CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Sessão: 240.2.52.O Hora: 15h16 Fase: PE
  Data: 09/11/2004

Sumário

Necrológio do Sr. João Bosco Murta Lages, ex-Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais. Homenagem a D. Serafim Fernandes de Araújo, Cardeal Arcebispo de Belo Horizonte.

O SR. JOSÉ SANTANA DE VASCONCELLOS (Bloco/PL-MG. Pronuncia o seguinte discurso.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, dedicamos neste momento merecida homenagem a João Bosco Murta Lages, cujo falecimento em junho deste ano nos entristeceu profundamente e nos faz lamentar a perda do amigo querido, do político consciente, do competente e ativo homem público.
Nascido em Mar de Espanha, Minas Gerais, em 26 de abril de 1937, Murta Lages amou e honrou sobremaneira sua terra natal. Foi líder estudantil, tendo exercido, a partir de 1955, as funções de secretário da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas - UBES e de presidente da União Colegial - UC de Minas Gerais. Depois de iniciar o curso de Direito na Faculdade de Uberlândia, transferiu-se para a UFMG, onde recebeu o grau de bacharel. Casou-se em 13 de setembro de 1963 com Ângela Maria Paixão Lages, e dessa união nasceram os 6 filhos do casal: Maria Eugênia, Afonso Mário, Marcus Vinícius, João Marcelo, Patrícia e João Alberto.
Em 1962, quando contava 26 anos de idade, foi eleito Deputado Estadual pela UDN, e teve realmente uma importante participação na política e no progresso de Minas Gerais. Fiel à consciência democrática, opôs-se aos rumos tomados pelo movimento militar de março de 1964, tornando-se então um dos fundadores do MDB. Pela legenda oposicionista elegeu-se Deputado da Assembléia Legislativa de Minas Gerais.
Em 1968 promoveu a fundação da Faculdade de Direito do Vale do Rio Doce em Governador Valadares, a mesma cidade onde, em 1972, fundou a Faculdade de Administração.
Data de 31 de dezembro de 1980 sua filiação ao PMDB. E quando Tancredo Neves venceu a campanha para o Governo de Minas, em 1982, João Bosco Murta Lages compôs a Comissão de Transição, responsável pelo levantamento das condições em que se encontrava a administração estadual, para dar exato conhecimento ao novo governante e auxiliar na definição das políticas de governo, no estabelecimento de ações, metas e objetivos.
Eleito suplente de Senador da República em 1986, não chegou a assumir a cadeira no Senado.
Em 1988 foi nomeado conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais - TCEMG, órgão cuja presidência exerceu entre 1997 e 1999.
Além de Conselheiro da Corte de Contas de Minas Gerais e membro da Academia Mineira de Letras - AML, para a qual se elegeu em novembro de 2001, Murta Lages foi ainda técnico da Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais - CETEC, coordenador do Programa de Pedras da Fundação João Pinheiro, diretor comercial da Metais Minas Gerais - METAMIG, atual COMIG, e presidente da Fundição do Grupo Fiat - FMB S.A., entre outros cargos que exerceu em sua prolífica existência.
O Conselheiro era também curador do Espaço Cultural do TCEMG, que leva o nome de seu pai, Desembargador Affonso Teixeira Lages.
Com sua inteligência e conduta irretocável, Murta Lages concorreu para o engrandecimento das instituições das quais participou, prestando numerosas e expressivas contribuições, entre as quais cumpre mencionar o trabalho dedicado a favorecer a transparência na gestão da coisa pública, confirmando, em especial, a importância do Tribunal de Contas como instrumento da sociedade para a fiscalização das ações dos administradores públicos.
Justamente admirado pelos amigos, companheiros e familiares, João Bosco Murta Lages muito se distinguiu pelas virtudes do caráter e do intelecto, pela correção de suas atitudes, pelos constantes e efetivos préstimos às pessoas e pela valorização das áreas em que atuou. Por essas razões, sua memória há de ser permanentemente exaltada. Lembraremos sempre o homem sereno, pronto para servir ao próximo, bondoso, simples, leal, digno, pois, de todas as homenagens de apreço e saudade que tem recebido e continuará a receber.
Dirigimos, pois, especialmente à família, à esposa, Angela Maria Paixão Lages, e aos filhos a expressão de gratidão e de reconhecimento diante da excelência do exemplo de vida de João Bosco Murta Lages. Conforme Demócrito, "o caráter de um homem faz o seu destino". Assim, mais do que todas as palavras possam dizer hoje, a própria vida de Murta Lages comprova os elevados méritos do homem honrado, que nos deixa então esse legado inolvidável, o notabilíssimo exemplo de grandeza humana, sabedoria, honestidade e trabalho.
Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, ao completar 80 anos de idade, D. Serafim Fernandes de Araújo, o Cardeal Arcebispo de Belo Horizonte ora jubilado, enviou aos que o cumprimentavam uma expressiva manifestação, à qual nos permitimos referir neste momento em que, da tribuna da Câmara dos Deputados, a ele prestamos merecida homenagem.
D. Serafim inicia sua mensagem com as palavras do Magnificat, essa jóia preciosa do oratório cristão: "Minha alma engrandece o Senhor, e exulta o meu espírito em Deus, meu Salvador." E, sob a invocação de Nossa Senhora, dirige-se aos amigos fazendo breve retrospecto de seu longo e profícuo apostolado. Esse texto magistral nós tivemos o privilégio de receber, e pensando nele queremos falar sobre esse homem que, mais do que como um Príncipe da Igreja, destaca-se como grande mineiro e cidadão brasileiro dos mais ilustres.
Realmente, a citação de D. Serafim ao Magnificat tudo tem a ver com sua vida e sua obra. Trata-se de um hino de louvor a Deus cujo conteúdo mostra notável atualidade e grande afinidade com a realidade socioeconômica brasileira. Neste momento em que nos preocupamos com os excluídos, com a justiça social, com a dignidade humana e com a valorização do cidadão, a louvação de Maria ao Senhor exalta os pobres e os humildes, derruba os arrogantes e exorta os abastados e insensíveis a compartilharem suas riquezas. Acontece que o trabalho de D. Serafim, como Cardeal e como responsável pela Arquidiocese de Belo Horizonte, sempre se caracterizou pela preocupação com a ação social da Igreja, e ao brado dos excluídos nunca foi insensível. Longe de se isolar nas púrpuras do Cardinalato e no convívio dos grandes deste mundo, ele foi até o povo, e pelo povo tem sido muito amado.
Nascido nas plagas do Jequitinhonha, aquela região em que Minas se encontra com o Nordeste, fazendo de nosso Estado uma síntese da Nação brasileira, com suas imensidões e suas desigualdades, D. Serafim tem do sertanejo a força, do mineiro a inteligência, do interiorano a seriedade e do brasileiro a capacidade de nunca desistir. E se aliamos a tais qualidades a virtude ímpar, a vocação religiosa inquebrantável e a imensurável capacidade de trabalho, aí está essa personalidade admirável que tanto distingue a Igreja, e de quem tanto se orgulham seus coestaduanos.
Vamos, pois, debruçar-nos sobre alguns dados biográficos de D. Serafim Fernandes de Araújo para melhor visualizar o perfil do nosso homenageado. Nascido em Minas Novas, bela e senhorial cidade fundada no auge do ciclo do ouro e do diamante, D. Serafim vem de uma daquelas famílias tradicionais em que a mineiridade se impõe como sinônimo de tudo que é positivo. Sua infância ele passou-a em Itamarandiba, de onde partiu aos 12 anos de idade para ingressar no Seminário de Diamantina. Ali formou-se em Humanidades e depois em Filosofia, e a brilhante trajetória do estudante dedicado fez com que fosse mandado a Roma, onde completou o Mestrado em Teologia e Direito Canônico na Pontifícia Universidade Gregoriana. Sua ordenação - eis aí uma data que exige referência - ocorreu em 12 de março de 1949, na Catedral de São João de Latrão, na metrópole romana.
De volta ao Brasil, 2 anos depois celebrou sua primeira missa na Itamarandiba de sua infância, de onde partiu para assumir a Paróquia de Gouveia, onde permaneceu por 6 anos. Voltando a Diamantina, assumiu o posto de Capelão Militar do 3º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais, que acumulou com o magistério, como professor de Direito Canônico no Seminário Provincial e Diretor de Ensino Religioso da Arquidiocese. Em Curvelo, onde atuou por 2 anos como pároco e como cônego, também lecionou em várias escolas. Ordenado Bispo em 7 de maio de 1959, com apenas 34 anos - foi, na ocasião, o mais jovem Bispo do Brasil -, transferiu-se para Belo Horizonte como Auxiliar de D. João Resende Costa. Assumiu as funções de Vigário Geral, Administrador e Diretor de Ensino Religioso da Arquidiocese, além de responder pela cátedra de Cultura Religiosa na PUC de Minas Gerais, instituição da qual em 1960 foi empossado Reitor, e vem de sua gestão a extraordinária ressonância e a qualidade de ensino que essa Universidade angariou, sendo hoje considerada uma das primeiras do País.
