CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Sessão: 053.1.52.O Hora: 10h30 Fase: HO
  Data: 23/04/2003

Sumário

Transcurso do 43º aniversário de fundação de Brasília, Distrito Federal.

O SR. JOSÉ ROBERTO ARRUDA (PFL-DF. Sem revisão do orador.) – Sr. Deputado Inocêncio Oliveira, Vice-Presidente da Câmara dos Deputados, que ora preside, como cidadão brasiliense, esta solenidade; Senador Mauro Benevides, que já presidiu esta Casa e nos honra com a presença; Dr. Álvaro Teixeira da Costa, Diretor-Presidente dos Diários Associados e do Correio Braziliense, jornal que completa seu 43º aniversário no mesmo dia em que comemoramos o aniversário de Brasília; Sra. Embaixatriz Lúcia Flecha de Lima, Secretária de Turismo; Sras. e Srs. Secretários de Estado; presidentes de empresas; Administradores Regionais e demais autoridades do Governo do Distrito Federal; meu caro amigo, patrimônio da história desta cidade, Dr. Ernesto Silva; senhores pioneiros que, vindos das mais diversas regiões do País, ajudaram Juscelino Kubitschek a realizar o sonho de todo um povo, ou seja, a construção desta Capital; Sras. e Srs. Deputados; Sr. Senador Paulo Octávio, meus cumprimentos.
Estendo meus cumprimentos aos meus caros amigos, presidentes de associações, de sindicatos, de federações; aos empresários, profissionais liberais; ao meu caro amigo, Deputado Distrital, Jorge Cauhy, decano da Câmara Legislativa, em nome de quem peço licença para cumprimentar as Sras. e os Srs. Deputados Distritais e agradecer-lhes a presença nesta solenidade; ao Sr. Wilson Lang; ao Sr. Presidente e aos Diretores do Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura; e ao Sr. Presidente do CREA do Distrito Federal.
A presença de todos nesta sessão de homenagem é muito importante. Brasília é o símbolo da engenharia e da arquitetura brasileira.
O SR. PRESIDENTE (Inocêncio Oliveira) – Esta Presidência pede licença ao ilustre orador para, neste instante, saudar S.Exa. o Governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, e convidá-lo para compor a Mesa. (O Plenário, de pé, aplaude-o demoradamente.)
Retorno a palavra ao ilustre orador.
O SR. JOSÉ ROBERTO ARRUDA Muito obrigado, Sr. Presidente.
Cumprimento o Governador do Distrito Federal, Sr. Joaquim Roriz, cuja presença marca o apreço que S.Exa. tem por Brasília e pelo Congresso Nacional.
Sr. Presidente, Sras. e Srs. Parlamentares, senhores convidados, mais uma vez reúne-se o Congresso Nacional — ontem, o Senado Federal; hoje, a Câmara dos Deputados — para homenagear Brasília.
Ontem, enquanto convidava os pioneiros que marcaram a história de Brasília para esta sessão de homenagem, veio-me à memória episódio narrado no livro de memórias de Juscelino, ocorrido em 1972. Brasília tinha, portanto, apenas 12 anos.
Pois bem. JK, cassado, proibido de visitar a cidade que havia construído, resolvera comprar uma pequena fazenda próxima a Brasília para nela viver seus últimos anos de vida. S.Exa. veio a Brasília com o cuidado de não entrar no quadrilátero do Distrito Federal. Com a ajuda de amigos, visitou algumas áreas rurais da região do Entorno.
Ao final daquela visita, chovia muito. Juscelino, que estava na cabina de uma caminhonete dirigida por um pioneiro de Brasília, pediu para ser levado para Luziânia. De lá voaria em um pequeno avião bimotor até Unaí, depois iria para Belo Horizonte. Mas o motorista, incomodado com o fato de o criador da cidade estar proibido de circular em Brasília, mudou de percurso e foi parar no Catetinho. Juscelino, percebendo que se aproximava de sua antiga residência, não conteve a emoção, mas pediu ao amigo que seguisse viagem. E não percebeu que ele, traindo sua confiança para não trair a história, em vez de sair de Brasília, entrava na cidade. Chovia muito quando a caminhonete chegou à região do aeroporto e depois ao Eixo Rodoviário Sul. O Presidente, ao notar que estava entrando na cidade que não via há doze anos, emocionou-se e ao mesmo tempo ficou tenso; afinal sua estada na Capital era proibida. O motorista disse-lhe então: "Presidente, coloque este chapéu. Ninguém vai reconhecê-lo. Chove muito". E ele o colocou e começou a chorar. Não sabia que Brasília, em apenas doze anos, tinha se consolidado como cidade. Seguiram na caminhonete por todo o Eixo Rodoviário Sul e dobraram no Eixo Monumental. Desceram na altura da Catedral, e nela o Presidente JK entrou pela primeira vez. Emocionado e ao mesmo tempo extasiado fez sua oração. Voltaram para a caminhonete. Continuaram o percurso pelo Eixo Monumental em direção à Praça dos Três Poderes e passaram em frente ao Congresso Nacional. Ele pediu que o motorista parasse em frente ao busto construído em sua homenagem. Foram até o Palácio do Buriti. Depois, vagarosamente, foram deixando Brasília.
