CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Sessão: 054.4.55.O Hora: 17h40 Fase: OD
  Data: 27/03/2018

Sumário

Transcurso dos 50 anos do assassinato de estudante durante movimento a favor da educação, no Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro. Exigência de elucidação dos homicídios da Vereadora Marielle Franco e do seu motorista Anderson Pedro Gomes. Apresentação, à Procuradoria-Geral da República, de denúncia contra o Deputado Pr. Marco Feliciano por ofensa à memória da Vereadora. Artigo de autoria do orador intitulado Os serial killers de Marielle.

O SR. CHICO ALENCAR (PSOL-RJ. Como Líder. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Sras. Deputadas, Srs. Deputados, servidores, todos que acompanham esta sessão, por delegação do nosso Líder, o Deputado Ivan Valente, uso esses 3 minutos da Liderança do PSOL para lembrar um fato histórico e trágico. Há meio século, em 28 de março de 1968, um estudante, no Rio de Janeiro, quando participava de uma manifestação por mais educação e menos canhão e por comida decente no restaurante estudantil Calabouço, foi assassinado em um choque da Polícia Militar.
Naquele tempo de ditadura civil-militar, nós - e eu estava presente - velamos o seu corpo na então Assembleia Legislativa da Guanabara. Ficamos em vigília de um dia para o outro para que o seu corpo não fosse sequestrado e que o sepultamento dele, no dia seguinte, que reuniu uma multidão de mais de 50 mil pessoas, fosse realizado.
Aquele acontecimento recrudesceu a resistência à ditadura, culminou 2 ou 3 meses depois com a famosa Passeata dos Cem Mil, mas o sistema do autoritarismo, das grandes corporações, da ditadura, naquele contexto de Guerra Fria, acabou por se impor, com o Ato Institucional nº 5 e a agudização da repressão, da censura, da tortura e da morte dos opositores.
Passados 50 anos, lá estávamos nós agora, dia 14 de março, velando a nossa amada companheira e Vereadora Marielle Franco e o Anderson Gomes, que dirigia o automóvel em que ela se encontrava. Assassinato cruel, premeditado, bárbaro, profissional, por grupos até agora ainda não conhecidos que o perpetraram.
Nós estamos aqui para insistir, como o Deputado Glauber Braga já o fez, na cobrança da elucidação desse fato. Repete-se, inclusive, com a espiral de violência, esse salvo-conduto para matar, que parece existir no Rio de Janeiro, que vitima também policiais, a quem Marielle, como defensora dos direitos humanos, defendia igualmente, quando alvo dessa barbaridade, desse arbítrio, e do crime, seja da polícia, seja dos traficantes armados.
Então, nós estamos muito preocupados. Essa espiral de violência se traduz inclusive em pedradas contra caravanas, seja de quem for, que vão manifestar, com toda a clareza, o seu direito à opinião e a sua visão política. Isso tudo é uma espiral de violência, que pode levar a mais mortes, a mais covardia, inclusive com grupos que são tão mais organizados quanto imbricados no poder do Estado. É preciso que nós tenhamos essa responsabilidade para denunciar toda essa violência.
Eu queria, Sr. Presidente, chamar até a sua atenção em especial porque, além do episódio lamentável do Deputado Alberto Fraga - já tomamos providências a respeito, e S.Exa. recuou naquelas ofensas a Marielle, mas para nós é uma dor que não passa e uma ofensa que tem uma dimensão incalculável -, agora quem agiu, e é espantoso que sempre fala na condição de pastor, de cristão, foi o Deputado Pr. Marco Feliciano, que disse simplesmente o seguinte, o que atinge a muitos de nós aqui, e ele se referia ao caso da Marielle: "Outro dia, deram um tiro num esquerdista no Rio de Janeiro, mas ele levou uma semana para morrer, porque a bala não encontrava o seu cérebro, porque esquerdista tem cérebro de ervilha". Isso é de uma insensibilidade, de uma agressão só comparável à fala dele mesmo, nesse programa de rádio de grande audiência, em que ele ofendeu a memória de Marielle, com um monte de mentiras, de torpezas. Isso não é admissível. Nós já entramos com uma denúncia na Procuradoria-Geral da República, contra esse Deputado, que aí desonrou, inclusive, a sua condição de cristão.