Entre 1962 e 1965 participou do Concílio Vaticano II, e desenvolveu intensa atividade como religioso e educador, acompanhando simpósios e movimentos em todo o mundo. No Brasil, durante 3 anos, integrou o quadro do Conselho Federal de Educação.
Sua posse como Arcebispo Coadjutor de Belo Horizonte deu-se em 1983, e 3 anos depois assumiu o cargo de Arcebispo Metropolitano da Capital mineira, em sucessão a D. João Resende Costa. Nomeado Cardeal em 18 de janeiro de 1998, recebeu as credenciais cardinalícias naquele mesmo ano, das mãos do Papa João Paulo II. Jubilou-se em março de 2004, tendo sido sucedido por D. Walmor Oliveira de Azevedo à frente do Arcebispado.
O apostolado de D. Serafim em Belo Horizonte foi longo e profícuo. Como já dissemos, nunca negligenciou a ação social da Igreja, nem a orientação religiosa de seu rebanho, nem a participação efetiva e corajosa em todos os movimentos afinados com a ideologia cristã. Seu trabalho como educador igualmente dispensa comentários: está aí a PUC de Minas Gerais, obra gigantesca no campo do ensino universitário, formando e encaminhando a cada ano milhares de jovens brasileiros. E citaríamos apenas, entre as muitas obras apostólicas de nosso homenageado, o Projeto Pastoral Construir a Esperança, bem como a realização, na Capital mineira, do V Congresso Missionário Latino-Americano, no ano de 1995.
O Brasão de Armas de D. Serafim, calcado no escudo da família Fernandes, apresenta, entre outros símbolos, um gavelo de trigo com espigas de ouro. É a alusão à Eucaristia e à seara divina que nosso homenageado pregou ao longo de tantas décadas de trabalho, de bravura e de virtude. É, diremos mais, a síntese perfeita da obra de quem honrou sua Igreja, dignificou seu Estado e engrandeceu seu País.
A Igreja Católica, Apostólica e Romana tem, ao longo dos séculos, enfrentado ingentes desafios em sua tarefa de unir a humanidade em torno da doutrina cristã. Ainda hoje - e talvez mais do que nunca - o Papado de João Paulo II vê-se às voltas com polêmicas e incompreensões, com o avanço do proselitismo e com a tendência das grandes potências para a beligerância e o materialismo. Entretanto, a Igreja resiste impávida, e a História mostra-nos que, ao final, ela sempre vence em sua batalha para impor a palavra de Cristo e fazer deste um mundo de paz e prosperidade. Ora, ela conta com pastores como D. Serafim Fernandes de Araújo, que tão bem conhecemos e tanto admiramos, pelo que não nos admira conseguir o Vaticano, ao final, que se imponham o Amor, a Verdade e a Vida.
Portanto, Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, requeremos, do alto desta tribuna, que este Parlamento faça inserir em seus Anais esta nossa sincera homenagem a esse mineiro de Minas Novas, Pastor e Príncipe da Sé Romana, que ainda hoje, para a nossa alegria, convive conosco e enriquece-nos com sua presença benfazeja. E vamos terminar nossas palavras citando um trecho do Magnificat, oração tão cara a D. Serafim, pedindo aos colegas Parlamentares que nos acompanhem neste momento de contrição; assim fazendo, além de reverenciar nosso homenageado, estaremos concentrando nosso espírito no que é reto e justo e iluminando nosso trabalho nesta Câmara: "O Todo Poderoso fez por mim grandes coisas. O Seu nome é santo, e Sua misericórdia se estende de geração em geração para todos os que O temem. Agiu com a força de Seu braço, e dispersou os orgulhosos. Depôs os poderosos de seu trono e elevou os humildes. Cumulou de bens os necessitados e despediu ricos de mãos vazias."
Parabéns, D. Serafim Fernandes de Araújo. Receba da Câmara dos Deputados e dos representantes do povo nesta Casa nossa manifestação de admiração e de reconhecimento.
Muito obrigado.



HOMENAGEM PÓSTUMA, JOÃO BOSCO MURTA LAGES, ATIVIDADE POLÍTICA, ATIVIDADE PROFISSIONAL, ELOGIO.
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