECRETARIA ESPECIAL DE POLÍTICAS E PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL, RECONSTRUÇÃO.
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