CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Sessão: 132.4.55.O Hora: 17h40 Fase: BC
  Data: 29/05/2018

Sumário

Transcurso do Dia do Geógrafo. Artigo Estradas do colapso, sobre questões relacionadas ao movimento grevista de caminhoneiros, de autoria do orador, publicado pelo Blog do Noblat.

O SR. CHICO ALENCAR (PSOL-RJ. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, quero saudar a geógrafa e o geógrafo pelo seu dia nacional, 29 de maio, data de criação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 1936.
Lembro o grande geógrafo Milton Santos, que dizia que Geografia é o estudo das relações entre a humanidade e o espaço vivido, o planeta. Tem tudo a ver com ecologia, com a busca de uma relação mais equilibrada, com a sensação de sermos irmãos de tudo o que tem patas, asas ou raízes e de tudo o que é mineral, vegetal ou animal.
Quero, por fim, pedir a transcrição deste meu artigo, que saiu no Blog do Noblat. Trata da opção rodoviarista, da política de preços da PETROBRAS e da urgência de reformas estruturais para superarmos a profunda crise em que nos encontramos.

PRONUNCIAMENTO ENCAMINHADO PELO ORADOR

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, todos os que assistem a esta sessão ou nela trabalham, apresento aqui, para que seja transcrito nos Anais da Câmara, artigo meu publicado hoje, 29 de maio, no Blog do Noblat. Trata da recente greve dos caminhoneiros e dos caminhos que nos trouxeram até esta crise.
Agradeço a atenção.

ARTIGO A QUE SE REFERE O ORADOR

Estradas do colapso

O maior buraco na via Brasil hoje é um governo federal incompetente, desarticulado e sem mínima credibilidade. Mas essa cratera, por si só, não explica a viagem acidentada que nos levou à crise dos combustíveis que engarrafa o país. Na síntese que o pequeno espaço aqui permite, apontaria três eixos explicativos da nossa paralisia atual:
1) A opção rodoviarista. Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, no século XIX, liderou a criação de ferrovias no Brasil. Até que tentou, mas fracassou. O que prevaleceu no século XX foi o rodoviarismo. Washington Luís, último presidente da República Velha, tinha como lema o "governar é abrir estradas". E JK, na segunda metade dos anos 50, foi louvado por "substituir o jegue pelo jipe". No início dos anos 60 o país tinha 38 mil km de estradas de ferro, o que correspondia a oito vezes o percurso do Oiapoque ao Chuí. No final dos anos 90 tínhamos 10 mil km... a menos! Só para comparar com um dos BRICs, a Índia tem 68 mil km de ferrovias. Lembre-se que nossas predominantes rodovias são precárias: do milhão e 700 mil km de estradas, apenas 211 mil estão pavimentados - apesar do complexo automotivo representar mais de 20% do PIB. De novo a Índia: ali há 1,5 milhão com asfalto.
2) A política de preços da Petrobras. Circulam no Brasil 2,2 milhões de caminhões - 40% desses são operados por autônomos, donos dos veículos. Os demais são de empresas, as que se beneficiam com a desoneração da folha de pagamento. Todos os motoristas enfrentam duras condições de trabalho, com fretes defasados, pedágios escorchantes e jornadas exaustivas, pois há prazos rígidos para as entregas. Em meio a esse quadro quase crônico, a Petrobras da gestão de Pedro Parente vinculou os preços dos seus produtos à variação do dólar e ao preço internacional do barril do petróleo, gerando uma oscilação semanal que arrebenta qualquer planejamento: no último ano, o gás de cozinha subiu 67%, o diesel 58% e a gasolina 53%! Além disso, a Petrobras optou por reduzir o refino interno. Em 2013, eram utilizados 100% da capacidade de nossas refinarias, e com isso se atendia a 90% da demanda interna. Agora, o refino é de apenas 76%. Cresceram as exportações do óleo bruto. Hoje, 24% do consumo interno dos derivados, como diesel e gasolina, são importados, sobretudo dos EUA.
3) A ausência de reformas estruturais. Os problemas imediatos tendem a ser superados. O governo temerário vai se abrindo à pauta de justas reivindicações, mesmo comprometendo a arrecadação do Estado para programas sociais e para a Previdência. A rigor, sem uma mudança progressiva de nossa matriz energética de transporte - temos 50 mil km de rios navegáveis e abundância solar! - o gargalo evidenciado com o desabastecimento geral voltará. E sem uma Reforma Tributária também progressiva e radical, taxando menos a renda do trabalho e mais os ganhos dos rentistas do capital, continuaremos em crise, com o aprofundamento da desigualdade social.



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