CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Sessão: 203.2018 Hora: 11h26 Fase: BC
  Data: 04/09/2018

Sumário

Artigo Herdeiros de Luzia, sobre o incêndio ocorrido no Museu Nacional, de Luiz Antônio Simas, publicado pelo jornal O Globo.

 O SR. CHICO ALENCAR (PSOL - RJ. Sem revisão do orador.) - A confusão não me desonra nem um pouco. O que nos desonra a todos, sem exceção, é a tragédia que incinera a nossa memória, o nosso patrimônio, o nosso acervo, inclusive natural: o incêndio no Museu Nacional, fruto de uma histórica omissão e descaso das autoridades em relação à cultura neste País.
Então, eu queria, Sr. Presidente, que buscássemos agora, unidos, soluções. A Deputada Jandira vai estar também com o Presidente da Casa e com o Reitor da UFRJ. Nós temos que passar para a recuperação, acender uma luz, e não apenas chorar as trevas.
Quero deixar registrado nos Anais da Casa um artigo excelente do historiador e cronista carioca Luiz Antônio Simas chamado Herdeiros de Luzia, sobre o Museu Nacional.

DISCURSO NA ÍNTEGRA ENCAMINHADO PELO SR. DEPUTADO CHICO ALENCAR.


Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, todos os que assistem a esta sessão ou nela trabalham, apresento aqui, para registro nos Anais da Câmara, artigo de Luiz Antônio Simas publicado hoje, dia 4 de setembro, no jornal O Globo, que trata da tragédia que atingiu o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro.
Agradeço a atenção.

ARTIGO A QUE SE REFERE O ORADOR

Herdeiros de Luzia
"Quando moleque, depois de ir ao museu, dei de sonhar com múmias, meteoros, onças, índios, incas".
Os índios de Morená, a praia sagrada do Xingu, acreditam que nos troncos de árvores moram encantados os espíritos de seus ancestrais. Quando um terreiro de candomblé é criado, planta-se no solo, em cerimônias que envolvem elementos da natureza, o axé (força espiritual) da casa, que perpetuará naquele local o acúmulo de saberes que a ancestralidade proporciona à comunidade. O Museu Nacional era também uma árvore sagrada e um terreiro. A devastação do museu, consumido pelo fogo do descaso, é a dispersão do axé, a queda dos troncos das árvores sagradas, o esfacelamento do elo de ancestralidade que faz a vida em comunidade ser possível.
O samba da Imperatriz Leopoldinense para o carnaval de 2018, em homenagem ao bicentenário do museu, dizia em certo trecho: "Em cada canto, um herdeiro de Luzia". A frase sintetiza a ideia belíssima e plural de humanidade que o museu sugeria: carajás, bororós, marajoaras, incas, egípcios, povos do Daomé; herdeiros de ancestralidade comum, representados pelo fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil. O museu sempre me pareceu dizer em suas salas: estamos no mesmo barco.
Um lugar não se limita à matéria de seus alicerces. Nele estão amalgamadas memórias, aspirações, anseios, sonhos, alegrias e invenções da vida de incontáveis gerações. Um museu, além do acervo, é também resultado das experiências intangíveis, matéria da memória acumulada pelos que nele experimentaram a aventura do conhecimento. O incêndio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, destrói um acervo crucial para o Brasil - com 20 milhões de peças -, escancara o descompromisso com a ciência por parte do poder público e rasga o peito de um país que parece ter propensão para destruir os seus lugares de memória.
A Quinta da Boa Vista, onde o museu está sediado, é o grande parque carioca. O velho terreno entre o Rio Maracanã e os sacos de São Cristóvão e Inhaúma, doado a D. João pelo comerciante português Elias Antônio Lopes, tem história para dar e vender. Não me refiro apenas ao prédio do passado imperial, consumido pelas chamas.
Refiro-me a uma Quinta da Boa Vista praticada pela cidade; marcada pelos piqueniques dominicais e pelas pipas rabiscando o céu. Falo da Quinta dos namorados, das sessões de fotografias das debutantes suburbanas na gruta artificial, da zorra da criançada descendo gramados em pedaços de papelão e da visita das famílias ao museu, a primeira instituição científica do Brasil e o maior centro de história natural da América Latina.
Lembro-me de que, quando moleque, depois da minha primeira ida ao local, dei de sonhar com múmias, meteoros, onças, índios e incas durante uns dias. Decorei nomes de dinossauros e resolvi que seria arqueólogo. Quando levei pela primeira vez meu filho ao Museu Nacional, vi repetido no moleque o deslumbramento que tive.
Dos figurões de ternos elegantes, e de seus gabinetes, só podemos esperar mesmo o desencantamento do mundo à mão armada, o sucateamento, a brutalidade, o desprezo pela aventura do conhecimento. Na tristeza das primeiras horas da devastação, ocorreu-me que meu pai me levou e eu levei o meu filho ao Museu Nacional. Meu moleque provavelmente não terá nada a mostrar para os que virão. Não é o passado que assistimos consumido pelas chamas. É o futuro dos herdeiros de Luzia que queimou ali. 



ARTIGO DE JORNAL, INCÊNDIO, MUSEU NACIONAL (BRASIL).
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