Aquela foi a primeira vez que o Presidente, grande estadista da história brasileira, visitava a cidade que ele próprio havia construído e inaugurado. A pessoa que dirigia aquela caminhonete é o pioneiro Wayner Faria, que está ali sentado. (Palmas.)
Além de conversar com ele, conversei também com Ernesto Silva, Vera Brant e Afonso Heliodoro, que talvez tenham convivido mais tempo com o Presidente Juscelino, nos bons e nos maus momentos. Enfim, fiquei a me indagar: qual cidade do mundo pode ter a sua história contada por seus próprios atores, experientes e lúcidos — e ao mesmo tempo testemunhas da página mais bonita da história brasileira?
Quando Juscelino veio reconhecer o sítio demarcado para a construção da Capital, Ernesto Silva já estava aqui.
Para quem não sabe, a primeira diretoria da NOVACAP foi formada por Israel Pinheiro, Bernardo Sayão, Íris Meinberg e Ernesto Silva, que aqui está fazendo uma homenagem a esta Casa. (Palmas.)
Pensando nessas histórias, tenho a obrigação de registrar, desta tribuna —embora Adirson Vasconcelos, Cláudio Bojunga e tantos outros historiadores já tenham registrado nos seus livros —, que a nossa geração reconhece que até a época de Juscelino o Brasil ainda era aquele do tempo de Pedro Álvares Cabral: um país tímido, que ocupava estreita faixa de terra no litoral. Durante 450 anos, ficamos olhando o Oceano Atlântico, de costas para o próprio território, como se tivéssemos saudades das caravelas portuguesas ou dos navios negreiros. Foi JK quem despertou o sentimento de nacionalidade, dando confiança ao povo brasileiro, fazendo com que todos se voltassem para o seu território.
Brasília é o símbolo da interiorização do desenvolvimento e da conquista, pelos brasileiros, do próprio território. Juscelino, audacioso e visionário, disse ao povo que era possível, em apenas três anos e meio, construir no cerrado, no Planalto Central, naquela solidão que em breve se tornaria o centro das mais altas decisões nacionais, a Capital da República. Todos acreditaram naquele sonho.
As histórias mais bonitas sobre Brasília são contadas pelos homens e mulheres que saíram de suas regiões e para cá vieram em lombos de burro, a pé, em carroceria de caminhão, em pau-de-arara. Eles aqui chegaram com pouca bagagem, mas com muita esperança.
Nesse exíguo espaço de tempo, reúnem-se em Brasília — isso nunca havia ocorrido antes na história do Brasil — povos do Nordeste, do Norte, do Sul e do Centro-Oeste. Essas pessoas passaram a formar uma nova cultura. O sonho de Dom Bosco passou a ser a esperança de toda uma geração de brasileiros.
Brasília não é apenas uma nova cidade. Ela desperta na alma do brasileiro o desejo de dizer ao mundo que aqui existe uma nova cultura, uma nova civilização.
O Brasil, que até os anos 50 estava acostumado a perder tudo, como por exemplo a Copa do Mundo para o Uruguai, no Maracanã, resolve começar a ganhar. Surgem Pelé e Garrincha; ganha o País o campeonato em 1958 na Suécia; Ieda Maria Vargas é eleita Miss Universo; Maria Esther Bueno vence no tênis; Éder Jofre, no boxe. Surge a genialidade de Lúcio Costa, para inovar no urbanismo, acompanhado de Oscar Niemeyer, para plantar aqui as raízes que Le Corbusier havia tentado plantar inicialmente na França e no prédio do MEC, no Rio de Janeiro. E com eles vêm Burle Marx e Bernardo Saião, com sua ousadia e coragem de construir estradas, além de uma plêiade de homens e mulheres notáveis que, vivendo numa mesma época, juntaram-se para construir não apenas uma nova capital, mas também para inaugurar um novo período da história brasileira.
Nessa época, surgiram a música popular brasileira, com Tom Jobim e Vinícius — compuseram inclusive a Sinfonia da Alvorada —, e o cinema novo, com Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos.
A partir de então o mundo inteiro entendeu que a Capital do Brasil não era Buenos Aires. Passou a acreditar na nova civilização que nascia nos trópicos, resultado de uma miscigenação de raças que deu certo, que conseguia falar o mesmo idioma, que não era separada pelas diferenças de ordem religiosa ou racial e que fazia o milagre de ocupar o seu vasto território pacifica e ordenadamente, com alegria e bom humor.
É este o País que Juscelino Kubitschek inaugurou. E é esse estadista que todos reverenciamos — aliás, não apenas ele, mas todos os candangos — em mais um aniversário de Brasília.