PRONUNCIAMENTO ENCAMINHADO PELO ORADOR

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, todas e todos que assistem a esta sessão ou nela trabalham, apresento aqui, para os Anais da Câmara, artigo meu publicado no Jornal do Brasil, na sexta passada, dia 23 de março. Trata do brutal assassinato de Marielle e também das sucessivas mortes que ela sofre com agressões às suas pautas e sua imagem.

ARTIGO A QUE SE REFERE O ORADOR

Os serial killers de Marielle
"Morto amado nunca mais para de morrer", disse Mia Couto. A saudade é o sacramento daquele corpo que não mais veremos, da voz que não escutaremos, da lágrima que não rolará daqui em diante por aquele rosto. Nossos mortos queridos não cessam de morrer, e nós, deles, fazemos memória: por eles semeamos. Tentando ser um pouco eles, prosseguimos.
Mas há outras mortes daqueles que já morreram. Nossa Marielle continua sendo morta pelos cultores do ódio, que não se contentam com sua brutal eliminação. Atualizam a abominável sanha de atribuir à vítima a culpa por seu próprio martírio.
Assassinam Marielle os que a caluniam com o arsenal venal de mentiras. A começar por aqueles ignaros que consideram que nascer e crescer em favela gera cumplicidade com quem as domina, despoticamente, no vácuo da omissão criminosa do Poder Público.
Matam Marielle os que querem manter na exclusão os que ela, por coerência de vida, sempre defendeu: os pobres, os marginalizados, os discriminados. Voz dos que não têm voz, Marielle teve a sua silenciada por representar, com dignidade, os invisibilizados.
Agridem Marielle os que, subitamente "sensibilizados" pela morte de tantos inocentes - foram 60 mil assassinatos no Brasil, ano passado! - reclamam do "alvoroço" em torno da dela. Má-fé ou burrice, eles não sabem ou fingem desconhecer que Marielle fez de seu mandato estupidamente interrompido uma trincheira de solidariedade para com os anônimos eliminados pela violência. Inclusive policiais. Ela era uma representante eleita, e seu trucidamento atinge gravemente a democracia. Tentam apagar Marielle os que, autoproclamados "sensatos", repetem a idiotice do "não politizar" um crime... político, cometido pelos que se incomodam com as pautas defendidas por ela, que são as do seu partido. Não se trata de encher de bandeiras do PSOL as multidões consternadas com o duplo homicídio covarde, mas jamais esconder que ela era, sim, uma militante partidária. E temos orgulho disso. E continuaremos sua luta.
Farão novos disparos contra Marielle os que, responsáveis pela investigação da trama diabólica, não chegarem aos atiradores e mandantes. E não começarem a desmantelar os elos da parceria público-privada do crime, que é tão mais organizado quanto imbricado no aparato de Estado.
Há exato meio século, na mesma Cinelândia onde velamos Marielle e Anderson, ficamos em vigília em torno do corpo inerme do estudante Edson Luís, morto aos 18 anos por uma bala da PM que reprimia manifestação por "mais educação e menos canhão". Ásperos tempos, de ditadura assassina. O crime, que levantou multidões, inspirou Milton Nascimento: "quem cala sobre teu corpo/consente na tua morte".
Os assassinos profissionais de Marielle e Anderson ainda estão protegidos pelo manto da cumplicidade. Cabe a nós denunciar os que tentam matá-la novamente e que vicejam em meio ao lixo da Internet. Em memória de Marielle e de tantas vítimas dos sombrios de dedos sujos nos gatilhos ou nos teclados, não nos calaremos. Não consentiremos, jamais.


ANIVERSARIO, FALECIMENTO, ESTUDANTE, PROTESTO, DEFESA, EDUCAÇÃO. MARIELLE FRANCO, VEREADOR, RIO DE JANEIRO (RJ), ANDERSON PEDRO GOMES, MOTORISTA, HOMICÍDIO, OFENSA, PR. MARCO FELICIANO, DEPUTADO FEDERAL, REPUDIO, TRANSCRIÇÃO, ANAIS DA CÂMARA DOS DEPUTADOS.
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