Poucas vezes este plenário acolheu tantos homens e mulheres vindos de todas as cidades satélites, representantes das mais diversas classes sociais, para refletirem conosco sobre a importância de Brasília não apenas para nós, que temos o privilégio de criar aqui nossos filhos, mas para todos os brasileiros, com a inauguração de uma nova civilização.
Sr. Presidente, Deputado Inocêncio Oliveira, Sr. Governador de Brasília, Joaquim Roriz, nós, que recebemos esta belíssima cidade, construída no centro do País, eqüidistante de todas as regiões, com arquitetura arrojada e moderna, planejada principalmente para que seus habitantes sejam felizes, somos privilegiados.
Temos obrigação de homenagear aqueles que ajudaram a construir Brasília. Para sermos dignos desta cidade, temos de zelar por ela. Temos de pensar o que podemos fazer para resgatar a idéia central da sua criação.
E qual a idéia central da criação de Brasília? Como Juscelino explicava aos brasileiros da década de 50 o seu gesto de construir uma nova capital? Ele não dizia que queria apenas construir uma cidade nova e bonita para ser capital. Isso seria muito pouco. Juscelino dizia aos brasileiros que a construção de Brasília, das estradas, das usinas era o ponto fundamental, a meta síntese de um programa de governo que visava interiorizar o desenvolvimento nacional, diminuir as desigualdades entre as regiões mais avançadas e produtivas e as mais pobres.
A pergunta que todos temos de nos fazer é: nesses 43 anos, Brasília cumpriu a sua missão? A resposta é clara. No início, sim. É inegável que sua construção abriu as portas da Amazônia e do Pantanal. Depois a EMBRAPA tornou o cerrado produtivo. A construção de Paulo Afonso, de Três Marias, das estradas, da indústria automobilística, principalmente a de Brasília, tudo isso interiorizou o desenvolvimento nacional, até certa época, porque não se deu continuidade a esse projeto que Juscelino incentivava na campanha que não houve, de JK-65.
A Belém-Brasília não foi concluída até hoje; as cidades pólos de desenvolvimento também não. Precisamos ter a coragem de dizer claramente que, se Brasília ainda não cumpriu sua missão, algo tem de ser feito para resgatar a idéia de Juscelino e resolver os problemas das grandes cidades brasileiras — inclusive o da violência, que está assolando o Rio de Janeiro e várias outras cidades —, não com medidas internas, mas com um novo modelo de desenvolvimento que faça com que os brasileiros possam ter boa qualidade de vida na sua região de origem.
Sr. Presidente, não posso concluir o meu discurso sem deixar uma sugestão prática, que não é minha. Quero resgatar a idéia trazida a esta Casa por um dos mais ilustres membros de toda a sua história, nascido em Minas Gerais, mas que passou toda sua vida em Brasília. Refiro-me ao Deputado João Pimenta da Veiga que, desta tribuna, deixou na Câmara dos Deputados a idéia da redivisão territorial do Brasil. Propunha um decreto legislativo ou uma Comissão Especial formada por Deputados de todos os Estados para estudar os projetos já existentes, em tramitação nesta Casa: de redivisão do Estado do Amazonas, mantendo Manaus como a Capital do Estado, criando os Estados de Rio Negro, do Solimões, do Juruá, do Uirapuru e de Madeira; mantendo o Estado do Pará com a Capital Belém e criando os Estados de Carajás, do Xingu e do Tapajós; mantendo o Estado de Mato Grosso com a Capital Cuiabá, mas criando os Estados de Aripuanã e do Araguaia. Seriam, no total, dez novas Unidades da Federação.
Esses dez novos projetos somam-se à idéia que o Deputado Virgílio Guimarães apresentou nesta Casa e que foi também apresentada no Senado pelo Senador Francisco Escórcio, no sentido de se rediscutir se Brasília deve ter os 5.800 quilômetros quadrados atuais ou deve voltar à área inicial para a qual foi planejada no Quadrilátero Cruz, de 14.500 quilômetros quadrados, englobando portanto as cidades do Entorno, que hoje já fazem parte da sua vida cotidiana.
Sr. Presidente, a maior homenagem que se pode prestar a Brasília e a Juscelino é o Congresso Nacional ter a coragem de discutir a redivisão territorial do Brasil. Deu certo com Tocantins e com Mato Grosso. Quem sabe estaremos resgatando as idéias de Juscelino Kubitschek e lançando as bases de um novo modelo de desenvolvimento, menos injusto e desigual?
Agradeço aos pioneiros, às senhoras e aos senhores que vivem em Brasília, a todos os convidados e ao Governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, a presença.
Muito obrigado. (Palmas.)



CAPITAL FEDERAL, BRASÍLIA, JUSCELINO KUBITSCHEK, EX-PRESIDENTE DA REPÚBLICA, HOMENAGEM. DIVISÃO TERRITORIAL, BRASIL, CRIAÇÃO, ESTADOS, DEFESA.
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